sexta-feira, 17 de setembro de 2021

ZEQUINHA E LAMARCA, 50 ANOS DEPOIS

 

   


   Preciso dizer que o Monumento aos Mártires é obra da Diocese da Barra, Igreja Católica, sob a regência do bispo Dom Luiz Cappio.

   E que homenageia não só Zequinha Barreto e Carlos Lamarca, mas outras "pessoas que entregaram a vida por causa justa":

   Josael de Lima, que morreu assassinado por grileiros na cidade da Barra;

   Manoel Dias, também morto por grileiros na cidade de Muquém do São Francisco;

   Luiz Antônio Santa Bárbara e Otoniel Campos Barreto, assassinados no distrito de Buriti Cristalino pelas forças da Ditadura Militar, no dia 28.08.1971.

   O Memorial aos Mártires foi erguido em 2013, no mesmo local em que tombaram Zequinha Barreto e Carlos Lamarca, no distrito de Pintada, município de Ipupiara, bem próximo a Brotas de Macaúbas.

   O monumento retrata Zequinha carregando Lamarca e é obra do artista plástico Carlos Roldão.

   Lembrar os que morreram por ousar lutar, esta é a principal mensagem deste dia.

   Para que mais tarde não se pergunte como se chegou a este ponto. Ou àquele.


quinta-feira, 16 de setembro de 2021

17 DE SETEMBRO DE 1971

  

   

   
   Dois homens, neste dia, foram assassinados no sertão da Bahia. 

   Dizem que dormiam debaixo de uma braúna. Em riscos de sombra, sob um sol abrasador.

   Mais provável que exangues, desfalecidos.

   Um deles teria se levantado e atirado pedras nos assassinos. Pedras.

   O mais jovem, o nativo, aquele que foi visto carregando nos ombros o companheiro de tribulações.

   Zequinha. Zequinha Barreto.

   Dizem ainda que tentou fugir, depois de atirar pedras, e foi então metralhado.

   O outro recebeu sua cota de balas deitado onde estava. Lamarca.

   Cinquenta anos depois, os dois estão imortalizados em monumento.

   Lá na Pintada, no mesmo local em que foram mortos, tidos como Mártires.

   Enquanto aqueles que os mataram voltam a apontar suas armas na direção da Liberdade.

   Mártires, junto a outros mártires, deles poucos se lembram.

   Amanhã haverá missa na Pintada, junto ao monumento.

   E só?

domingo, 10 de janeiro de 2021

2020, QUEM DIRIA...


45 garrafas de vinho tinto das mais distintas procedências.

03 litros de uísque envelhecidos.

06 garrafas de cachaça de Boquira diluídas em batidas de limão.

04 garrafas de Brandy, sendo duas da Embrapa e duas vindas de Jérez de la Frontera.

Algumas dúzias de cerveja puro malte.

Muitas horas de Spotify, algumas listas de mornas canções.

Encontro com obras e vozes femininas das mais deslumbrantes:

Lhasa de Sela, Concha Buika, Alela Diane, Térez Montcalm, Hindi Zahra, Lisa Hannigan e a fenomenal Laura Marling.

Filmes e séries vistos à exaustão; alguns até mereceram nosso tempo.

Muitos livros lidos pela primeira vez, outros revisitados, muitos.

Um quase nada escrito. Um mundo sonhado.

Tudo o mais acumulando pó.

E 2020 passou assim enviesado, na diagonal; ácido e áspero. 

À espreita.

domingo, 3 de janeiro de 2021

2021, QUEM DIRIA...

 

     Desconheço quem diga mais bobagens que eu. Sobre literatura. Não assino embaixo de muita coisa dita por mim por aí registrada. Me espanta, na verdade, tanta tolice. Meu pecado é não resistir a responder quando me perguntam. Aí tento elaborar algo. A maioria sola. Mas não consigo rir depois, nem agora, fico depressivo. E digo que nunca mais falarei nada sobre literatura. Problema é que tenho amigos. E no mais das vezes cedo. Quando devia era noitecer. E lá vou a dizer bobagens. Me desconheço, nessas horas. Não devia, a esta altura da partida finda. 

     Tive vontade de registrar isso aqui. Só eu mesmo leio. E muito de vez em quando. Quero voltar a esse tema adiante, esse alicerce fluido, magmático. Lamaçal de beira de rio, atoleiro, engancho. 

      Nada sei de literatura. Conto uns causos. Só isso. Talvez devesse parar de contar essas coisas que a ninguém mais interessa. Verdade é que por isso mesmo devo continuar. Ainda vivo. Embora só respire. Mas o que digo?! Bobagem, bobagens. Inevitável, como se lê.

     2021, quem diria...


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O BOSQUE SEM SAÍDA, de XAVIER RODRIGUEZ BAIXERAS

      Nosso amigo Baixeras despachou de Vigo, Galícia, Espanha, onde reside, seu novo livro, "O bosque sem saída". Um volume de poemas em duas partes: 1) Sair do gris, reunindo poemas de 2015 a 2017, e 2) O bosque vazio, com poemas de 2018/19. Na primeira parte, encontramos um bloco de poemas "baianos", por assim dizer, pois claramente inspirados por cenários e episódios vivenciados em suas passagens por nossa terrinha, em longas e repetidas férias de verão. Em um dessas nos conhecemos e o Baixeras tornou-se partícipe dos encontros no Ceasa do Rio Vermelho, em torno dos poetas Ruy Espinheira Filho e Florisvaldo Mattos. Bons e belos tempos!

      E na parte "baiana" do livro, assenta-se "O milagre da fruta-pão", dedicado ao final a Uaçaí Lopes e a este que ora faz este registro.

