domingo, 30 de agosto de 2015

NA FENELIVRO, EM PERNAMBUCO


    
   Amanhã, segunda-feira, 31.08, participarei como debatedor da palestra que o escritor Ruy Espinheira Filho fará na Noite Nordestina dedicada à Bahia, na I Fenelivro. A I Feira Nordestina do Livro - Fenelivro acontece de 28 de agosto a 7 de setembro de 2015, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda. O evento será gratuito com realização da Associação do Nordeste de Distribuidores e Editores de Livros (Andelivros) e da Câmara Brasileira do Livro (CBL), em parceria com a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). Marca ainda os cem anos da Imprensa Oficial do Estado.
     A intenção dos organizadores é que, a partir da explanação de Ruy, o debate explore a presença da Bahia na literatura do autor e como anda a produção literária em nosso estado. A cada noite, no Salão Ariano Suassuna, um estado nordestino será representado por escritores e tratado como tema dos debates. Adiante, darei notícia do que rolar por lá, na noite baiana.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A AMIGA GENIAL, ELENA FERRANTE



   A culpa era dela. Num tempo não muito distante - dez dias, um mês, quem sabe, na época ignorávamos tudo sobre o tempo -, ela pegara minha boneca traiçoeiramente e a jogara no fundo de um porão. Agora estávamos subindo juntas em direção ao medo, antes nos sentíamos obrigadas a descer, correndo, rumo ao desconhecido. Para o alto, para baixo, parecia sempre que estávamos indo ao encontro de algo terrível que, mesmo existindo antes de nós, era a nós e sempre a nós que aguardava. Quando se está no mundo há pouco tempo, é difícil entender que desastres estão na origem do nosso sentimento de desastre, talvez nem se sinta a necessidade de compreender. Os grandes, à espera de amanhã, se movem num presente atrás do qual há o ontem ou o anteontem ou no máximo a semana passada, não querem pensar no resto. Os pequenos não sabem o significado do ontem, do anteontem, nem de amanhã, tudo é isto, agora: a rua é esta, o portão é este, este é o dia, esta, a noite. Eu era pequena e, no fim das contas, minha boneca sabia mais do que eu. [...].



   Trecho de "A amiga genial", de Elena Ferrante, pseudônimo de uma escritora italiana que tem sido saudada como uma das mais fortes vozes da literatura contemporânea. O volume que leio, primeiro de uma tetralogia, integra a Biblioteca Azul, da Editora Globo, 2015, com tradução de Maurício Santana Dias. 

   Reclusa, Ferrante concede entrevistas apenas por e-mail e por intermédio do seu editor. Disse ela recentemente ao jornal O Globo: — No que posso, participo da vida pública, mas tenho uma opinião negativa do protagonismo e de todas as amplificações e distorções da mídia. Prefiro me expressar com a escrita, um meio de amplo controle. Quanto às entrevistas, faria tudo o que me pedem se não tivesse medo de resultar chata, repetitiva, e sobretudo se pudesse, como neste caso, escrever eu mesma as respostas. Não confio em minha oralidade, nas palavras improvisadas e, perdoe-me, em como os entrevistadores frequentemente abusam delas, quando as colocam por escrito.

sábado, 1 de agosto de 2015

QUADRILHA, OBSCENAS, CARLOS BARBOSA

QUADRILHA

Bandido prende o cidadão honesto.
Cidadão honesto elege o corrupto.
Corrupto posa de autoridade.
Autoridade se entrega ao capital.
O capital virucida o mundo.
E o mundo aplaude o bandido.



Leia esta e outras muitas micronarrativas em "Obscenas", meu mais recente livro, lançado no dia 29 de julho passado, e que já pode ser encontrado na livraria Cultura do Salvador Shopping. É baratinho: 15 reais, da P55 Edições, coleção Cartas Bahianas.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

LANÇAMENTO HOJE NA CONFRARIA DO FRANÇA


 
   
    
 DOMÉSTICA

     A mulher prepara um cozido.
     Panelão borbulha no fogo.
     Tempero verde, legumes, raízes tuberosas.
     Sal a gosto.
     Molho de pimenta reservado.
     O copo de cerveja na bancada a lacrimar.
     Depois de um gole, a mulher enxuga a testa
com o dorso da mão esquerda.
     Só então começa a esquartejar o desgraçado.


