domingo, 11 de janeiro de 2015
O QUE SONHA
o que sonha
no pesado sono noturno
escapa ao amanhecer
feito urina turva
tragada pelo vórtice da descarga
o que sonha
no agitado sono diurno
escorre no suor
que respinga no piso empoeirado
do lugar antigo que habita
o que sonha
acordado
ladeia seus atos
feito cão faminto
tratado a pontapés
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
O QUE SOBRA
O que sobra em sua vida
pode abrir a manhã em duas
conferir sabor a maçã
do rosto da Madona
de cedro na sala
O que sobra em sua vida
deve temperar a noite
dourar o dorso das carícias
faltas às suas mãos
feridas pela solidão
O que sobra em sua vida
cabe bem no braseiro
aceso debaixo do viaduto
facho e farol de dores
dissabores e abandonos
O que sobra em sua vida
são alertas
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
O QUE FALTA
O que falta
na sua vida
em você
O que falta fazer
O que falta comprar,
pedir ou vender
O que falta acontecer
Um dia
um encontro
um ou mais tropeços
algo novo a conhecer
Um recomeço
ou despedida
um novo desfecho
uma nova saída
O que falta a você
a sua vida
um sinal como este: ?
ou talvez: !
ou quem sabe: ...
falta ciência,
faxina, musculação
tudo é só aparência
ainda falta escolher
o que falta em você
na sua vida
sábado, 13 de dezembro de 2014
Ê BALANCÊ BALANCÊ - 2014
Ainda vivo, até escrever estas.
Muitas e nem sempre boas.
Junto a minha filha, minha irmã, minha amada,
e o universo de cada uma,
arranjo mió que bom.
Nenhum livro publicado.
Um livro em revisão.
Um outro livro prestes.
Menos viagens que as desejadas.
Menos visitas que as possíveis.
Mais médicos que os necessários.
Bem mais leitura do que deveria.
Pouco dinheiro, óbvio.
Mas ainda vivo, até estas linhas.
Menos silêncio que o prometido.
Algumas perdas inevitáveis.
Alguns ganhos inesperados.
Uns e outras merecidos,
uns e outras, castigos.
Um conto na revista da Academia.
Uma participação na FLICH,
outra sobre Jorge Amado.
Estudantes afilhados em Seabra.
Amizades fortalecidas,
outras esmaecidas.
Mas ainda vivo, até aqui.
Uma honra inaudita em ser esquecido
pela oficialidade.
Uma honra inaudita em ser lembrado
por amigos e parentes.
Dias com minha madrinha,
outros com minha terra, minhas águas e
meus mortos.
Idas à Colônia Treze, a Lauro,
a São Paulo, à Chapada, a Feira.
Outros lugares num mesmo lugar.
O mesmo homem renovado
e deliciosamente atormentado.
Um ano que vai, um que por certo virá,
e que talvez me levará até um outro
que adiante me aguarde.
Vivo, ainda, até este ponto.
E tudo sendo um misto quente
de realidade e ficção,
com uma bucha de sena no meio,
pronta pra arrebentar com a partida.
Apostas feitas, talheres nas mãos:
2015 tá na mesa.
(Ponto de seguimento).
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
IMAGENS CINTILANTES, CAMILLE PAGLIA
A civilização é definida pelo direito e pela arte. As leis governam o nosso comportamento exterior, ao passo que a arte exprime a nossa alma. Às vezes, a arte glorifica o direito, como no Egito antigo; às vezes desafia a lei, como no Romantismo. O problema com as abordagens marxistas que hoje permeiam o mundo acadêmico (via pós-estruturalismo e Escola de Frankfurt) é que o marxismo nada enxerga além da sociedade. O marxismo carece de metafísica - isto é, de uma investigação da relação do homem com o universo, inclusive a natureza. O marxismo também carece de psicologia: crê que os seres humanos são motivados apenas por necessidades e desejos materiais. O marxismo não consegue dar conta das infinitas refrações da consciência, das aspirações e das conquistas humanas. Por não perceber a dimensão espiritual da vida, ele reduz reflexivamente a arte à ideologia, como se o objeto artístico não tivesse outro propósito ou significado além do econômico ou do político. Hoje ensinam aos estudantes a olhar a arte com ceticismo, por seus equívocos, suas parcialidades, omissões e ocultos jogos de poder. Admirar e honrar a arte, exceto quando transmite mensagens politicamente corretas, é considerado ingênuo e reacionário.
Trecho da introdução de "Imagens cintilantes - uma viagem através da arte desde o Egito a Star Wars", de Camille Paglia, editora Apicuri, Rio de Janeiro, 2014.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
ÂNGELO SOBRAL DESCE AOS INFERNOS, RUY ESPINHEIRA FILHO
Uma joia lapidada depois de três décadas de existência.
A obra de Ruy Espinheira Filho não para de me surpreender: "Ângelo Sobral desce aos infernos" ressurge com vigor contemporâneo e sabor clássico. E cheiro bom de novidade.
Um romance breve que consegue abrigar vários mundos, personas e vidas distintas, tudo aprisionado em tensão na memória do protagonista/escritor.
Ângelo Sobral se vê só, repentinamente, viúvo. Ainda há fios que o prendem e o movimentam no território social: uma filha, netos, amigos, o milagre de um editor. E ainda há a literatura e suas possibilidades.
Sobral, então, escreve. E o leitor o acompanha nessa pulsão de busca e configuração de seres e vivências, e de si mesmo, que o autor assim sintetiza: "Eles sou eu, eu sou eles, e somos cada um e todos os seres humanos, e somos singulares."
Ontem mesmo Amadeu e Rosa foram notícia na mídia nacional: o amor envelhecido levado ao extremo desespero de vida e sonho que se esvaem abandonados e que escorregam à revelia para o horror das perdas.Tude e Cão possuem milhões de clones em cada esquina do subdesenvolvimento e, no entanto, luzem de forma única e inesquecível na narrativa. E Lara me levou até Iara Iavelberg a ler cartas de seu amado guerreiro, carregando no ventre um rebento fadado a um destino trágico antes mesmo de nascer. Esses e aqueles tempos que jamais passam em nós.
Ruy constrói neste romance mais um painel lírico-dramático da travessia turbulenta que todos nós fazemos ao existir sob o Sol.
Ao refletir sobre essa jornada, Ângelo Sobral entrega com generosidade ao leitor o produto final de sua luta como homem, como criador preocupado com seus personagens, como artista que desce aos seus infernos e de lá retorna com o ramo de ouro: a literatura em sua grandeza.
Uma obra de mestre, sem dúvida.
Ângelo Sobral desce aos infernos
Ruy Espinheira Filho
Giostri Editora/SP (www.giostrieditora.com.br)
Preço: R$ 32,00
À venda na Livraria Cultura, Salvador Shopping
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
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