O MILAGRE DA FRUTA-PÃO

         Os sobrinhos de Justino brincavam com bois de fruta-pão (Herberto Sales)

Percorri o mercado buscando a fruta-pão,
sabendo que servira de brinquedo
em certa infância ignota. Fui buscando,
buscando a fruta-pão.

Percorri com alguém que conhecia a fruta
e que foi inquirindo, e respondiam:
não tem infância, mas sigam sigam
buscando a fruta-pão.

E meu guia falando que, uma vez cozinhada,
é grosseiro arremedo de batata,
que era estranha aventura essa de andar
buscando a fruta-pão.

E então me perguntou: de onde tirou, amigo,
que tal fruta foi um dia brinquedo,
que andaram as crianças pela rua
buscando a fruta-pão?

Respondi que era certo, que fora fruta mágica,
que as crianças a viram como um boi
e que agora eu voltava a esse delírio,
buscando a fruta-pão.

E as frutas percorreram devagar a calçada
com seus passos cansados e solenes,
e foram bois, e então já não segui
buscando a fruta-pão.

Em todas as barracas mexiam a cabeça,
como falando: disso não vendemos.
Há tempo que ninguém chegou aqui
buscando a fruta-pão.

                   Para Uaçaí Lopes e Carlos Barbosa

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

MATEUS ALELUIA, OLORUM




Quem se lembra do grupo musical “Os Tincoãs” e seus grandes sucessos, como Deixa a gira girar e Cordeiro de Nanã, vai entender bem a importância de um novo disco de Mateus Aleluia: é como manter acesa aquela chama de brilho e beleza, que brotava de uma sonoridade adocicada feito cana-de-açúcar do Recôncavo baiano. 

Mateus Aleluia nasceu em Cachoeira, passados 76 anos, e fez parte de “Os Tincoãs”, junto com Heraldo e Dadinho, na sua fase de ouro, quando o Brasil inteiro vibrou com eles nos anos 1970. Durante duas décadas, Aleluia morou em Angola, onde trabalhou para o governo como consultor.

“Olorum” é o terceiro disco autoral de Mateus Aleluia, depois de “Cinco sentidos” (2010) e “Fogueira doce” (2018), e tem produção de Ronaldo Evangelista, com participação especial de João Donato. O lançamento foi feito em uma live, que alcançou mais de 25 mil visualizações.

A canção que dá título ao disco resume à perfeição o espírito e a proposta do artista: um misto de oração de congraçamento em torno da idéia de união do ser humano e da busca incessante por um tempo melhor, a partir de sua ancestralidade africana. “Olorum/ seu povo está cansado/ de sofrer”, canta Aleluia numa abertura em voz e violão, em esforço emocionante de conexão com a divindade, “de joelhos, peço”, enquanto deixa claro que vê em cada ser humano um irmão. O clamor individual da abertura quebra-se, então, em ritmo e pulsação com a entrada dos tambores e demais instrumentos, um balanço nascido nos terreiros de candomblé e se popularizou desde “Os Tincoãs”. Em “Olorum”, o ritmo transporta a emoção da abertura para uma convicção de que a beleza, com certeza, supera todo e qualquer óbice cotidiano. “Olorum” já está disponível no Spotify.

domingo, 2 de agosto de 2020

QUARADOR


estendo esperanças
na laje nua do meu solar
em ruínas

(a chuva não deixa secar)

retorço esperanças
nas manhãs assustadas
de estio

(já começam a mofar)

aqueço esperanças
no poço das noites de insônia
e vigília

(algumas deixo escapar)

repasso esperanças
no crivo confuso por afetos
e ausências

(tecido frio a enrugar)

recolho esperanças
frágeis na rua; ameaças letais
viralizam

(luto pra respirar)

acoito esperanças,
por fim, na loca do meu coração
quarador

(sementes a germinar)


04.06.2020
em isolamento, em tempo de pandemia

domingo, 19 de julho de 2020

SONETOS REUNIDOS & INÉDITOS, RUY ESPINHEIRA FILHO



     “A literatura não é propriamente antidoto para as misérias da vida, mas ajuda muito na resistência”, é o que nos lembra o poeta Ruy Espinheira Filho, de seu refúgio em Busca Vida, na Grande Salvador. Em pleno período de isolamento social, por conta da Covid19, o poeta baiano entrega aos leitores seu quarto livro de sonetos, “Sonetos Reunidos & Inéditos”, que reúne todos os seus poemas neste formato produzidos entre 1975 e 2020. O livro já se encontra à venda no site da Editora Patuá, editorapatua.com.br, por R$ 40,00. O lançamento tradicional não ocorrerá de imediato, por motivos óbvios, devendo acontecer quando as condições sanitárias permitirem esse tipo de evento presencial.

     Publicar um livro de sonetos não é mais algo comum na cena literária brasileira. “Os livros de sonetos ficaram para trás”, diz Ruy, que tem se mostrado bem produtivo no gênero; mas, “ficaram e não ficaram, pois os bons continuam sendo reeditados e lidos. E, surgindo bons sonetistas, o soneto continuará presente e sempre novo – como é há séculos”, esclarece a seguir. E quando indagamos sobre o futuro próximo, diante da atual pandemia, o poeta recupera os versos de Manuel Bandeira, em “Passado, presente e futuro”, para defini-lo: “O futuro diz o povo que a Deus pertence./ A Deus?... Ora, adeus!” No entanto, Ruy lembra que “literatura é uma arte” e exemplifica sua importância com o ensinamento do poeta alemão Rilke: “Se um dia o mundo se romper sob seus pés, a arte permanecerá existindo independentemente como elemento criador e será a possibilidade meditativa de novos mundos e tempos”.  

