segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

SANTO REIS



   Santo Reis é um bom santo...
   O batuque do reisado, as chulas entoadas, o sincopado do ritmo a embalar o sono da criança que fui, no lugar que foi, num tempo que resiste.
   Sequer tenho notícia de reisado, as pessoas se vão à francesa, escapam em silêncio pela névoa que se espalha sobre as águas da memória. O batuque ressoa na caixa craniana, incontornável.
   A questão central será sempre "quando", diante de uma inevitabilidade.
   Iniciadas as "incelênças", e a partir daí suor, poeira e um sopro de desespero que jamais deixa de se infiltrar noite adentro.
   Esse "quando" acontecerá quando. Estaremos lá. E de nada saberemos.
   Santo Reis é um bom santo...

sábado, 28 de dezembro de 2019

2020


   Quase não tem graça alguma.
   Na verdade, cansa festejar o que não tem sido bom.
   E cansa, mais ainda, fingir esperança num novo tempo, que tudo tem para ser ainda pior do que este que se esvai. Esvai, mesmo.
   O bom de tudo que tem passado é que estamos aqui para escrever estas.
   E para ler estas e outras.
   Mas estou certo de que há quem discorde de que mesmo isso seja bom.
   
   Esperança, otimismo, fé no novo tempo...  -  pronto, cumprido o ritual.
   
   Fato é que perdemos muito mais do que é mantido.
   Notem que eu não escrevi "mais do que se ganha".
   Cada dia vivido, uma perda no saldo.
   Cada sonho adiado ou não realizado, ah... um estrago na alma.
   Cada oportunidade desperdiçada, um atraso de vida.
   Cada frustração sofrida, uma cicatriz.
   Cada amigo que se vai, o mundo reduzido.
   Cada topada, uma dor feladaputa a suportar.
   
   Ao positivar as orações acima, não se obtém grande coisa.
   Experimente, mas à vera. 
   Agora, se é para fazer parte da Grande Alegria das selfies e stories, então a coisa é farta.
   Tome Noronha, Seychelles, Times Square, Muralha da China, Torre Eiffel, praia de Copacabana...
   E depois do clique, a depressão.

   Ah, sim, somos inteiramente responsáveis por esse quadro deprimente.
   Como indivíduos, grupos sociais e sociedade inteira.
   Existir, resistir, pois.
   De alguma forma, preparar o couro para mais uma travessia.
   Não de um rio, mas de uma vala de lama fétida e tóxica de mais uma barragem rompida.
   
   Dizem que é um novo ano, dizem.
   Mas é bom preparar o couro.
   

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

AURORA DE CEDRO, de TITO LEITE





   O poeta está no que escreve, o poema é seu lar, sua estrada e desvios. Em cada ode, o poeta canta/ uma morte... O poeta arrasta consigo tudo que ainda não aprisionou no verbo, projeta nos desvãos suas agonias e sonhos. A curva,/ o baque,/ o presságio/ de uma ilusão. Talvez não seja nada disso, e bem aí resida todo encanto da literatura. O leitor pode não perceber sangue e lágrimas no brilho dos versos, e pode ser que nenhuma umidade haja nas páginas que lê, ou suas mãos é que sejam impermeáveis, vai saber o quê ou quem... Deus nos salve/ de Deus. Assim, a poesia se oferece aos que a procuram e a desejam, em especial, em tempos trevosos. Assim um livro de poemas se abre.

   Aurora de cedro, de Tito Leite, tem todo jeito de estrada vicinal, embora ostente na clareza dos poemas uma aparência de estrada romana. O navegante/ é uma tarde esmagada/ na barca. Aurora é o nome da cidade natal do poeta, no cálido Ceará: nordestino, sertanejo pode falar em sabres, mas pensa em peixeira, conheço  bem essa viagem. Não há estrada certa/ ou verdades incontestes. Pois o poeta sabe que tropeçamos quase sempre nos voos que ensaiamos diariamente. No fundo/ é tudo lodo,/ por isso me/ estilhaço todo. Riobaldo sorriria ao ouvir isso.

   Tito Leite é monge beneditino. Pausa para um "oremos". Aqui entra o cedro do título do livro, madeira que é símbolo do Líbano, citada 75 vezes na Bíblia, utilizada em cerimônias religiosas e construção de templos desde o Egito antigo, segundo a Wikipedia, cujos uso e cheiro povoam o imaginário de judeus e cristãos. O cedro diz do trabalho do poeta: massa de combate, entalhe e polimento. Deus me sabe/ na moira/ das suas mãos./ São voláteis/ as minhas preces. Os poemas de Tito Leite expõem a batalha do homem e seu propósito terreno. Eu beijaria o caos diz o poeta em letras garrafais.

