sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A CHUVA DE MARIA

XXVIII

Desamparo sou eu e meu pai caminhando de chinelos
pelo pátio do edifício. Abraçados. Se você parar de
sofrer eu lhe dou uma bicicleta, ele dizia.
Eu queria muito uma bicicleta, mas parar de sofrer eu
não conseguia.
Há tanta gente pior do que nós, minha filha. Esta era
a frase de misericórdia,
a que feria mortalmente meu coração.
Sofria ainda mais me lembrando dos que sofriam mais
que eu.


Poema de Martha Galrão, em "A chuva de Maria", livro lançado hoje na livraria Cultura, publicado pela editora Kalango. Estou gostando muito do que leio, ainda a sentir cheiro de tinta. Parabéns a Martha pelo trabalho cuidadoso e visceral.

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