     Ruy Espinheira Filho tem aproveitado esses meses de isolamento para novas leituras de clássicos, para trabalhar sua obra junto a editoras e escrever, escrever sempre, escrever crônicas quinzenais que publica no jornal A Tarde, de Salvador, prosa e poemas marcados por um lirismo inconfundível e um olhar crítico e renovado sobre a jornada do ser brasileiro. Bem por isso, em maio passado, Ruy nos brindou pelas redes sociais com uma “Canção em tempo de pandemia”, em cuja abertura refletia: “Dentro do mundo parado/ reexaminamos a vida:/ por que a tornamos assim/ tão infeliz, tão perdida?” E nos adiantou que em breve seu romance “Um rio que corre na lua” merecerá outra edição por uma nova editora, que também encomendou a ele um livro de poemas inédito. No ano dos seus 78 anos de idade, um ano considerado perdido por muitos em decorrência da pandemia em curso, o poeta maior da Bahia produz e publica como nunca, sendo exemplo de amor e dedicação à literatura e a sua obra. 

domingo, 15 de março de 2020

OS EXÉRCITOS, de Evelio Rosero



     Dei de cara com este livro numa pilha em promoção. Romance premiado, literatura colombiana, casal aposentado em vilarejo assolado pela guerrilha... hum, não podia deixá-lo para trás. Mesmo porque estamos em tempos de estocar alimentos para possível quarentena coronina, daí catei outros livros e os guardei no bagageiro do carro, meu mobilar.

     "Na cozinha, a bela cozinheirazinha  -  eles a chamavam de 'a Gracielita'  -  lavava os pratos em cima de um banquinho amarelo. Eu conseguia vê-la através da janela sem vidro da cozinha, que dava para o jardim. Mexia seu traseiro, sem saber disso, ao mesmo tempo em que esfregava: atrás da diminuta saia branquíssima cada canto do seu corpo se chacoalhava, ao ritmo frenético e consciencioso da tarefa: pratos e xícaras chamejavam em suas mãos trigueiras: de vez em quando uma faca serrilhada aparecia, luminosa e feliz, mas, em todo caso, como que ensanguentada. Eu também sofria, além de sofrer por ela, essa faca como que ensanguentada."


      O professor Ismael Pasos, 70 anos, é o narrador. Espirituoso, de humor ácido, o professor experimenta uma agitação de luxúria visual pelas vizinhas, a mulher do brasileiro e a mocinha agregada à família, sempre vigiado pela esposa Otília. Mas o vilarejo está no centro de refregas que envolvem três exércitos, dois deles paramilitares. Aí está o material com o qual Rosero trabalha, pelo ponto de vista do professor aposentado, sem receber seus proventos há dez meses e resistindo aos convites da filha para deixar o vilarejo e ir com ela morar, distante do horror sempre iminente.

     "Quando falou, ela já havia pressentido, na metade de um segundo, que eu não a indagava com os olhos. De repente, descobria que, como um torvelinho de água turva, repleto de sabe-se lá que forças  -  pensaria ela  -  em seu íntimo, meus olhos sofrendo, espiavam para baixo, para o centro entreaberto, sua outra boca em posse de sua voz mais íntima. 'Pois olhe para mim', gritava sua outra boca, e gritava apesar da minha velhice, ou, mais ainda, por causa da minha velhice, 'olhe para mim se você se atrever'."

     Os exércitos perturbarão ainda mais a vida do professor Pasos e a de todos no vilarejo. Ali está como que a nação inteira submetida a uma guerra incompreensível, em que poucas vezes se identifica quem ataca quem, mas se sabe bem quem sofre as piores consequências ao final: o povo desarmado, continuamente ferido, raptado, sequestrado e morto, em meio às refregas. Ninguém está livre das balas, nem mesmo aqueles que pagam aos exércitos por proteção. Uma vida impossível, mas que persiste, como o grito do vendedor de empanadas brotando de uma esquina qualquer. 

     "Na esquina da rua, não longe de onde me encontro  -  minha testa apoiada na porta, as mãos levantadas contra a madeira  -,  aparece outro grupo de soldados. Não são soldados, descubro, inclinando ligeiramente a cara. São sete, ou dez, com uniforme de camuflagem, mas usam botas pantaneiras, são guerrilheiros. [...] Vêm na minha direção, acho, e então uma descarga da esquina oposta a eles os sacode e prende por completo sua atenção: correm para lá, encolhidos, apontando seus fuzis, mas o último deles [...] leva a mão ao cinturão e então me joga, sem força, em curva, algo assim como uma pedra."

     Rosero esmiúça o caos da guerra. A energia que se dedica ao amor e ao trabalho voltadas, então, à sobrevivência. A transmutação do padrão ético, dos interesses, dos projetos; de repente, todos marionetes sem cordões expostos ao turbilhão da queda, da morte banal, da ausência de estradas a seguir, de autoridades a quem apelar, de qualquer abrigo ao último suspiro de uma alma. Em meio ao tiroteio, o professor procura por sua mulher, que o procura: boa parte da narrativa se dedica a essa busca pelas ruas e casas. 

     "'Todos para a praça', um dos capangas grita para a gente, mas é como se ninguém o escutasse: caminho ao pé de um casal de vizinhos, sem reconhecê-los, e sigo ao lado deles, sem me importar em averiguar em que direção. 'Eu disse todos para a praça', ouve-se de novo a voz, em outro lugar. Ninguém liga, ouvimos nossos passos cada vez mais apressados: de um instante a outro, as pessoas correm, e eu com eles, este velho que sou, afinal de contas estamos desarmados [...]"

