segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

CARNAVAL NA BOA TERRA

http://s2.glbimg.com/HxowvoPRuzlvd4_7JBYpLETVzx4iNVxdPLGifcJeCpn9qKKoTumGwnk6aUvfNzei/s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2013/02/09/ivete_trio.jpg



Dizem que há carnaval na cidade. Dizem que 2 milhões de pessoas se sacodem nos circuitos atrás dos trios. Tudo acontece bem ali, mas parece ser no outro lado do mundo. Chego a desejar que o carnaval seja permanente, não apenas duas vezes por ano como quer o novo prefeito. Tudo, no bairro em que moro, fica tranquilo tranquilo.

O que repercute aqui é a declaração de um dirigente do Olodum de que a Bahia pertence a Ivete. E eu que pensava que era o Brasil...

Para estacionar na avenida Garibaldi, próxima a um dos circuitos do carnaval, a prefeitura exige a cartela de 20 reais. Vinte reais. R$ 20,00. Vinte paus. Vinte mangos. Uma amarelinha. Ah, vá lá, uns caraminguás.

Ainda bem que há sempre farmácias de plantão.



Imagem: Bol Fotos, Ivete de toureira no trio.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

BRASILIANA II


Cidade grande do interior. De qualquer estado estado da federação. 
Dia de futebol no estádio. Dia que amanheceu fechado, chuvoso. Anúncio de tempestade com raios e trovões.
Promotor público aciona a Justiça para cancelar a partida. O estádio, com capacidade para alguns milhares de torcedores, possui cobertura metálica em um lado da arquibancada.
A magistrada acolhe o pedido. 
Jornalista que não poupou críticas às autoridades de Santa Maria volta ao ataque. Desta feita, contra a medida cautelar da magistrada. Ingressos vendidos, time da capital já estava na cidade, transmissão programada pela TV, decisão de última hora, desrespeito ao torcedor etc. 
Nada disse sobre a combinação estrutura metálica x raios x público. Nem sobre o aumento do número de mortos na tragédia da boate.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

BRASILIANA I


Boate de Bom Jardim, boate da cidade do leitor. Altíssimas horas.
Comissários interrompem balada para retirada de menores do ambiente.
Cortam o som. 
Burburinho, pequena confusão, solicitação de documentos, separação de corpos, atritos.
Torpedos e telefonemas, a batalha da comunicação noturna.
Pais acorrem ao festim, tresnoitados.
Deparam-se com filhos e filhas no interior da boate, apartados pelos comissários.
Desgostosos, irritam-se.
Então espancam os comissários.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

AS CORREÇÕES, JONATHAN FRANZEN





Pode ser muito longo o caminho para um último Natal em família. Longo e tortuoso, quando fantasiado no coração de uma mãe. A família representa em As correções a fornalha das sociedades capitalistas: conservadorismo exacerbado, modo alternativo dissoluto, carências e desencontros sexuais, uma eterna partida de pôquer. 

A guerrilha domiciliar marca profundamente esse romance de Jonathan Franzen. O ardor da escrita contamina o leitor, que sai chamuscado das escaramuças da família Lambert. Admirador de Alice Munro, cujo nome defende para o Nobel, Franzen não deixa por menos: expõe cruamente conflitos e disputas familiares, detalhando obras e pensamentos, extraindo de cada passagem tudo que ela pode oferecer em movimentação e humanidade. E um grande romance como esse só pode ter como autor alguém que domina a arte de “como ficar sozinho".


AS CORREÇÕES – Jonathan Franzen, tradução de Sérgio Flaksman, Companhia das Letras, 2011. Comentário publicado originalmente na revista eletrônica Verbo21 (www.verbo21.com.br), na coluna Crítica Rasteira., edição de dezembro 2012.
Imagem: Bol Fotos

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

MAINSTREAM



O verdadeiro negócio das salas de cinema multiplex é a pipoca. Os estúdios cinematográficos viraram bancos - o filme é feito por uma miríade de produtoras. O fim dos discos, a vitória da pirataria (promovida em certos países pela própria indústria fonográfica), o sistema de cotas nacionais como instrumento de censura e regulação de mercado, a vertigem da internet e um zilhão de coisas mais.

A cultura como realidade a ser entendida e não mais como arte a ser julgada.

Não sou nada ingênuo na leitura da mídia, mas "Mainstream" tem conseguido me surpreender a cada capítulo com informações preciosas sobre a formação dos grupos de mídia e produção cultural e seus entrelaçamentos mundo afora. Meio tonto com a constatação de que é humanamente impossível dar conta dos truques e armadilhas que a cultura dominante aplica e espalha em projetos globais. Estou lendo "Mainstream" (já na segunda parte) e senti vontade de dizer aos raros visitantes do blogue que esse é um livro de leitura urgente, atenta e necessária.
 
