domingo, 3 de fevereiro de 2013

AS CORREÇÕES, JONATHAN FRANZEN





Pode ser muito longo o caminho para um último Natal em família. Longo e tortuoso, quando fantasiado no coração de uma mãe. A família representa em As correções a fornalha das sociedades capitalistas: conservadorismo exacerbado, modo alternativo dissoluto, carências e desencontros sexuais, uma eterna partida de pôquer. 

A guerrilha domiciliar marca profundamente esse romance de Jonathan Franzen. O ardor da escrita contamina o leitor, que sai chamuscado das escaramuças da família Lambert. Admirador de Alice Munro, cujo nome defende para o Nobel, Franzen não deixa por menos: expõe cruamente conflitos e disputas familiares, detalhando obras e pensamentos, extraindo de cada passagem tudo que ela pode oferecer em movimentação e humanidade. E um grande romance como esse só pode ter como autor alguém que domina a arte de “como ficar sozinho".


AS CORREÇÕES – Jonathan Franzen, tradução de Sérgio Flaksman, Companhia das Letras, 2011. Comentário publicado originalmente na revista eletrônica Verbo21 (www.verbo21.com.br), na coluna Crítica Rasteira., edição de dezembro 2012.
Imagem: Bol Fotos

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

MAINSTREAM



O verdadeiro negócio das salas de cinema multiplex é a pipoca. Os estúdios cinematográficos viraram bancos - o filme é feito por uma miríade de produtoras. O fim dos discos, a vitória da pirataria (promovida em certos países pela própria indústria fonográfica), o sistema de cotas nacionais como instrumento de censura e regulação de mercado, a vertigem da internet e um zilhão de coisas mais.

A cultura como realidade a ser entendida e não mais como arte a ser julgada.

Não sou nada ingênuo na leitura da mídia, mas "Mainstream" tem conseguido me surpreender a cada capítulo com informações preciosas sobre a formação dos grupos de mídia e produção cultural e seus entrelaçamentos mundo afora. Meio tonto com a constatação de que é humanamente impossível dar conta dos truques e armadilhas que a cultura dominante aplica e espalha em projetos globais. Estou lendo "Mainstream" (já na segunda parte) e senti vontade de dizer aos raros visitantes do blogue que esse é um livro de leitura urgente, atenta e necessária.
 
Durante cinco anos, o jornalista e pesquisador francês Frédéric Martel fez uma pesquisa de campo em 30 países e entrevistou mais de 1.200 pessoas ligadas à indústria cultural, hoje dominada pelo entrenimento. São números impressionantes. De Hollywood a Bollywood, do Japão a África, da Al-Jazeera à Televisa, com passagens pelo emergente Brasil. E com especial atenção à China, país que decididamente partiu pra disputa de mercados internacionais enquanto preserva o máximo que pode do seu próprio mercado e de sua cultura milenar. 


Mainstream - A guerra global das mídias e das culturas, Frédéric Martel, tradução de Clóvis Marques, Civilização Brasileira, 2012.
Foto: Bol Fotos

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

BARBA ENSOPADA DE SANGUE, DANIEL GALERA



                                           http://skoob.s3.amazonaws.com/livros/273201/BARBA_ENSOPADA_DE_SANGUE_1350415355P.jpg
 
O texto de Daniel Galera que saiu na Granta prometia um grande romance. Que veio acima da expectativa. Barba ensopada de sangue (Companhia das Letras, 2012) não é romance policial como querem alguns. O crime ocorrido no passado familiar do protagonista inominado apenas motiva suas buscas. Que no fim das contas não difere daquelas que atormentam a todos nós. A doença que o impede de reconhecer rostos denuncia a estandardização contemporânea. 

Galera faz lembrar Jonathan Franzen, Junot Diaz e Manuel Vasquez Montálban: a desagregação familiar como tema, ousadia no narrar, exploração do que sente o homem diante das exigências endógenas e exógenas. “Não se podem abandonar os livros nem os cães. Os filhos, sim”, serviria bem como epígrafe. O estertorar humano em seus diversos papéis e não lugares. Galera não só retomou sua dicção com esse livro, como disse à Folha de SP, mas escreveu o romance brasileiro do ano.


