domingo, 11 de novembro de 2018

GUIMARÃES ROSA, O SERTANEJO





   [...] nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar histórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo em que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narrar histórias corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens. Assim, não é de estranhar que a gente comece desde muito jovem. Deus meu! No sertão, o que pode uma pessoa fazer com seu tempo livre a não ser contar histórias? [...] Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava tudo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda. [...] Quem cresce em um mundo que é literatura pura, bela, verdadeira, real, deve algum dia começar a escrever, se tiver uma centelha de talento para as letras.


   João Guimarães Rosa, em entrevista a Gunter Lorenz, publicada em "Diálogo com a América Latina - panorama de uma literatura do futuro", em edição da EPU - Editora Pedagógica e Universitária, SP, 1973.

sábado, 20 de outubro de 2018

TEMAS PARA QUALQUER TEMPO




   É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.

   Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

  É nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer, nunca reverenciar.

    Cada povo tem o novo que merece.

    O lírio que nasce no campo, vive na lama também.

    Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo.

    E assim se passaram os dias.



sexta-feira, 19 de outubro de 2018

GLÓRIA, de VICTOR HERINGER



   

   
   Depois de ler umas 70 páginas do romance "Glória", de Victor Heringer, na nova edição da Cia das Letras, posso dizer que o Brasil perdeu este ano um grande escritor. Não um jovem escritor. Muito menos um escritor promissor. Mas um grande escritor. Desses que impressionam pela profusão criativa, de recursos, de conteúdos, de habilidades com a linguagem, de estabelecer conexões, interconexões, o escambau, como quem conta um causo mantendo sempre acesa a brasa sem aparentar esforço (assim como Gal canta). E graça com a desgraça, pois entre sarro e sisudez sabemos que abrir picadas na galharia espinhosa exige lâmina afiada e couraça rija. 

     O Brasil perdeu um grande escritor.
    
     Fica provado, assim, que Deus é, era, gago.


terça-feira, 25 de setembro de 2018

MEU IRMÃO



   Ontem, 24 de setembro, fez 49 anos que meu irmão Antonio Nelson morreu.
  Desde o domingo, 23, que tenho dele me lembrado. O acidente que o vitimou aconteceu na noite anterior à sua morte.
   Tudo na frase inicial me causa espanto: o tempo que passou, o irmão, o nome, a morte. 
    Quase cinco décadas... guardo uma lembrança de nós dois, juntos, no meio da noite "assistindo" pelas ondas do rádio ao milésimo gol de Pelé. Mas é falsa. Ele morreu dois meses antes daquele Vasco x Santos. Que partida terá sido a que assistimos, então? Talvez eu venha a me lembrar no "memento mori", ou dia desses, vendo uma foto de uma célula, lendo um artigo sobre o planeta Vulcano.
     O irmão que era meu ídolo e de quem só levei cascudo e taponas... Mas que fazia meu coração bater forte com cada estrepolia cometida, dentro e fora do campo de futebol. Um artista em estado bruto, a soltar chispas no deserto.
     O nome sobrevive na lápide e numa rua da cidade. Quase escrevi "cidade natal", mas meu irmão nasceu em São Paulo, no bairro da Lapa, acredito eu. O nome do pai e do avô materno. Um composto familiar que não resistiu a si mesmo.
     A morte, mais que inesperada, aos 15 anos incompletos, resultou sendo a partida que sempre desejou: "um dia vou-me embora daqui". Até hoje não foi, de verdade.


sábado, 15 de setembro de 2018

POESIA CHINESA, de ANDRÉ CARAMURU AUBERT




    O professor Teixeira se queixou de sua poesia não repercutir junto à crítica, que mal havia saído uma resenha em blogue, disse ele. Bem, não faço resenha, apenas comento os livros cuja leitura aprecio, não perco mais do meu tempo com os "outros". O professor Teixeira está bem ocupado, pelo que percebi, com sua nova amiga, a investigadora Carmen e com a antiga, ah, Simone, mas... ó ele aqui num blogue de novo! Grande Teixeira...!
      
     Bela ideia, essa, de trazer um curso sobre poesia chinesa como extrato vital de uma narrativa romanesca. Bela ideia, meu caro André Caramuru Aubert. A gente se senta e participa do curso com certo entusiasmo. EAD apimentada. A gente pensa que conhece poesia chinesa. Até tenho aqui uma coletânea e tal e coisa. Mas, ora, o Teixeira revira as dinastias, revela particularidades daquelas épocas em que poetar era fundamental para a carreira do servidor público. Pensem um pouco nisso. 

    E nos faz lembrar de Paterson, o filme, e de William Carlos Williams, por conseguinte. Vou assisti-lo hoje mais uma vez, só por causa do "Poesia Chinesa", vejam vocês. Sim, não uma poesia que cante o amor e a guerra, mas o vento, as curvas das montanhas, o sentido da ausência, do caminho, da chuva que cai, essas coisinhas de que a poesia verdadeiramente é feita. Sim, um versejar que viaja mundos, modifica-os e retorna para influenciar sua própria origem. Ou não, sabe-se lá. Mas que é bonito, é. E  muito.

    Claro que revelar esses meandros líricos para alunos e alunas da pós pode propiciar a um professor momentos de realização profissional e uma ou outra encrenca no território íntimo. Nosso grande Teixeira passa por isso, essas realizações, essas encrencas. E a crônica das intrigas acadêmicas, que o Autor oportunamente traz para o texto, confere ainda ao romance tensão e graça pelos episódios kafkianos, dantescos, temerários, e certo desgosto pelo alto grau de veracidade que concretiza. No que vai muito bem, diga-se sem receios com o policiamento do politicamente correto. 

