mesmo nesse dia
chove em teus verdes vales
e teu peito transborda
enxurrada materna
e exatamente por isso
ainda nesse dia
passas a noite numa emergência hospitalar
tua festa assim se desdobra
em rugas
e silêncios abissais
mesmo nesse dia
abres o leque de renúncias
e tua alma decanta
um sonho antigo
enquanto a chuva desce
por teus verdes vales
terça-feira, 14 de maio de 2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
CARTAS BAHIANAS, LANÇAMENTO
A P55 e os autores convidam para o lançamento de "Trem de risco", de Ana Bárbara Sousa, e "Muadié Maria", de Martha Galrão, cujo blogue pode ser acessado aí ao lado. O evento acontecerá amanhã, 14.05, no restaurante Confraria do França (antigo ExTudo), na rua Lídio de Mesquita, 04, Rio Vermelho, a partir das 19h. Sucesso!
sexta-feira, 10 de maio de 2013
A MÁQUINA DE MADEIRA, MIGUEL SANCHES NETO
A MÁQUINA DE MADEIRA, Miguel Sanches Neto, Companhia
das Letras, 2012.
O padre sonhador
materializa seu sonho. Julga que irá mudar o mundo com a máquina de
taquigrafia. O registro dos sermões, das sessões parlamentares, facilitados.
Então, na exposição nacional de 1861, perguntam-lhe: “Qual o valor do seu
produto?” O produto do sonho pode pertencer a esse tempo, mas não o sujeito que
sonha, que jamais pensa no valor comercial de sua criação. O padre sonhador não
sabia que o valor desejado era diverso do seu.
Houve uma infância brasileira,
uma juventude, e de lá saltamos para o caquetismo atual, sem passar pela
maturidade. Queimamos madeira, poluímos a água, produzimos sonhos sem valor
algum até serem apropriados por alienígenas. Um padre, um homem que sonhava,
que amava a escrava que comprou e libertou, um que inventou a máquina de
escrita antes de ela ser patenteada pelos gringos. História mais brasileira,
impossível. Romance histórico, painel de uma época, interessante viagem ao que
nunca deixamos de ser. Nós, os que jamais sabemos o valor do nosso produto, do
nosso sonho.
Publicado originalmente na revista eletrônica Verbo 21 (www.verbo21.com.br), edição de abril 2013.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
SALVADOR, ZONA AZUL
O flanelinha me apresenta a nova cartela de estacionamento:
– Agora é três reais, doutor, tá vendo aqui?
Vi, realmente, três reais cintilando na azulzinha.
– Parece que não teve jeito, né? O prefeito botou pra arrebentar, dobrou o preço.
O flanelinha, aqui chamado por alguns de guardador, deu um risinho:
– É, mas pra nós aumentou só 10 centavos.
– Como assim? – dessa vez não guardei na bochecha a perplexidade. – Quando era 1,50 vocês não tiravam a metade, 75 centavos?
Foi aí que o suado flanelinha me mostrou um papelucho com anotações a caneta:
– Tirava. Mas olha aqui, doutor, na cartela de três reais a gente deixa agora na prefeitura 2,15. Portanto, a gente tira agora somente 85 centavos na cartela de três, um aumento de 10 centavos. E a gente torrando neste sol...
Esta a lição do liberalismo baiano: 100% de aumento na despesa do usuário da classe média, quase 200% de aumento no faturamento da prefeitura e meros 10 centavos, pouco mais de 10% de aumento pro trabalhador.
Agora, tirem uma linha, como dizia minha mãe.
domingo, 5 de maio de 2013
MAYRANT, ENCANTOS DO SOL, ROMANCE, QUARTA, 08 DE MAIO
O primeiro romance a gente nunca esquece. Conheceremos "Os encantos do sol", primeiro romance de Mayrant Gallo, na próxima quarta-feira, dia 08 de maio, a partir das 19h, na livraria Cultura do Shopping Salvador.