     Taí uma amostra do que o leitor vai encontrar em "Obscenas", meu novo livro de minicontos, que será lançado hoje na Confraria do França, a partir das 19h, ali no Rio Vermelho, perto do Colégio Medalha Milagrosa. Vou estar ao lado de Mayrant Gallo e seu "O enigma dos livros", livro de contos fantásticos, que já comentei em post anterior. Espero vocês lá.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

MINICONTOS, OBSCENAS

 
 
     Dei o título de Minicontos a este blog pois pretendia nele publicar... minicontos. Como fiz em blogs anteriores. Os minicontos que escrevi, de 2002 até esta parte, me renderam dois livros. O primeiro, "A segunda sombra", saiu pela Multifoco/RJ, em 2010. E o segundo sai agora pela editora P55/BA, com lançamento na próxima quarta, 29, na Confraria do França, em Salvador, a partir das 19h.
 
     Sou um escritor reconhecido pelos romances "A dama do Velho Chico" e "Beira de rio, correnteza". Um romancista que escreve minicontos pode provocar, à primeira vista, um certo estranhamento. Mas, por mais estranho que pareça, o miniconto oferece ao escritor uma liberdade semelhante àquela do romance. E eu me sinto muito à vontade com o gênero (me recuso a tratar o miniconto como subgênero).
 
     O território do romance permite ao escritor digressões, descrições, perfilamentos de personagens, notícias históricas, comentários filosóficos e psicológicos, variações na forma narrativa etc. Já o living do miniconto o desobriga disso tudo, ou faz de cada um desses recursos narrativos uma experiência micronarrativa. O miniconto dispensa até mesmo a identificação do seu protagonista. Pode preservar a estrutura do conto, com fecho de ouro e história oculta, por exemplo, condensando parágrafos inteiros numa única frase; ou pode se constituir apenas de uma frase. O título não apenas sinaliza o enredo: é parte fundamental da narrativa.
    
     Crônica, prosoema, reflexão filosófica, comentário social, piada, causo, o que seja, o miniconto sempre foi praticado, desde que alguém se dedicou a contar histórias. A internet o popularizou, está firme no meio editorial. E, sim, dá rápida vazão ao olhar crítico do autor, à sua indignação frente aos desrumos da realidade e a suas dores sempiternas. E isso é pouco diante das infinitas possibilidades criativas que oferece. 
 
    

sábado, 25 de julho de 2015

OBSCENAS


De Antônio Carlos Viana:

"Recebi os livros ontem. O seu devorei numa sentada. Muito bom de ler. Estás afiado na crueldade. Trevisan que se cuide. São contos mínimos muito bem realizados."

De Mayrant Gallo:

"Em Obscenas, Carlos Barbosa transforma a realidade imediata em literatura e inquietação. Através de minicontos poéticos, cria um mosaico dos horrores deste Brasil bizarro e sem comandante." 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

ENIGMA DOS LIVROS E OBSCENAS



      O ENIGMA DOS LIVROS, de Mayrant Gallo, reúne sete contos do autor, entre eles aquele que dá título ao livro. Uma nota de fantástico perpassa todos os contos, o que não é novo na contística de Mayrant, um amante da ficção científica, que também pratica com muito talento.
 
      Seu famoso personagem Victor Vihil surge logo no início do livro, imprimindo essa marca de estranhamento com uma presença envelhecida e adoentada a passar por provações físicas e psicológicas em exames clínicos penosos. E a se relacionar de forma intensa com um gato de rua. Aliás, os gatos retornam adiante em um conto, digamos, próprio, agora investidos na condição de fiscais, ou gângsteres, de um sistema social apodrecido.  Os azuis mal são notados em meio a confusão provocada pela queda de um avião e seus malotes de dinheiro, sendo arrastados pela ignorância e oportunismo dos homens a um fim patético.
 
      Mayrant capta muito bem os sentidos perturbadores da vida contemporânea. O abandono, a peregrinação dos doentes, o desamparo oficial, uma realidade ao largo da dos homens comuns, comandada por não se sabe quem e que nos afeta direta e cruelmente. O enigma dos livros talvez seja o de revelar essa realidade obscura que insiste em rir dos que tropeçam nas calçadas esburacadas da vida comum. Deliciosa leitura, com a leveza preconizada por Calvino e a qualidade literária já conhecida de um dos principais ficcionistas e poetas da Bahia.  
 
      Com o livro de contos de Mayrant Gallo, O enigma dos livros, e o meu de minicontos, Obscenas, a coleção Cartas Bahianas alcança a impressionante marca de 44 títulos publicados. A coleção é publicada pela P55 Edições e tem como coordenador editorial o escritor Claudius Portugal.