quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
SETENTA ANOS DE RUY ESPINHEIRA FILHO
O poeta maior da Bahia chega aos 70 anos de idade.
Chega também às boas livrarias sua poesia completa (até agora), Estação infinita e outras estações, publicado pela Bertrand Brasil. O lançamento do livro será no ano que vem, mas já é possível adquiri-lo para presentear amigos no Natal.
Desde cedo, amigos e admiradores postam mensagens na internet parabenizando o poeta. Junto-me aos apreciadores da grande poesia e do ser humano iluminado que é Ruy Espinheira Filho, prestando aqui minha homenagem.
Escolhi um poema de "Julgado do Vento" (1979, Civilização Brasileira), que demonstra a grandeza e a universalidade de sua poética:
OS BENS MAIORES
O que ficou
além do enlace
é o que mais foi
preso pelo gesto.
O que não foi
tocado é o que
deixou sua marca
mais nítida na mão.
A gaiola vazia
é onde habita
o que há de mais belo
em gorjeio e pássaro.
Parabéns, Ruy! E grato pela amizade e pelos sopros de sabedoria.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
QUESTÃO DE TEMPO
para brotar
para amadurecer
mudar, retornar, morrer
para crescer
para fazer
acertar, errar, retorcer
para fugir
para se esconder
calar, culpar, ceder
para trepar
para colher
dar, se estrepar, comer
para olhar
para lamber
raiar, luzir, solescer
para fluir
para escavar
interromper, ir-romper
em outro tempo
temperar, tempestar, tempesser
questão de tempo,
têmpera, temperança, tecer
Imagem: Bol Fotos, aurora boreal, Finlândia
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
TEMPO E POESIA NA ACADEMIA
Ainda dá tempo. Há poesia à sua espera.
Coordenado por Evelina Hoisel e Aleilton Fonseca, o evento discute na obra de Ruy Espinheira Filho a poesia e sua inserção no tempo. E é, também, uma homenagem ao escritor pelos seus 70 anos, que se completam agora em dezembro.
No primeiro dia, 27, Ruy esteve na mesa mediada por Antonia Herrera respondendo a questões formuladas por Carlos Ribeiro, Gerana Damulakis, Iacir Anderson Freitas e Gabriela Lopes.
Ontem, 28, com mediação de Evelina Hoisel, foram apresentadas comunicações por Iacir Anderson Freitas (Perdas luminosas: memória e finitude na poesia de REF); Florisvaldo Mattos (REF: a poesia na marcha do tempo sucessivo); Alana de Oliveira Freitas (REF: arquitexturas do tempo e da memória); e Sandro Ornellas (O passar dos meses: notas sobre o tempo em REF).
E hoje, 29, a partir das 17h, com mediação de Aleilton Fonseca, o evento traz Miguel Sanches Neto que falará sobre REF: poesia como memória viva.
O encerramento, uma noite de autógrafos.
Ainda dá tempo. Há poesia hoje na Academia.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
NÁDIA ENCANTADA
Grande amiga.
Mulher de um grande amigo.
Mãe de muitos filhos não gerados.
Advogada, funcionária pública.
Cantora de voz belíssima, aprendeu a tocar violão para se acompanhar.
Levava este sorriso aí a todo lugar e a toda gente, leve.
Fazia a festa todo domingo de manhã no Lar dos Idosos, na Asa Norte.
Palavra serena e sábia, sempre.
Anfitriã generosa.
Grande amiga.
Estrela que aquecia muitos planetas.
Mãe de muitos filhos não gerados.
Ficou encantada no domingo, ascendente.
Estrela agora outro sistema.
Visível eternamente ao olhar dos que a amam.
.
Nádia, esperança, luz: encantada.
domingo, 25 de novembro de 2012
AMANHÃ, NA BATALHA, PENSA EM MIM, de Javier Marías
"Contei. Contei. E ao contar não tive a sensação de sair do meu encantamento do qual ainda não saí e talvez nunca saia, mas sim de começar a mesclá-lo com outro menos tenaz e mais benigno. Quem conta costuma saber explicar bem as coisas e sabe se explicar, contar é a mesma coisa que convencer, ou fazer-se entender, ou fazer ver, e assim tudo pode ser compreendido, até a coisa mais infame, tudo perdoado quando há o que perdoar, tudo passado por cima ou assimilado e até compadecido, isso aconteceu e é preciso conviver com o que aconteceu uma vez que sabemos que foi, buscar-lhe um lugar em nossa consciência e em nossa memória que não nos impeça de continuar vivendo porque sucedeu e porque o sabemos."
Destaco esse trechinho do romance "Amanhã, na batalha, pensa em mim", do Javier Marías, com tradução de Eduardo Brandão (Martins Fontes, 1997). É o primeiro romance do Marías que leio. E ainda não terminei. Deixo aqui o registro da melhor impressão que um texto ficcional pode firmar no leitor: único, profundo, multifacetado, pródigo, assim generoso, derramado e revirado, espremido em seu dobrar e desdobrar, em que a trama pesa mas nem tanto. Irei a outros, com certeza.
