domingo, 3 de maio de 2015

LIVROS PESAM APENAS NA ALMA



Livros pesam apenas na alma.
Há quem os considere um estorvo no ambiente.
Quem reduziu sua presença no lar a uns dois ou três exemplares.
Quem os prefira agora virtuais.
Quem os considere pesados ao bolso.
Ou mesmo quem reclame do peso deles na sacola.
Não eu.
Compro aqueles que me cabem, não me apresso.
Renovo edições na medida do possível.
Loto com eles estantes, caixas e mesas e mesinhas.
Muitos, presentes de minha amada.
Quero mais, não me nego a seu cheiro de tinta, ao manuseio.
Tenho as três edições brasileiras do "Ulisses", de Joyce.
Tenho as duas edições em português do "Infinite Jest", de D. F. Wallace.
Tenho toda a obra de Shakespeare numa edição da Melhoramentos, dos anos 1950.
Ou eles me têm, para ser mais preciso.
Como deve ser.
Livros pesam apenas na alma.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O QUE ENVELHECE



envelhece tudo
que repousa sem o devido desgaste

até mesmo
o tesouro que se amealha em cofre

envelhece o trono
e o sono dos inocentes

e envelhece principalmente
uma ideia que nos prenda a um poste
feito cavalo na frente de um saloon



sexta-feira, 17 de abril de 2015

DEZ ANOS HOJE


seus miúdos olhos ainda buscam os meus
que se desesperam
por entender aquele pouco brilho

quanta dor se pode suportar em silêncio?

garanti a meu pai minha companhia
até o último momento

meu pai apreciava o cumprimento de compromisso

hoje penso que se divertia
ao me ouvir murmurar: 
- não tenha medo, estou aqui

pois era aquela frase que seus olhos me diziam



quarta-feira, 15 de abril de 2015

O QUE PARTE


O percurso até o fim da linha se faz de garupa.
Há natural confiança no piloto ao se montar.
Trajeto combinado previamente.
O piloto, experiente, garante boa viagem.
Estrada boa, dificuldades previsíveis.
Assim se dá a partida.

O percurso até o fim da linha sofre alterações.
O piloto decide por trechos alternativos;
faz paradas não previstas; negócios particulares.
A viagem passa a apresentar riscos ao garupeiro.
Dificuldades imprevistas, manobras perigosas.
Na garupa, o viajante se mantém firme.
E calado.

Alertas na estrada.
Paradas na polícia.
Multas e avisos de cobrança.
O destino torna-se duvidoso.
Viajante a reboque do piloto.
E calado. Apêndice.

sábado, 11 de abril de 2015

O QUE ACONTECE


acontece que tudo parece derreter
em torno d'alma 
em lama

nenhuma cláusula pétrea resistirá
ao que assim acontece
entorno

ditadura em democracia
exército em movimento
corrupção contratada
burguês contra burguesia
discurso em bravatês
mentira oficial por ofício
internacionalização tardia
realidade em propaganda
roubo em expropriação
poder em esquizofrenia

tudo parece se dissolver
numa nova constituição
física

oleodúctil
doleuróssil
ourovalórica
mochilábil
fundeável
partibandística

acontece que nada pode revogar
leis naturais
nem mesmo o que apodrece
nos círculos infernais

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O QUE INQUIETA


tudo que acontece
para lá do meu alcance
pode me contaminar

daquilo sei quase nada
disso desconheço a fonte,
o lance,
o que se quer plantar

ontem não soube de muito
hoje me engano em ver

a história merece não sei que releitura
nem para mim mesmo
minha história posso mais contar

tomar pé na maionese
do discurso dominante
dicotômico, excludente
antes bem antes do meu sangue jorrar

acordar sozinho
andar sozinho
decidir sozinho
o rumo fora de qualquer cerca

e principalmente
permanecer vadio
subversivo
a inquietar aquilo e quem me acossa


terça-feira, 24 de março de 2015

O AMOR EM VISITA, HERBERTO HELDER

[...]
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa e madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável - 
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descem as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.


Trecho final do poema "O amor em visita", de Herberto Helder, poeta português nascido em Funchal, na ilha da Madeira, em 1930, e morto ontem, dia 23.03, em Cascais, de causas ainda não divulgadas. A cerimônia fúnebre acontecerá amanhã, quarta-feira.

Considerado por especialistas como o mais expressivo poeta português da segunda metade do século XX, teve publicado no Brasil, pela editora A Girafa, o volume "Ou o poema contínuo", que reúne vários dos seus livros de poesia. Ano passado saiu seu último livro, "A morte sem mestre", pela Porto Editora; meu amigo Mário Vieira procurou por um exemplar em Lisboa, no começo do ano, e não encontrou para me trazer: a edição esgotou rapidamente. Mas me trouxe um exemplar de "Os passos em volta", uma prosa autobiográfica publicada em capa dura pela Assírio&Alvim.

Tenho uma admiração plena pelo derramamento lírico de Herberto Helder. Seus poemas longos não se confundem com o palavroso, é muito mais generosidade do criador a entrega ao leitor de sua visão particular e emocionada do mundo e da gente no mundo à procura do que, no mais das vezes, desconhece. Uma tristeza enorme por mais essa perda da literatura. Mas Herberto Helder está posto entre os grandes, os clássicos, os imortais da língua portuguesa. Sua poesia é viva, pulsante e se renova a cada leitura. O poema "O amor em visita" jamais se esgotará e dele sempre brota uma luz e uma emoção renovadas. HH era chamado de "o poeta dos poetas". Que seus livros todos sejam cada vez mais lidos.