     Fica, por fim, o ser humano à sua própria procura, por dentro e por fora, se esgaravatando em delírio, em luta permanente com o que sonha dominar, em busca do objetivo primeiro, do qual não se lembra mais; até mesmo pelo seu próprio nome, por sua morte exclusiva e redentora, que às vezes tarda ou se recusa a se apresentar. Que homem é esse, que lugar habita, que fome carrega, que rumo tateia, que lhe reserva a porta em que bate desesperado? Talvez o cano do fuzil em seu pescoço traga a inteira resposta a todas essas questões. Ou talvez tudo seja apenas repetição de episódios que insistimos em reencenar. 

     Os exércitos é o tipo de encontro que justifica qualquer risco, o inesperado com o qual sonhamos, todo o tempo que a ele se  dedicar, e até mesmo o cheiro de pólvora e sangue que persiste à nossa volta, após a leitura. 



Os exércitos, de Evelio Rosero, com tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro, Editora Globo, 2010.





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

WIESEL E HELLMAN





     Nos últimos dias, li dois livros num rompante: O caso Sonderberg, de Elie Wiesel, e Pentimento, de Lilian Hellman. Unidos pela origem judaica dos autores e pelo teatro, como tema, esses livros me passaram rapidamente pelas mãos e me deixaram boas impressões. Por isso, enquanto, reparo de esguelha a bola rolar em verdes gramados distantes, digito estas para registro memorial.

    WIESEL - Não tenho aqui o exemplar do livro de Elie Wiesel, para citar algum trecho, mas posso dizer que o protagonista Yedidyah, apaixonado pelo teatro, desiste da carreira de ator e migra para a crítica de teatro, gentilmente empurrado por seu professor. E acaba cobrindo um julgamento  que envolve um jovem alemão, estudante em Nova York, acusado de ter assassinado um tio que o visitava, durante um passeio na montanha. Claro que até chegar ao julgamento, Wiesel nos apresenta Yedidyah, sua família, sua mulher Alyka, e seu interesse crescente por religiosidade. Mas o teatro é a força motriz da narrativa, o que leva o crítico a cobrir um julgamento como se fosse uma peça em muitos atos, mas que no final pode levar alguém à morte. 

    Wiesel costura muito bem as origens das angústias de Yedidyah e do drama vivido pelo jovem Sonderberg. Um alemão descendente daqueles que "encenaram" a grande tragédia do povo judeu, e um americano de origem judaica, cujos filhos lutam as novas batalhas em defesa de Israel. Um se declara "culpado e não culpado" e o outro revira o passado em noites de pesadelo. Pequeno em extensão, O caso Sonderberg é um livraço, simplesmente.

     HELLMAN - "Estou agora em uma idade em que a supressão de coisas antigas deve ser observada com cuidado, e qualquer frase que comece com 'lembro-me' é grande demais para o meu gosto, mesmo quando sou em quem a diz", crava Lilian Hellman no texto intitulado "Teatro". Pentimento reúne retratos memorialísticos a partir de pessoas da família, amigos e do teatro, que a projetou como autora. Resulta em livro autobiográfico, no qual Hellman nos conta de suas insegurança, impetuosidade, rebeldia e convivência com vários amigos e com seu grande amor, Dashiell Hammett, por 30 anos. E de sua luta com as palavras e tramas, claro.

     "Penso que o fracasso de um segundo trabalho é mais prejudicial para um escritor do que qualquer outro fracasso que vier depois", aponta com firmeza ao tratar de sua segunda peça Days to come. Criada entre Nova York e New Orleans,  Hellman recupera nesse livro episódios, como os dias negros de perseguição pelo macartismo, e familiares que tiveram importância em sua formação personal e que a marcaram por seus tipos impagáveis e performances memoráveis, como a tia Jenny e o tio Willy. Até mesmo uma tartaruga mereceu dela um capítulo inteiro que, na verdade, é construído como se fosse o relato de seu primeiro "assassinato". Memorável, portanto. E Hammett sempre ali, provocante, crítico e implacável. "Julia", narrativa de um episódio em que Lilian Hellman se envolveu na luta contra o nazismo, a pedido de uma amiga militante em plena Alemanha, seria adaptado em 1977 para o cinema, e é parte integrante desse livro, prenhe de verdade e rico em emoção.

     E que título formidável! Igualzinho ao conteúdo.







       

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

LEONARDO PADURA E O NOBEL DE LITERATURA




   Há banho de língua, banho de cuia, de bacia, de bica e de chuveiro; banho de riacho, de rio, de piscina e banho de mar. E  outros mais que desejar.
   Depende da escassez de água, da criatividade humana ou da mera localização do sujeito que se banha. 
   E há o banho de literatura. Não uma prova ligeira, uma dose calibrada ou jarra generosa, mas um banho por inteiro, inescapável e purificador. 
    Tenho lido os romances escritos por Leonardo Padura, e mesmo antes de concluir "O romance da minha vida", publicado em 2019 no Brasil pela Boitempo, já havia consolidado o entendimento de que o Nobel de Literatura é premiação mais que merecida para esse escritor cubano.
    Não precisa ser este ano ou ano que vem, pode ser em 2022 que estará muito bem. Padura tem feito o grande trabalho do escritor. Tem mergulhado nas profundezas da história e da alma do povo cubano, e de lá retornado com ramos de ouro reluzentes. 
     O que sinto ao ler seus livros é que Padura não deita meros olhares à sua volta, não atira pedrinhas no leito de águas mansas, não perde oportunidade de abrir o mapa da ilha ao coração de quem não teme o cheiro do povo e suas mil maneiras de vencer o aguilhão do tempo.
   O romance da vida do poeta José Maria Heredia (tema principal do romance citado acima) é grande invenção literária, é gancho ao qual Padura prende a miséria vivida e o sonho do povo cubano por justiça e liberdade, desde tempos remotos. E que ainda persiste, pelo que se sabe.
      Lago profundo e cálido, os romances de Padura dão voz ao homem comum, desvendam os dramas do cotidiano popular, escancaram as tramas e os absurdos do poder, expõem as raízes do ser cubano na contemporaneidade. 
    Ontem e hoje, como sempre, a ilha condensa vozes, cheiros, ações e omissões humanas com os quais nos identificamos nos livros de Leonardo Padura, irmanados que estamos pela tragédia latino-americana. 
      O Nobel para Leonardo Padura resulta, portanto, em algo óbvio.
    Até lá, recomendo mergulhos constantes em sua literatura. Da maneira que preferirem, mas nela se banhem, por necessário.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