Imagem: Bol Fotos, bruma.
domingo, 18 de novembro de 2012
FEROCIDADE
Alguma coisa há de aterradora na atitude dos cães.
Não uivam mais para a lua. Não latem quando diante deles os carros zunem. (Latem agora apenas para seus iguais.) Não se ouve mais ganidos nos becos ou quintais. Rosnam pelas calçadas, alguns. Uns outros, arfam desencontrados pelas ruas.
Alguma coisa há de aterradora no silêncio dos cães.
Perambulam. Observam. Fuçam. Parecem fazer um cerco proposital aos parques e jardins. Ignoram assovios e palmas. Prosseguem focinhando o tempo.
Alguma coisa de humano excede nos cães.
Imagem: Bol Fotos
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
POEMA DE BUKOWSKI
então você quer ser escritor?
se não estiver explodindo em você
apesar de tudo,
não faça.
a não ser que saia espontâneo de seu
coração e de sua mente e de sua boca
e de suas entranhas,
não faça.
se você tiver que passar horas
encarando a tela do computador
ou encurvado sobre sua
máquina de escrever
procurando palavras,
não faça.
se você estiver fazendo isso por dinheiro ou
fama,
não faça.
se você estiver fazendo isso porque deseja
mulheres em sua cama,
não faça.
se você tiver que sentar ali e
reescrever mais uma vez e mais uma vez,
não faça.
se der o maior trabalho só de pensar em fazer,
não faça.
se você estiver tentando escrever como outra
pessoa,
esqueça.
se você tiver que esperar até isso rugir em
você,
então espere com paciência.
se isso nunca rugir em você,
faça outra coisa.
se você tiver que ler primeiro para sua esposa
ou para sua namorada ou para seu namorado
ou para seus pais ou para qualquer um,
você não está pronto.
não seja como tantos escritores,
não seja como tantas milhares de
pessoas que se dizem escritores,
não seja chato e estúpido e
pretensioso, não se deixe consumir pela
vaidade.
as bibliotecas do mundo
bocejam até
dormir
sobre tipos assim.
não aumente isso.
não faça.
a não ser que saia de
sua alma como um foguete,
a não ser que ficar parado te
leve à loucura ou
ao suicídio ou assassinato,
não faça.
a não ser que o sol dentro de você esteja
queimando suas vísceras,
não faça.
quando for realmente o momento,
e se você for escolhido,
isso irá acontecer por
conta própria e continuará acontecendo
até você morrer ou isso morrer em
você.
não há outro jeito.
e nunca houve outro.
se não estiver explodindo em você
apesar de tudo,
não faça.
a não ser que saia espontâneo de seu
coração e de sua mente e de sua boca
e de suas entranhas,
não faça.
se você tiver que passar horas
encarando a tela do computador
ou encurvado sobre sua
máquina de escrever
procurando palavras,
não faça.
se você estiver fazendo isso por dinheiro ou
fama,
não faça.
se você estiver fazendo isso porque deseja
mulheres em sua cama,
não faça.
se você tiver que sentar ali e
reescrever mais uma vez e mais uma vez,
não faça.
se der o maior trabalho só de pensar em fazer,
não faça.
se você estiver tentando escrever como outra
pessoa,
esqueça.
se você tiver que esperar até isso rugir em
você,
então espere com paciência.
se isso nunca rugir em você,
faça outra coisa.
se você tiver que ler primeiro para sua esposa
ou para sua namorada ou para seu namorado
ou para seus pais ou para qualquer um,
você não está pronto.
não seja como tantos escritores,
não seja como tantas milhares de
pessoas que se dizem escritores,
não seja chato e estúpido e
pretensioso, não se deixe consumir pela
vaidade.
as bibliotecas do mundo
bocejam até
dormir
sobre tipos assim.
não aumente isso.
não faça.
a não ser que saia de
sua alma como um foguete,
a não ser que ficar parado te
leve à loucura ou
ao suicídio ou assassinato,
não faça.
a não ser que o sol dentro de você esteja
queimando suas vísceras,
não faça.
quando for realmente o momento,
e se você for escolhido,
isso irá acontecer por
conta própria e continuará acontecendo
até você morrer ou isso morrer em
você.
não há outro jeito.
e nunca houve outro.
Charles Bukowski, com tradução de Fernando Koproski
Capturei este poema no blogue do Miguel Sanches Neto, que publicou um livro de contos com o mesmo título. Isso faz um tempo e eu já o havia esquecido em um arquivo word. Mas hoje o reencontrei e considerei oportuno publicá-lo aqui. Obviamente, para o deleite dos poucos leitores do Minicontos. A poética pregada por Bukowski no poema dispensa defesa ou enaltecimento. Nunca houve outro jeito de produzir arte, embora o pseudoprofissionalismo literário considere que o escritor, com diploma e tudo, seja capaz de produzir literatura a qualquer momento, a qualquer hora etc e tal. Tou com Bukowski.
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