Durante cinco anos, o jornalista e pesquisador francês Frédéric Martel fez uma pesquisa de campo em 30 países e entrevistou mais de 1.200 pessoas ligadas à indústria cultural, hoje dominada pelo entrenimento. São números impressionantes. De Hollywood a Bollywood, do Japão a África, da Al-Jazeera à Televisa, com passagens pelo emergente Brasil. E com especial atenção à China, país que decididamente partiu pra disputa de mercados internacionais enquanto preserva o máximo que pode do seu próprio mercado e de sua cultura milenar. 


Mainstream - A guerra global das mídias e das culturas, Frédéric Martel, tradução de Clóvis Marques, Civilização Brasileira, 2012.
Foto: Bol Fotos

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

BARBA ENSOPADA DE SANGUE, DANIEL GALERA



                                           http://skoob.s3.amazonaws.com/livros/273201/BARBA_ENSOPADA_DE_SANGUE_1350415355P.jpg
 
O texto de Daniel Galera que saiu na Granta prometia um grande romance. Que veio acima da expectativa. Barba ensopada de sangue (Companhia das Letras, 2012) não é romance policial como querem alguns. O crime ocorrido no passado familiar do protagonista inominado apenas motiva suas buscas. Que no fim das contas não difere daquelas que atormentam a todos nós. A doença que o impede de reconhecer rostos denuncia a estandardização contemporânea. 

Galera faz lembrar Jonathan Franzen, Junot Diaz e Manuel Vasquez Montálban: a desagregação familiar como tema, ousadia no narrar, exploração do que sente o homem diante das exigências endógenas e exógenas. “Não se podem abandonar os livros nem os cães. Os filhos, sim”, serviria bem como epígrafe. O estertorar humano em seus diversos papéis e não lugares. Galera não só retomou sua dicção com esse livro, como disse à Folha de SP, mas escreveu o romance brasileiro do ano.


Texto publicado em primeira mão na revista eletrônica Verbo21 (verbo21.com.br), edição de dezembro de 2012, na coluna Crítica Rasteira. Publico aqui para movimentar este blogue ancilosado.

sábado, 19 de janeiro de 2013

TODAS AS ALMAS, JAVIER MARÍAS

                                 http://conversationalreading.com/wordpress/wp-content/uploads/2009/12/javier-marias.jpg

O que comove é fazer sabendo que o que se faz ou deixa de fazer tem peso e significado. O acaso não comove, e o inocente não encerra outra promessa além da forma pela qual deixará de sê-lo. (Javier Marías, Todas as almas, pag. 75, Martins Fontes, 1999).

Gosto muito de ler o Marías. Depois de "Amanhã, na batalha, pensa em mim", li "Negro dorso do tempo" e "Coração tão branco" nos últimos meses de 2012. Terminei hoje o "Todas as almas", romance que causou um rebuliço na vida do autor, a ponto de engendrar um outro romance, o "Negro dorso do tempo".

Marías foi professor visitante em Oxford durante dois anos. Escreveu "Todas as almas" com base nessa experiência e foi surpreendido pela recepção que o livro teve como se fosse um relato à vera. Por retratar a vida intriguenta e vaidosa dos "dons" de Oxford, Marías enfrentou reações, cobranças e situações estranhas, tão perturbadoras que o fizeram escrever em "Negro dorso do tempo" o seguinte: 

"Foi então, a partir da publicação na Inglaterra, que as averiguações que não procurei bem como os fatos e coincidencias aumentaram seu ritmo que não cessou mais e talvez não cesse nunca, e foi aí que tive às vezes a sensação de que é preciso ter cuidado com o que se escreve nos livros, porque às vezes se consuma. E se esse ritmo não cessar nunca, como prevejo, é bem possível que uma parte da minha vida - mas apenas uma parte - se veja para sempre condicionada e regida por uma ficção, ou pelo que esse romance me foi trazendo e ainda há de me trazer."

Uma das incríveis consequências para Marías foi o recebimento do título de Rei de Redonda, uma ilha nas Antilhas, de cuja linhagem ele se ocupa a certa altura de "Todas as almas", ao resgatar a biobibliografia do escritor John Gawsworth, segundo Rei da ilha. Somente essa história vale a leitura dos romances. Por estranho que pareça, recomendo a leitura de "Negro dorso do tempo" primeiro.

É preciso ter cuidado com o que se escreve nos livros, pois às vezes se consuma, bem diz Marías. A literatura pode ser muito perigosa, sabem disso os autoritários de plantão.