SANTO REIS



   Santo Reis é um bom santo...
   O batuque do reisado, as chulas entoadas, o sincopado do ritmo a embalar o sono da criança que fui, no lugar que foi, num tempo que resiste.
   Sequer tenho notícia de reisado, as pessoas se vão à francesa, escapam em silêncio pela névoa que se espalha sobre as águas da memória. O batuque ressoa na caixa craniana, incontornável.
   A questão central será sempre "quando", diante de uma inevitabilidade.
   Iniciadas as "incelênças", e a partir daí suor, poeira e um sopro de desespero que jamais deixa de se infiltrar noite adentro.
   Esse "quando" acontecerá quando. Estaremos lá. E de nada saberemos.
   Santo Reis é um bom santo...

sábado, 28 de dezembro de 2019

2020


   Quase não tem graça alguma.
   Na verdade, cansa festejar o que não tem sido bom.
   E cansa, mais ainda, fingir esperança num novo tempo, que tudo tem para ser ainda pior do que este que se esvai. Esvai, mesmo.
   O bom de tudo que tem passado é que estamos aqui para escrever estas.
   E para ler estas e outras.
   Mas estou certo de que há quem discorde de que mesmo isso seja bom.
   
   Esperança, otimismo, fé no novo tempo...  -  pronto, cumprido o ritual.
   
   Fato é que perdemos muito mais do que é mantido.
   Notem que eu não escrevi "mais do que se ganha".
   Cada dia vivido, uma perda no saldo.
   Cada sonho adiado ou não realizado, ah... um estrago na alma.
   Cada oportunidade desperdiçada, um atraso de vida.
   Cada frustração sofrida, uma cicatriz.
   Cada amigo que se vai, o mundo reduzido.
   Cada topada, uma dor feladaputa a suportar.
   
   Ao positivar as orações acima, não se obtém grande coisa.
   Experimente, mas à vera. 
   Agora, se é para fazer parte da Grande Alegria das selfies e stories, então a coisa é farta.
   Tome Noronha, Seychelles, Times Square, Muralha da China, Torre Eiffel, praia de Copacabana...
   E depois do clique, a depressão.

   Ah, sim, somos inteiramente responsáveis por esse quadro deprimente.
   Como indivíduos, grupos sociais e sociedade inteira.
   Existir, resistir, pois.
   De alguma forma, preparar o couro para mais uma travessia.
   Não de um rio, mas de uma vala de lama fétida e tóxica de mais uma barragem rompida.
   
   Dizem que é um novo ano, dizem.
   Mas é bom preparar o couro.
   

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

AURORA DE CEDRO, de TITO LEITE





   O poeta está no que escreve, o poema é seu lar, sua estrada e desvios. Em cada ode, o poeta canta/ uma morte... O poeta arrasta consigo tudo que ainda não aprisionou no verbo, projeta nos desvãos suas agonias e sonhos. A curva,/ o baque,/ o presságio/ de uma ilusão. Talvez não seja nada disso, e bem aí resida todo encanto da literatura. O leitor pode não perceber sangue e lágrimas no brilho dos versos, e pode ser que nenhuma umidade haja nas páginas que lê, ou suas mãos é que sejam impermeáveis, vai saber o quê ou quem... Deus nos salve/ de Deus. Assim, a poesia se oferece aos que a procuram e a desejam, em especial, em tempos trevosos. Assim um livro de poemas se abre.

   Aurora de cedro, de Tito Leite, tem todo jeito de estrada vicinal, embora ostente na clareza dos poemas uma aparência de estrada romana. O navegante/ é uma tarde esmagada/ na barca. Aurora é o nome da cidade natal do poeta, no cálido Ceará: nordestino, sertanejo pode falar em sabres, mas pensa em peixeira, conheço  bem essa viagem. Não há estrada certa/ ou verdades incontestes. Pois o poeta sabe que tropeçamos quase sempre nos voos que ensaiamos diariamente. No fundo/ é tudo lodo,/ por isso me/ estilhaço todo. Riobaldo sorriria ao ouvir isso.

   Tito Leite é monge beneditino. Pausa para um "oremos". Aqui entra o cedro do título do livro, madeira que é símbolo do Líbano, citada 75 vezes na Bíblia, utilizada em cerimônias religiosas e construção de templos desde o Egito antigo, segundo a Wikipedia, cujos uso e cheiro povoam o imaginário de judeus e cristãos. O cedro diz do trabalho do poeta: massa de combate, entalhe e polimento. Deus me sabe/ na moira/ das suas mãos./ São voláteis/ as minhas preces. Os poemas de Tito Leite expõem a batalha do homem e seu propósito terreno. Eu beijaria o caos diz o poeta em letras garrafais.