    Li várias vezes Aurora de Cedro antes de comentá-lo aqui. O medo de que tudo/ dê em nada dói nos ossos. É possível sentir reverberar o clássico em suas linhas, do fraseado aos temas, das citações bíblicas às filosóficas, sem desprezar as referências da pop art, pois o poeta não se esconde: Eu habitava comigo/ como se a sonoridade do meu nome/  fosse um origami/  na aurora de cedro. Taí um livro que recomendo, de um poeta que se arrisca, de um homem que se agita em sua incompletude. Não ser de rebanho/ é não ter/ o cheiro/ do pastor. O cuidado na construção do verso Não ser de rebanho justifica tudo no meu sãofranciscano entendimento. 


Aurora de cedro, de Tito Leite, publicado pela editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2019

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

ELENA FERRANTE E MÔNICA MENEZES EM SINTONIA


   Leio que o novo livro de Elena Ferrante será lançado ainda este ano na Itália. E que não tem editora nem previsão de data para lançamento no Brasil. "La vita bugiarda degli adulti", com tradução livre para o português "A vida mentirosa dos adultos", é o título de mais uma narrativa que a autora ambienta em Nápoles, sua terra natal, a despeito de ser desconhecida sua verdadeira identidade.
 
   Pois bem, o material de divulgação de "La vita bugiarda..." adianta a primeira frase do romance: 
   
   "Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse a minha mãe que eu era muito feia". 

   Ao ler a frase, de imediato a associei ao poema "Eleição", de Mônica Menezes, pela voz feminina acusadora de um golpe terrível, a pecha de ser feia, que tem origem em um ser mais que amado, um dos genitores; no caso do romance de Elena Ferrante, o pai, e no poema de Mônica Menezes, a mãe. Leiamos o poema em sua versão publicada no blog da autora, "Estranhamentos", no dia 08 de janeiro de 2011:

   ELEIÇÃO

   o anel, a flor, o poema
   tudo isso tão bonito
   todavia o que ecoa mesmo
   no fundo mais fundo da alma
   são as palavras-lâmina da mãe
   sussurradas no quarto ao lado
   naquela madrugada de setembro
   elegendo-a
   para sempre
   a menina mais feia da casa

   Um poema poderoso, sem dúvida. Toda vez que o leio, sinto as palavras rasgando o tecido dessa alma sensível, marcando-a eternamente com um epíteto naturalmente injusto; sinto um transbordo emocional inevitável e reconheço no poema a arte de uma poeta de superlativa qualidade, de  indiscutível talento para o burilamento e condução de temas preciosos à condição humana. Precisava fazer esse registro, pois fui alcançado por essa sincronia criativa de duas autoras que muito aprecio e recomendo. 

   Aguardemos, portanto, o lançamento do novo livro da Elena Ferrante. Enquanto isso, confiram mais poemas de Mônica Menezes no blog "Estranhamentos", listado aí ao lado, e no "Profundanças 3", coletânea virtual publicada pela Voo Audiovisual, que teve organização de Daniela Galdino, onde "Eleição" se faz presente, que pode ser baixado gratuitamento em http://vooaudiovisual.com.br/projects/profundancas3/


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

SÃO FRANCISCO: O SANTO, O RIO E O GÊNIO

 


    O rio é chamado de São Francisco porque sua foz foi encontrada pela expedição portuguesa que fazia o reconhecimento do litoral da nova terra, a mando d'El Rei de Portugal, no dia consagrado ao santo dos pobres. Américo Vespúcio era o cartógrafo, foi quem anotou lá a existência do grande rio, naquele 04 de outubro de 1501. 
       
    De lá até os dias que sofremos na pele, o rio São Francisco foi o Rio dos Currais por todo o período colonial e o rio da Integração Nacional já na República, quando os vapores navegavam entre Juazeiro e Pirapora. Atualmente, entulhado em vários trechos, já não serve à navegação, mas como reserva para geração de energia elétrica e irrigação das grandes lavouras. Sem falar no sangramento a que o submetem para abastecer os tais canais... bem, deixemos isso de lado. 

   Quero lembrar aqui algo que relatei no romance "Beira de rio, correnteza", páginas 134/6:

   Naquele mesmo porto, chamado de Boca da Barra, pouco mais de cem anos antes, um diplomata inglês em serviço no Brasil, Richard Francis Burton, Sir, desembarcava no começo de um dia ensolarado. Era um preciso e festejado dia Quatro de Outubro, aniversário de achamento do rio e data comemorativa do santo que o nomeia, coincidência que merece particular e futura apreciação.

   [...] Burton era figura ímpar. Geógrafo, cartógrafo, explorador, linguista, escritor, tradutor, diplomata e espião da Rainha da Inglaterra. Um renascentista e viajante inveterado. Em Bom Jardim, ocupou-se parte do dia em andanças pelo arraial e arredores, em conversações com o povo e a fazer anotações, fato em nada espantoso pois Burton dominava a língua, tendo passado temporada em Goa, então possessão portuguesa na Índia. Adotava como prática a imersão na cultura do povo que visitava. Comia de sua comida, bebia de sua bebida.