Texto publicado em primeira mão na revista eletrônica Verbo21 (verbo21.com.br), edição de dezembro de 2012, na coluna Crítica Rasteira. Publico aqui para movimentar este blogue ancilosado.

sábado, 19 de janeiro de 2013

TODAS AS ALMAS, JAVIER MARÍAS

                                 http://conversationalreading.com/wordpress/wp-content/uploads/2009/12/javier-marias.jpg

O que comove é fazer sabendo que o que se faz ou deixa de fazer tem peso e significado. O acaso não comove, e o inocente não encerra outra promessa além da forma pela qual deixará de sê-lo. (Javier Marías, Todas as almas, pag. 75, Martins Fontes, 1999).

Gosto muito de ler o Marías. Depois de "Amanhã, na batalha, pensa em mim", li "Negro dorso do tempo" e "Coração tão branco" nos últimos meses de 2012. Terminei hoje o "Todas as almas", romance que causou um rebuliço na vida do autor, a ponto de engendrar um outro romance, o "Negro dorso do tempo".

Marías foi professor visitante em Oxford durante dois anos. Escreveu "Todas as almas" com base nessa experiência e foi surpreendido pela recepção que o livro teve como se fosse um relato à vera. Por retratar a vida intriguenta e vaidosa dos "dons" de Oxford, Marías enfrentou reações, cobranças e situações estranhas, tão perturbadoras que o fizeram escrever em "Negro dorso do tempo" o seguinte: 

"Foi então, a partir da publicação na Inglaterra, que as averiguações que não procurei bem como os fatos e coincidencias aumentaram seu ritmo que não cessou mais e talvez não cesse nunca, e foi aí que tive às vezes a sensação de que é preciso ter cuidado com o que se escreve nos livros, porque às vezes se consuma. E se esse ritmo não cessar nunca, como prevejo, é bem possível que uma parte da minha vida - mas apenas uma parte - se veja para sempre condicionada e regida por uma ficção, ou pelo que esse romance me foi trazendo e ainda há de me trazer."

Uma das incríveis consequências para Marías foi o recebimento do título de Rei de Redonda, uma ilha nas Antilhas, de cuja linhagem ele se ocupa a certa altura de "Todas as almas", ao resgatar a biobibliografia do escritor John Gawsworth, segundo Rei da ilha. Somente essa história vale a leitura dos romances. Por estranho que pareça, recomendo a leitura de "Negro dorso do tempo" primeiro.

É preciso ter cuidado com o que se escreve nos livros, pois às vezes se consuma, bem diz Marías. A literatura pode ser muito perigosa, sabem disso os autoritários de plantão.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

DUAS PALAVRINHAS


VARIEGADO - diverso, diferente, vário, de cores variadas. Gostava de usar principalmente no feminino: variegada, variegadas. A questão é a pronúncia da palavrinha. Quando eu a usava dizia: "variejada", "variejadas". E não é, descobri mais tarde, o que me deixou desgracioso e entristecido. É gado, mesmo. O que a torna uma palavrinha horrorosa.

INEXORÁVEL - não exorável, que não se comove, rigoroso, severo, contra o qual nada se pode fazer. Normalmente ouve-se, de boca cheia, "ineqsorável". E não é, pois não. A palavra não guarda conexão com "nexo", que se diz "neqso", mas em oposição a exorável, que se diz "ezorável", da família de exame, exórdio, exato, exequível etc. E que se pronuncia "inezorável". O mais grave é que o dicionário Aulete Digital registra as pronúncias "ezorável" e "ineqsorável", contradição no mínimo exorbitante, merecedora de exorcismo. Por conseguinte, exoftalmia e exodontia estão na categoria "z".

Chato, mas interessante, não?

domingo, 13 de janeiro de 2013

PODRES PODERES



 Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos?



Parece que zil anos se passarão e esses versos de Caetano se manterão atuais. A parcela de liberdade que a sociedade entrega ao Estado diminui, ou luta-se para que diminua, nos países ditos civilizados sob regimes ditos democráticos. 

"Reaja sempre que o Estado quiser tirar um direito seu, mesmo que esse direito não lhe interesse diretamente", disse-me um dia um professor de Direito Constitucional. O homem digno deve lutar para ser cada dia mais livre. Mas há quem mais queira ser a cada dia vassalo de um só homem. Lá eles, como se diz na Bahia, lá eles!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

AMIGO SECRETO


quem me abandonou
quem me esqueceu
quem me disse mal
quem me aborreceu

quem me fere
quem me maltrata
quem me ofende
quem me destrata

quem me despreza
me incompreende
quem me exige
o indevido, me exaure

secretamente forma
a legião
que meu tempo devora
e me devolve
preciosa lição