    Li várias vezes Aurora de Cedro antes de comentá-lo aqui. O medo de que tudo/ dê em nada dói nos ossos. É possível sentir reverberar o clássico em suas linhas, do fraseado aos temas, das citações bíblicas às filosóficas, sem desprezar as referências da pop art, pois o poeta não se esconde: Eu habitava comigo/ como se a sonoridade do meu nome/  fosse um origami/  na aurora de cedro. Taí um livro que recomendo, de um poeta que se arrisca, de um homem que se agita em sua incompletude. Não ser de rebanho/ é não ter/ o cheiro/ do pastor. O cuidado na construção do verso Não ser de rebanho justifica tudo no meu sãofranciscano entendimento. 


Aurora de cedro, de Tito Leite, publicado pela editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2019

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

ELENA FERRANTE E MÔNICA MENEZES EM SINTONIA


   Leio que o novo livro de Elena Ferrante será lançado ainda este ano na Itália. E que não tem editora nem previsão de data para lançamento no Brasil. "La vita bugiarda degli adulti", com tradução livre para o português "A vida mentirosa dos adultos", é o título de mais uma narrativa que a autora ambienta em Nápoles, sua terra natal, a despeito de ser desconhecida sua verdadeira identidade.
 
   Pois bem, o material de divulgação de "La vita bugiarda..." adianta a primeira frase do romance: 
   
   "Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse a minha mãe que eu era muito feia". 

   Ao ler a frase, de imediato a associei ao poema "Eleição", de Mônica Menezes, pela voz feminina acusadora de um golpe terrível, a pecha de ser feia, que tem origem em um ser mais que amado, um dos genitores; no caso do romance de Elena Ferrante, o pai, e no poema de Mônica Menezes, a mãe. Leiamos o poema em sua versão publicada no blog da autora, "Estranhamentos", no dia 08 de janeiro de 2011:

   ELEIÇÃO

   o anel, a flor, o poema
   tudo isso tão bonito
   todavia o que ecoa mesmo
   no fundo mais fundo da alma
   são as palavras-lâmina da mãe
   sussurradas no quarto ao lado
   naquela madrugada de setembro
   elegendo-a
   para sempre
   a menina mais feia da casa

   Um poema poderoso, sem dúvida. Toda vez que o leio, sinto as palavras rasgando o tecido dessa alma sensível, marcando-a eternamente com um epíteto naturalmente injusto; sinto um transbordo emocional inevitável e reconheço no poema a arte de uma poeta de superlativa qualidade, de  indiscutível talento para o burilamento e condução de temas preciosos à condição humana. Precisava fazer esse registro, pois fui alcançado por essa sincronia criativa de duas autoras que muito aprecio e recomendo. 

   Aguardemos, portanto, o lançamento do novo livro da Elena Ferrante. Enquanto isso, confiram mais poemas de Mônica Menezes no blog "Estranhamentos", listado aí ao lado, e no "Profundanças 3", coletânea virtual publicada pela Voo Audiovisual, que teve organização de Daniela Galdino, onde "Eleição" se faz presente, que pode ser baixado gratuitamento em http://vooaudiovisual.com.br/projects/profundancas3/


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

SÃO FRANCISCO: O SANTO, O RIO E O GÊNIO

 


    O rio é chamado de São Francisco porque sua foz foi encontrada pela expedição portuguesa que fazia o reconhecimento do litoral da nova terra, a mando d'El Rei de Portugal, no dia consagrado ao santo dos pobres. Américo Vespúcio era o cartógrafo, foi quem anotou lá a existência do grande rio, naquele 04 de outubro de 1501. 
       
    De lá até os dias que sofremos na pele, o rio São Francisco foi o Rio dos Currais por todo o período colonial e o rio da Integração Nacional já na República, quando os vapores navegavam entre Juazeiro e Pirapora. Atualmente, entulhado em vários trechos, já não serve à navegação, mas como reserva para geração de energia elétrica e irrigação das grandes lavouras. Sem falar no sangramento a que o submetem para abastecer os tais canais... bem, deixemos isso de lado. 

   Quero lembrar aqui algo que relatei no romance "Beira de rio, correnteza", páginas 134/6:

   Naquele mesmo porto, chamado de Boca da Barra, pouco mais de cem anos antes, um diplomata inglês em serviço no Brasil, Richard Francis Burton, Sir, desembarcava no começo de um dia ensolarado. Era um preciso e festejado dia Quatro de Outubro, aniversário de achamento do rio e data comemorativa do santo que o nomeia, coincidência que merece particular e futura apreciação.

   [...] Burton era figura ímpar. Geógrafo, cartógrafo, explorador, linguista, escritor, tradutor, diplomata e espião da Rainha da Inglaterra. Um renascentista e viajante inveterado. Em Bom Jardim, ocupou-se parte do dia em andanças pelo arraial e arredores, em conversações com o povo e a fazer anotações, fato em nada espantoso pois Burton dominava a língua, tendo passado temporada em Goa, então possessão portuguesa na Índia. Adotava como prática a imersão na cultura do povo que visitava. Comia de sua comida, bebia de sua bebida.

    As anotações que fez em Bom Jardim, nos idos de 1860, Burton reuniu no livro que publicou sob o título "Viagem de canoa de Sabará ao Atlântico", editado no Brasil pela Editora Itatiaia. Resumi no romance os registros mais importantes que Burton fez sobre Bom Jardim, nossa Ibotirama, quando ali passou um dia inteiro, o dia 04 de outubro, um dia como o de hoje. À noite daquele dia, Burton desceu até a altura do Barro Alto, onde acampou e promoveu batuques e farra com os nativos, sujeito sábio. Disse muita coisa sobre a carnaúba e sobre cada lugar que lhe mereceu passagem e atenção. 