    As anotações que fez em Bom Jardim, nos idos de 1860, Burton reuniu no livro que publicou sob o título "Viagem de canoa de Sabará ao Atlântico", editado no Brasil pela Editora Itatiaia. Resumi no romance os registros mais importantes que Burton fez sobre Bom Jardim, nossa Ibotirama, quando ali passou um dia inteiro, o dia 04 de outubro, um dia como o de hoje. À noite daquele dia, Burton desceu até a altura do Barro Alto, onde acampou e promoveu batuques e farra com os nativos, sujeito sábio. Disse muita coisa sobre a carnaúba e sobre cada lugar que lhe mereceu passagem e atenção. 

    Mas de tudo ficou aquele 04 de Outubro, dia do Santo, dia do Rio, dia em que o genial inglês, primeiro tradutor para o ocidente das "Mil e uma noites", o homem que conduziu a expedição em busca da nascente do rio Nilo (vejam o filme "Nas montanhas da lua"), esse incrível cientista nos visitou e tão bons augúrios fez ao nosso futuro. Que se cumpram, e que não seja tarde para nós e para o rio.

    

terça-feira, 24 de setembro de 2019

24 DE SETEMBRO 1969, QUARTA-FEIRA, O DIA DA MORTE



   Como aquele dia chegou e amanheceu, não faço a menor ideia. Sei que ficamos no Posto de Saúde até altas horas e que retornamos para nossa casa a granel, em momentos variados, pelo escuro das ruas, pois em Ibotirama a luz elétrica, então, era a diesel e desligada às 22:30h. Talvez eu tenha dormido pesado, menino que era, assustado que estava, esgotado por cansaços diversos, talvez.

   Daquele começo de manhã de quarta-feira nada recordo que sirva a esta contação, a não ser de minha figura mirrada descendo a rua 1º de Janeiro a responder pessoas sobre o estado de saúde do meu irmão: "Na mesma, na mesma." E depois retornando ao Posto e depois em casa novamente. Era primavera lá fora e o mais gélido outono possuía o nº 3 da travessa Nossa Senhora da Guia. Sim, lembro do meu pai, em algum momento daquele dia, de barba por fazer e cenho absolutamente fechado, chapéu nas mãos, num silêncio insuperável. E da casa ficando atopetada de gente em providências arrepiantes.

   E foi de uma maneira seca feito um raio sobre nossa cabeça que, por volta das 11h, meu pai irrompeu em casa e disse: "Ele morreu".  A partir de então, minha mãe prostrou-se na cama do casal aos gritos e em pranto, ou em pranto entrecortado por gritos. Minha irmã e eu agarrados a ela, num chorar desmedido, tentávamos dar-lhe algum consolo, fazendo promessas de bom comportamento. Havia aquela câmara dolorosa que abrigava minha mãe e pelo resto da casa uma agitação de preparo do velório. Tudo pra mim era espantoso e inédito. E muito tempo depois reviveria aquele ambiente, naquela mesma casa, quando eu mesmo conduzi os preparativos para os velórios de meus pais. Aquela casa jamais me abandonará.

   Desse cenário, salto para a igreja lotada, a multidão ocupando o adro, escadarias e parte da praça, a cidade inteira ali presente. Vejo o caixão aberto, o rosto macerado de Nelsinho, os chumaços de algodão sobressaindo da pele morena e dos hematomas, as centenas de ginasianos fardados, e depois dos colegas mais próximos carregando o caixão, em revezamento, até o cemitério. Eu me espremia entre o povaréu, procurando ficar próximo do caixão, na longa jornada até o túmulo aberto. Lá, o caixão repousaria sobre o montículo de terra retirada, enquanto o sol nos abandonava de chofre, e o prefeito, meu padrinho Eládio Almeida Pinto, fazia o discurso de louvação do jovem estudante morto, do craque de futebol que o nosso futuro perdia, do filho muito amado de seus compadres. Lembro, lembro, lembro...

   Cinquenta absurdos anos se passaram. Vez em quando bate essa emoção retada e incontornável. Meus onze anos de então incorporaram esses cinquenta na marra. Toda sorte de tropelia me acometeu de lá pra cá e mesmo assim tenho resistido, pois resistir foi a parte que me coube. Saibam que, quando minha hora for construída e alcançada, quero depois virar cinzas. E se não for dar trabalho demais a quem ficar, que se me espalhem no meio do rio São Francisco, em frente ao cais de Bom Jardim, a Ibotirama falada. Adianto que só serve se for no meio do rio, onde não dá pé, que é sempre o melhor jeito de navegar.