     Perdi a conta das garrafas de vinho abertas e enxugadas nesse romance do Aubert, por isso abri uma para meu bom prazer, de um honesto chileno tinto Reserva do Loncomilla Valley, e para escrever estas linhas. Trair e ser traído, pelo quique da bola ou pelo silêncio de quem se ama. Ser um poema chinês, açoitado pelos cheiros marinhos ou das ruínas silvestres. Seguir a sombra, repetir os erros, como quem bate ponto no portão da fábrica toda madrugada, sei lá, permitir à vida que aconteça em plenitude nas entrelinhas. Pois nas linhas, ora, nas linhas correm os trens. 

Poesia chinesa, de André Caramuru Aubert, SESI-SP Editora, 2018.

      

sábado, 1 de setembro de 2018

O PAI DA MENINA MORTA, de TIAGO FERRO



    
   "Sobrou um fio de cabelo na fronha? Um pedaço de unha atrás da privada no chão gelado do banheiro? O hálito forte da manhã entre o teto do quarto e a cama de cima do beliche? Não há nada a fazer com os seis dentes de leite guardados na caixinha laranja que faz um barulho triste de chocalho órfão quando balançada."

   Não sei que perguntas faria, muito menos se escreveria um livro ou apenas um bilhete. Ser o pai de uma menina morta deve revirar, mesmo, uma pessoa pelo avesso; prosseguir, assim, vísceras expostas, a se despedaçar aos poucos, a se dessangrar tempo adentro pode resultar em desvarios e perdas irrecuperáveis. Tudo o mais torna-se crueldade pura a chicotear o lombo desse pai, da buzina dos carros na rua ao riso do casal na lanchonete. E, no entanto, o coração não para, a mente insiste em registrar com maior intensidade o que antes mal se vislumbrava.

   E como é preciso gritar, as mãos escrevem. E o leitor desse "O pai da menina morta", de Tiago Ferro, sente-se também açoitado pelo desvario da narrativa fractal, se posso assim dizer, revolvida por uma inescapável dor, dor que jamais encontra lenitivo, pois os golpes se sucedem impiedosos. Se nem mesmo os especialistas conseguem firmar a tempo um diagnóstico que permita a um coração seguir batendo, curvar-se não pode ser opção a um pai que perde sua filha.

   A morte de uma criança cancela uma sequência inteira de futuro, abre um vazio na história familiar, se a família resistir a essa perda. Ferro viveu sua tragédia pessoal, somos informados disso; talvez brote daí a amplitude e a profundidade que imprime a história que nos desvela, ou nos enovela feito um Pollock apunhalado. Confesso que não consegui me abrir às pinceladas de humor e a presença de Maradona e da Copa de 86 do/no texto. Sou pai de uma menina grande, estive preso ao  núcleo do romance, muito ocupado em manter regulares a TA e os batimentos cardíacos. Pancadão.

O pai da menina morta, Tiago Ferro, editora Todavia, SP, 2018

domingo, 26 de agosto de 2018

O PESO DO PÁSSARO MORTO, de ALINE BEI



    Aqui está um romance que inova na forma e preserva o que a literatura tem de mais poderoso: emoção e lirismo. Sua verdade conquista o leitor sem lançar mão de artifícios, discursos da moda. É pura literatura, sem concessões. Aline Bei sabe que "a cura não existe" e que a humanidade parece se especializar em produzir doenças. E tudo isso pesa demais, precisa ser sacudido, carece de benzeduras.
   
   Da infância à idade madura, tudo pode se tornar um rosário de perdas. Muda-se de escola, de bairro, de trabalho, de amor e a caixinha de guardados acumula apenas ausência e dor, "eu/ quase nunca usava plural fora de casa", diz a protagonista, e qualquer de nós também pode dizer. E dizer em parágrafos escorreitos ou em versos de métrica perfeita ou em versos livres, tanto faz, creio eu, face a "o peso do pássaro morto". O "fraseado" solto e leve, escolhido por Bei, confere ao texto a elasticidade própria do viver, esse golpear constante de atos inesperados e incompreendidos. 
   
   Viver é ser alvo permanente. Violência na escola, violência contra a mulher, distanciamento entre pais e filhos, solidão na velhice, temas da contemporaneidade compõem a trama do romance sem, em momento algum, assumir tom de libelo, acontecem pois foi assim que se deu a história da amiga de Carla, da mãe de Lucas, da mulher apaixonada por Vento, essa história com a qual Aline Bei inicia sua carreira de escritora. Uma carta atirada por baixo de nossa porta, posto que jardim não mais temos.
  
   Fechei o livro com aquela sensação maravilhosa de ter participado de uma experiência singular e emocionante. Não de querer mais, não, não. Pois lá estava tudo que a Autora teve a oferecer ali, principalmente as turvações. Um filho pode se tornar um completo estranho, sim. Um cão, animal estigmatizado por causar a perda e a dor mais profunda à protagonista, pode vir a ser, sim, um companheiro mais que amado. E o que é o amor, se não o combustível que permite viajar ao encontro do desconhecido?


O peso do pássaro morto, de Aline Bei, Editora Nós/SP, 2017