    Mas de tudo ficou aquele 04 de Outubro, dia do Santo, dia do Rio, dia em que o genial inglês, primeiro tradutor para o ocidente das "Mil e uma noites", o homem que conduziu a expedição em busca da nascente do rio Nilo (vejam o filme "Nas montanhas da lua"), esse incrível cientista nos visitou e tão bons augúrios fez ao nosso futuro. Que se cumpram, e que não seja tarde para nós e para o rio.

    

terça-feira, 24 de setembro de 2019

24 DE SETEMBRO 1969, QUARTA-FEIRA, O DIA DA MORTE



   Como aquele dia chegou e amanheceu, não faço a menor ideia. Sei que ficamos no Posto de Saúde até altas horas e que retornamos para nossa casa a granel, em momentos variados, pelo escuro das ruas, pois em Ibotirama a luz elétrica, então, era a diesel e desligada às 22:30h. Talvez eu tenha dormido pesado, menino que era, assustado que estava, esgotado por cansaços diversos, talvez.

   Daquele começo de manhã de quarta-feira nada recordo que sirva a esta contação, a não ser de minha figura mirrada descendo a rua 1º de Janeiro a responder pessoas sobre o estado de saúde do meu irmão: "Na mesma, na mesma." E depois retornando ao Posto e depois em casa novamente. Era primavera lá fora e o mais gélido outono possuía o nº 3 da travessa Nossa Senhora da Guia. Sim, lembro do meu pai, em algum momento daquele dia, de barba por fazer e cenho absolutamente fechado, chapéu nas mãos, num silêncio insuperável. E da casa ficando atopetada de gente em providências arrepiantes.

   E foi de uma maneira seca feito um raio sobre nossa cabeça que, por volta das 11h, meu pai irrompeu em casa e disse: "Ele morreu".  A partir de então, minha mãe prostrou-se na cama do casal aos gritos e em pranto, ou em pranto entrecortado por gritos. Minha irmã e eu agarrados a ela, num chorar desmedido, tentávamos dar-lhe algum consolo, fazendo promessas de bom comportamento. Havia aquela câmara dolorosa que abrigava minha mãe e pelo resto da casa uma agitação de preparo do velório. Tudo pra mim era espantoso e inédito. E muito tempo depois reviveria aquele ambiente, naquela mesma casa, quando eu mesmo conduzi os preparativos para os velórios de meus pais. Aquela casa jamais me abandonará.

   Desse cenário, salto para a igreja lotada, a multidão ocupando o adro, escadarias e parte da praça, a cidade inteira ali presente. Vejo o caixão aberto, o rosto macerado de Nelsinho, os chumaços de algodão sobressaindo da pele morena e dos hematomas, as centenas de ginasianos fardados, e depois dos colegas mais próximos carregando o caixão, em revezamento, até o cemitério. Eu me espremia entre o povaréu, procurando ficar próximo do caixão, na longa jornada até o túmulo aberto. Lá, o caixão repousaria sobre o montículo de terra retirada, enquanto o sol nos abandonava de chofre, e o prefeito, meu padrinho Eládio Almeida Pinto, fazia o discurso de louvação do jovem estudante morto, do craque de futebol que o nosso futuro perdia, do filho muito amado de seus compadres. Lembro, lembro, lembro...

   Cinquenta absurdos anos se passaram. Vez em quando bate essa emoção retada e incontornável. Meus onze anos de então incorporaram esses cinquenta na marra. Toda sorte de tropelia me acometeu de lá pra cá e mesmo assim tenho resistido, pois resistir foi a parte que me coube. Saibam que, quando minha hora for construída e alcançada, quero depois virar cinzas. E se não for dar trabalho demais a quem ficar, que se me espalhem no meio do rio São Francisco, em frente ao cais de Bom Jardim, a Ibotirama falada. Adianto que só serve se for no meio do rio, onde não dá pé, que é sempre o melhor jeito de navegar.


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

23 DE SETEMBRO 1969, TERÇA-FEIRA, O DIA DO ACIDENTE


   Jantávamos cedo lá em casa. Uma mistura de sobras do almoço e café com leite, acompanhados de cuscuz, beiju, aipim, batata doce, essas iguarias da mesa sertaneja. Éramos beiradeiros que raramente comiam peixe: minha mãe passou mal, certa feita, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. E assim tangíamos o tempo, entre sol e lua, alimpando o terreiro de nossa exígua existência.

   Nelsinho possuía um porta-objetos fixado na parede de nosso quarto. Ele mesmo havia feito com sobras de madeira e pintado com uma paisagem de colina e coqueiros. Ali ficavam a escova de dentes, o desodorante e o creme pra cabelo Trim.  Foi de cabelo engomado e cheirando a Rastro que deixou nossa casa para ir até a praça da igreja encontrar-se com a namoradinha. Era pra ter sido assim, algo corriqueiro.

   Mas deu-se que topou com um caminhão de gado, guiado por um admirador, que lhe ofereceu carona. Nelsinho não quis subir na boleia. Por que não, se estava enfatiotado para encontro amoroso? Talvez por sua natureza aventureira, seu arrojo natural, Nelsinho galgou a carroceria e sentou-se no alto da gaiola, tomando vento... e o que mais? Não sabemos, ninguém veio nos dizer desses momentos que antecederam a queda. 

