É verão na Bahia, sorria!
Cheguei pouco depois das 13h e peguei a ficha 306.
Instalei-me debaixo do toldo, ao final de um corredor apinhado, junto aos parceiros de desdita.
Havia lá muitos idosos, alguns bengaleiros, muitos desprovidos de visão, algumas crianças, um e outro obeso, um e outro viciado em falar ao celular. Apenas uma mocinha lia um livro, como eu.
Terminei, lá, a leitura de "Fome", de Knut Hamsun, prêmio Nobel em 1920. Até agora estou pasmo com tamanha força narrativa. A tradução é de Drummond; a edição é da Geração Editorial. Uma leitura milionária.
É verão, sorria, você está na Bahia!
Fui atendido próximo das 18h, sol forte lá fora, horário de verão, sorria... 18h!
Conversei, ouvi histórias, discussões ao celular, prestei atenção em silêncios sólidos, grandes suores, cansaços, por toda a tarde de verão baiano. Éramos trezentos, éramos trezentos e cinquenta... "Não adianta reclamar, aí suspendem o convênio e a gente é que fica na merda".
Na saída, a seguinte conversa: "Quer dizer que eu tenho que pegar dois ônibus...", "Sim, e o primeiro é para a Praça da Sé", "Muito bem, depois eu chego lá, numa boa", "Agora, você espera aí no ponto", "Já tá escurecendo?", "Não, vai demorar um pouco", "Bom, é que vou pro interior, ainda", "Assim, espera aí que o pessoal lhe diz qualé o ônibus", "Brigado, meu irmão". E lá se foi o colega tropicando pela calçada, bengalinha barulhenta nas pedras...
É verão, sorria, você está na Bahia.
Saí de lá com meus colírios preventivos do glaucoma.
domingo, 22 de janeiro de 2012
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
LIVRO DE PEREYR VENCE PRÊMIO DA ACADEMIA
Soube apenas hoje da notícia. Fiquei feliz com a escolha do livro de Roberval Pereyr como o vencedor do Prêmio Braskem Academia de Letras da Bahia, edição 2011, dedicada à Poesia. "Mirante" é o título do inédito premiado. A Comissão Julgadora foi composta por José Carlos Capinan, Ruy Espinheira Filho e Antonio Carlos Secchin.
Parabéns, Pereyr! Qualquer hora dessa a gente se vê em Feira e toma um vinho em comemoração. Uma pena alcançar esse mirante somente daqui a meses.
Mas deixo aqui um poema de "Amálgama", poesia reunida do autor, publicado pelo Selo Letras da Bahia, 2004.
NOS QUINTAIS DE DEUS
Nos quintais de Deus há seres atrozes,
plantas carnívoras, mulheres belas.
Há homens fúteis e maliciosos,
divindades menores e feras.
Nos quintais de Deus há espelhos partidos
e às vezes desce um luar funesto.
E às vezes cai um anjo ferido
ou um pássaro triste no meio da festa.
Nos quintais de Deus há homens noturnos,
bêbados decrépitos, brigas de galo.
As leis não se cumprem e às vezes as luzes
de súbito se apagam.
Parabéns, Pereyr! Qualquer hora dessa a gente se vê em Feira e toma um vinho em comemoração. Uma pena alcançar esse mirante somente daqui a meses.
Mas deixo aqui um poema de "Amálgama", poesia reunida do autor, publicado pelo Selo Letras da Bahia, 2004.
NOS QUINTAIS DE DEUS
Nos quintais de Deus há seres atrozes,
plantas carnívoras, mulheres belas.
Há homens fúteis e maliciosos,
divindades menores e feras.
Nos quintais de Deus há espelhos partidos
e às vezes desce um luar funesto.
E às vezes cai um anjo ferido
ou um pássaro triste no meio da festa.
Nos quintais de Deus há homens noturnos,
bêbados decrépitos, brigas de galo.
As leis não se cumprem e às vezes as luzes
de súbito se apagam.
(o poema integra o livro O súbito cenário, de 1996)
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
TRABALHO DO ESCRITOR
Cada livro é um novo livro. Nunca o escrevi antes e preciso aprender a escrevê-lo à medida que avanço. O fato de já ter escrito livros antes parece não ter nenhuma importância. Sempre me sinto como um iniciante, atravessando as mesmas dificuldades, os mesmos bloqueios, o mesmo desespero. A gente comete tantos erros como escritor, risca tantas frases e ideias ruins, descarta tantas páginas imprestáveis que acaba descobrindo, apenas, que é idiota. É um trabalho humilhante.
O autor dessas afirmações chama-se Paul Auster, escritor norte-americano, autor da "Trilogia de Nova York", composta pelos romances "Cidade de vidro", "Fantasmas" e "O quarto fechado". Depois viriam outros romances, poemas, peças, ensaios e roteiros para cinema. O trecho foi retirado da entrevista concedida à Paris Review, em 2003, que consta do livro "As entrevistas da Paris Review - Vol. 1", publicada aqui pela Companhia das Letras, em 2011, e com tradução de Christian Schwartz e Sérgio Alcides. Quem contestar há de?
sábado, 31 de dezembro de 2011
ESTEJAM BEM NO ANO QUE VEM
Apois, passei boa parte da noite finda a lembrar das amizades que conferem importância a nossa vida.
Queria abraçá-los a todos e agradecer a cada um o conforto que me dá suas existências, por mais distantes que alguns estejam.
Tudo indica que continuarei por aqui, a tecer histórias, a cuidar da saúde e a amar os meus amores, não necessariamente nesta ordem.
E a esquecer rapidamente "a maldade de gente boa... a bondade da pessoa ruim".
E a lembrar com alegria, como quem prepara novidades, dos encontros e dos apoios que me trouxeram até este ponto, a esta parte da estica (como dizia minha mãe).
Então, vamos rompendo, a construir paz e saúde. Daqui pra lá, de lá pra cá. Juntos.
Com esperança em 2012,
meus abraços,
Carlos Barbosa
Imagem: quadro de Wellington Virgolino
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