O romance sai pela Escrituras com o aval da Petrobras e Ministério da Cultura, fruto da bolsa de criação literária que a empresa petrolífera oferece aos que se candidatam em edital. Ou seja, os "patrulheiros" estão se mordendo de raiva e ciúme: o primeiro romance do Mayrant Gallo já nasce premiado! Vão me patrulhar também por isso, mas e daí?... O sol queimará a todos que a ele se expuserem, esse um dos seus maiores encantos.
Então, vamos todos ao Shopping Salvador, quarta-feira, dia 08 de maio, a partir das 19h, para conhecer "Os encantos do sol", de Mayrant Gallo. Já reservei meu exemplar.
sábado, 4 de maio de 2013
VIDA VIDA
Dona Celinha passa a manhã inteira na clínica de fisioterapia.
– Eu gosto daqui, meu filho!
A filha vem buscá-la para o almoço.
Até lá, curte sessões de RPG, de ultrassom e assemelhados ou de hidroterapia, a depender do cartãozinho.
Entre coisa e outra, conversa entusiasmada com quem estiver na sala de espera.
Dona Celinha anda perto dos oitenta, sem dúvida.
Então, vejo-a sair emburrada do consultório do fisioterapeuta-chefe.
– Ele não quer que eu faça a cirurgia! - anuncia.
E de pé, no meio da sala, descasca:
– O que me incomoda é esta coluna, dói demais. Eu quero fazer a cirurgia e ele não recomenda, não quer de jeito nenhum!.
Endireita-se, olha em volta, repete o salmo e depois de ter a certeza da atenção dos presentes, arremata:
– Ora, eu não vou viver minha vida assim!
E se acomoda cuidadosa em uma cadeira, para esperar a filha.
terça-feira, 30 de abril de 2013
A VOLTA DE QUEM AINDA NÃO FOI
Segunda-feira, dia aziago. Dia de preparos e desconcertos. Ontem foi um desses dias. Idas e vindas, correrias, horários pra cumprir, choques pra tomar na fisioterapia e a bendita instalação da internet, finalmente.
Os "técnicos" chegaram. Parecia o time do Bahia: um lá, outro cá; um fala, outro não ouve; um indaga, outro não entende; um puxa, outro segura. Abri as duas portas do apartamento para facilitar o desencontro da equipe, não me culpassem por nada depois. E fiquei calado, pois costumo estranhar certas atitudes táticas desmantelosas.
Negócio trabalhoso, fazendo suar a perfumaria dos rapazes, atiçando a fome e a vontade de logo zarparem do campo de jogo. Aceitei a sugestão (achei prudente aceitar) de colocar o modem na sala etc. Conectaram fios, luzinhas se acenderam e piscaram. Pensei: o jogo tá ficando bonito.
Pediram meu notebook esmolambado. Programação do modem. Tentativas. Outras tantas. Pediram um palito de dente. Isto mesmo: um palito de dente!!! Eu em silêncio: ainda bem que não foi palito de fósforo, cá não tenho desses. Enfiaram o palito num buraquinho do modem, desprogramou-se o danado (sozinho, claro). Trocaram o modem, enfim. Luzinhas acenderam e piscaram. Modem programado no notebook, ou algo assim. Conexão firmada ad infinitum. Eu esfregando as mãos.
Claro que a internet não foi acessada de imediato. Dali a 40 minutos o sinal seria liberado. Guardei na bochecha o "como assim?", vamos em frente. Papel pra assinar, tudo certo, era só esperar. Duas horas depois, cansei de esperar. Ligações feitas, o remédio era agendar uma visita técnica para o dia seguinte, hoje.
Então era hora de ir ali, depois acolá, fazer isso e aquilo (PRECISO ENVIAR O IMPOSTO DE RENDA, PORRA!), e encerrar o dia no lançamento de "Cidade singular", novo livro de contos do Mayrant Gallo. Compramos três exemplares e na hora de pagar com o cartão, o golpe final: senha suspensa. Segunda-feira, dia dos enfartos.
Bem, as boas notícias ficaram pra hoje: a senha foi suspensa por precaução bancária, já tenho uma nova. E desta vez tocou hoje a campainha um profissional que corrigiu as merdas feitas no dia anterior pela dupla de armadores do Bahia, e uma hora depois o milagre se fez. Eu, de volta à internet.
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