   E o caminhão subiu a rua 1º de Janeiro, contornou rente a lateral da igreja e bordejou o jardim. Por que Nelsinho não desceu ali, se o jardim era o seu destino? Talvez estivesse cedo e a namoradinha ainda não se fizesse presente, ignoramos. Fato é que ele seguiu trepado no alto da gaiola do caminhão de gado. O motorista bem que poderia ter contornado mais uma vez na outra extremidade da praça, retornando pelo lado oposto, mas não, decidiu seguir para a pracinha do cais. E para chegar na praça do cais era preciso passar pelo beco de Seo Artur Matias.

   E foi ali, na entrada do beco, que se deu o baque. Cruzava o beco a fiação elétrica, e os postes de madeira não eram tão altos como os atuais. O caminhão entrou no beco e quando sua carroceria já desaparecia das vistas de quem observasse de um banco da praça, um corpo caiu de lá de cima no chão duro. O fio mais baixo alcançou o pescoço de Nelsinho, derrubando-o do alto da gaiola. Gritos, o caminhão para, enquanto Nelsinho levantava-se do chão, sacudindo a areia da roupa. Dá pra ver as pessoas acudindo-o, ele recusando apoio, sentindo aos poucos as dores todas avançarem por seu corpo e juízo adentro.

   Mesmo nesse estado, Nelsinho foi a pé, por toda a praça da igreja, a maior da cidade, até o Posto de Saúde. Lá, já meio tonto, tiraram-lhe a roupa e lhe deram um banho de mangueira no fundo do prédio. E depois o levaram até um quarto, onde o médico da cidade veio lhe medicar. Enquanto isso, o povo corria até nossa casa para contar da tragédia seus detalhes mais crus e pesados. E o horror daquilo tudo suspendeu a arrumação do tempo, os gritos de minha mãe calaram o mundo, e fomos todos até o Posto de Saúde, onde uma multidão se aglomerava à porta.

   Lá estava o herói deitado numa cama de ferro, agitando-se de forma desordenada, o rosto inchado pelo hematoma da cotovelada no jogo de domingo e pela pancada no chão do beco, o pescoço marcado pelo estrago que o fio lhe fizera de um lado a outro, trechos sem pele, tudo já ficando arroxeado. Minha mãe jogou-se ao seu lado, e tudo era puro desespero e impotência. Não havia na cidade recurso hospitalar, a bê-erre estava em construção e o mundo civilizado quedava-se distante demais. 

   Também eu fiquei ao lado da cama e vi crescer em Nelsinho a agonia de um cérebro perturbado por traumatismos e hemorragias. Uma agonia que teve seu auge quando ele se agarrou ao pescoço de minha mãe, que se entregava sem reação, exigindo de meu pai e outras mãos certo esforço para separá-los. E depois disso, Nelsinho aquietou-se. Caiu no beco por volta das 19h e entrou em coma às 23h. 


domingo, 22 de setembro de 2019

21 DE SETEMBRO 1969, DOMINGO, O DIA DO JOGO



     Então a rapaziada organizou um selecionado local para uma partida no distrito da Canabrava do Boqueirão, sudeste do município, perto do riacho do Arame, de onde se pode desbandar para a serra do Chiqueiro Velho, dita Boa Esperança. Tudo isso lá no Bom Jardim, posto no mapa como Ibotirama.

     O ser humano havia pousado na lua, fazia pouco tempo, e Pelé estava muito perto de fazer seu milésimo gol em Andrada, já repisei o tema aqui anteriormente. No domingo que foi aquele 21 de setembro de 1969, seguiram em algazarra na carroceria de um caminhão, pela estrada da Veredinha, aqueles rapazes que amavam o futebol. Entre eles, Nelsinho, meu irmão, que precisaria chegar a dezembro para completar 15 anos, mas não conseguiu. Um menino de corpo atlético entre aqueles rapazes e homens-feitos.

     Todos reconheciam em Nelsinho um craque excepcional. Lembro que foi "obrigado" a jogar entre os adultos por não ser aceito mais nos babas entre os de sua idade. Várias vezes o vi brincar de "time de um jogador", enfrentando sozinho um grupo de adversários do mesmo tope. Corria e ria, driblava e ria, fazia gols e ria, divertia-se com a bola nos pés. Era um azougue também fora do campo, e isso lhe causou transtornos e o desejo manifesto de ir-se em bora logo daquele lugar.

     Quem perdeu tempo lendo meus livros já percebeu que Nelsinho se faz presente aqui e ali, por inevitável. Foi meu primeiro ídolo, meu irmão mais velho, de quem levei coques e taponas, a quem causei problemas por me destacar nos estudos, o contraponto indesejado, um grude incômodo ao furacão que se movia dentro dele. 

      Foi num domingo assim que Nelsinho foi acertado no campo de bola por uma cotovelada no olho esquerdo. Fez gol, jogou muito e voltou pra casa com um inchaço no rosto. Inchaço que se tornaria um pouco maior no dia seguinte. 

     Vejo no calendário de 1969 que, uma vez mais, fui driblado por minha memória. A sequência dos acontecimentos não se deu em domingo-segunda-terça, não. Houve a partida de futebol no domingo e a tal cotovelada. Na segunda-feira, dia 22, nada aconteceu de relevante. Talvez Nelsinho não tenha ido ao Colégio Cenecista, tenha ficado em casa, aplicando a lâmina fria de uma faca sobre o hematoma ocular, não me lembro. Mas houve esse dia neutro, um dia de bonança antes da tormenta que nos alcançaria a todos na terça-feira, dia 23 de setembro de 1969, exatos cinquenta anos atrás. Dias que não se cansam de apertar meu combalido coração.