sexta-feira, 1 de novembro de 2019

ELENA FERRANTE E MÔNICA MENEZES EM SINTONIA


   Leio que o novo livro de Elena Ferrante será lançado ainda este ano na Itália. E que não tem editora nem previsão de data para lançamento no Brasil. "La vita bugiarda degli adulti", com tradução livre para o português "A vida mentirosa dos adultos", é o título de mais uma narrativa que a autora ambienta em Nápoles, sua terra natal, a despeito de ser desconhecida sua verdadeira identidade.
 
   Pois bem, o material de divulgação de "La vita bugiarda..." adianta a primeira frase do romance: 
   
   "Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse a minha mãe que eu era muito feia". 

   Ao ler a frase, de imediato a associei ao poema "Eleição", de Mônica Menezes, pela voz feminina acusadora de um golpe terrível, a pecha de ser feia, que tem origem em um ser mais que amado, um dos genitores; no caso do romance de Elena Ferrante, o pai, e no poema de Mônica Menezes, a mãe. Leiamos o poema em sua versão publicada no blog da autora, "Estranhamentos", no dia 08 de janeiro de 2011:

   ELEIÇÃO

   o anel, a flor, o poema
   tudo isso tão bonito
   todavia o que ecoa mesmo
   no fundo mais fundo da alma
   são as palavras-lâmina da mãe
   sussurradas no quarto ao lado
   naquela madrugada de setembro
   elegendo-a
   para sempre
   a menina mais feia da casa

   Um poema poderoso, sem dúvida. Toda vez que o leio, sinto as palavras rasgando o tecido dessa alma sensível, marcando-a eternamente com um epíteto naturalmente injusto; sinto um transbordo emocional inevitável e reconheço no poema a arte de uma poeta de superlativa qualidade, de  indiscutível talento para o burilamento e condução de temas preciosos à condição humana. Precisava fazer esse registro, pois fui alcançado por essa sincronia criativa de duas autoras que muito aprecio e recomendo. 

   Aguardemos, portanto, o lançamento do novo livro da Elena Ferrante. Enquanto isso, confiram mais poemas de Mônica Menezes no blog "Estranhamentos", listado aí ao lado, e no "Profundanças 3", coletânea virtual publicada pela Voo Audiovisual, que teve organização de Daniela Galdino, onde "Eleição" se faz presente, que pode ser baixado gratuitamento em http://vooaudiovisual.com.br/projects/profundancas3/


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

SÃO FRANCISCO: O SANTO, O RIO E O GÊNIO

 


    O rio é chamado de São Francisco porque sua foz foi encontrada pela expedição portuguesa que fazia o reconhecimento do litoral da nova terra, a mando d'El Rei de Portugal, no dia consagrado ao santo dos pobres. Américo Vespúcio era o cartógrafo, foi quem anotou lá a existência do grande rio, naquele 04 de outubro de 1501. 
       
    De lá até os dias que sofremos na pele, o rio São Francisco foi o Rio dos Currais por todo o período colonial e o rio da Integração Nacional já na República, quando os vapores navegavam entre Juazeiro e Pirapora. Atualmente, entulhado em vários trechos, já não serve à navegação, mas como reserva para geração de energia elétrica e irrigação das grandes lavouras. Sem falar no sangramento a que o submetem para abastecer os tais canais... bem, deixemos isso de lado. 

   Quero lembrar aqui algo que relatei no romance "Beira de rio, correnteza", páginas 134/6:

   Naquele mesmo porto, chamado de Boca da Barra, pouco mais de cem anos antes, um diplomata inglês em serviço no Brasil, Richard Francis Burton, Sir, desembarcava no começo de um dia ensolarado. Era um preciso e festejado dia Quatro de Outubro, aniversário de achamento do rio e data comemorativa do santo que o nomeia, coincidência que merece particular e futura apreciação.

   [...] Burton era figura ímpar. Geógrafo, cartógrafo, explorador, linguista, escritor, tradutor, diplomata e espião da Rainha da Inglaterra. Um renascentista e viajante inveterado. Em Bom Jardim, ocupou-se parte do dia em andanças pelo arraial e arredores, em conversações com o povo e a fazer anotações, fato em nada espantoso pois Burton dominava a língua, tendo passado temporada em Goa, então possessão portuguesa na Índia. Adotava como prática a imersão na cultura do povo que visitava. Comia de sua comida, bebia de sua bebida.

    As anotações que fez em Bom Jardim, nos idos de 1860, Burton reuniu no livro que publicou sob o título "Viagem de canoa de Sabará ao Atlântico", editado no Brasil pela Editora Itatiaia. Resumi no romance os registros mais importantes que Burton fez sobre Bom Jardim, nossa Ibotirama, quando ali passou um dia inteiro, o dia 04 de outubro, um dia como o de hoje. À noite daquele dia, Burton desceu até a altura do Barro Alto, onde acampou e promoveu batuques e farra com os nativos, sujeito sábio. Disse muita coisa sobre a carnaúba e sobre cada lugar que lhe mereceu passagem e atenção. 

    Mas de tudo ficou aquele 04 de Outubro, dia do Santo, dia do Rio, dia em que o genial inglês, primeiro tradutor para o ocidente das "Mil e uma noites", o homem que conduziu a expedição em busca da nascente do rio Nilo (vejam o filme "Nas montanhas da lua"), esse incrível cientista nos visitou e tão bons augúrios fez ao nosso futuro. Que se cumpram, e que não seja tarde para nós e para o rio.

    

terça-feira, 24 de setembro de 2019

24 DE SETEMBRO 1969, QUARTA-FEIRA, O DIA DA MORTE



   Como aquele dia chegou e amanheceu, não faço a menor ideia. Sei que ficamos no Posto de Saúde até altas horas e que retornamos para nossa casa a granel, em momentos variados, pelo escuro das ruas, pois em Ibotirama a luz elétrica, então, era a diesel e desligada às 22:30h. Talvez eu tenha dormido pesado, menino que era, assustado que estava, esgotado por cansaços diversos, talvez.

   Daquele começo de manhã de quarta-feira nada recordo que sirva a esta contação, a não ser de minha figura mirrada descendo a rua 1º de Janeiro a responder pessoas sobre o estado de saúde do meu irmão: "Na mesma, na mesma." E depois retornando ao Posto e depois em casa novamente. Era primavera lá fora e o mais gélido outono possuía o nº 3 da travessa Nossa Senhora da Guia. Sim, lembro do meu pai, em algum momento daquele dia, de barba por fazer e cenho absolutamente fechado, chapéu nas mãos, num silêncio insuperável. E da casa ficando atopetada de gente em providências arrepiantes.

   E foi de uma maneira seca feito um raio sobre nossa cabeça que, por volta das 11h, meu pai irrompeu em casa e disse: "Ele morreu".  A partir de então, minha mãe prostrou-se na cama do casal aos gritos e em pranto, ou em pranto entrecortado por gritos. Minha irmã e eu agarrados a ela, num chorar desmedido, tentávamos dar-lhe algum consolo, fazendo promessas de bom comportamento. Havia aquela câmara dolorosa que abrigava minha mãe e pelo resto da casa uma agitação de preparo do velório. Tudo pra mim era espantoso e inédito. E muito tempo depois reviveria aquele ambiente, naquela mesma casa, quando eu mesmo conduzi os preparativos para os velórios de meus pais. Aquela casa jamais me abandonará.

   Desse cenário, salto para a igreja lotada, a multidão ocupando o adro, escadarias e parte da praça, a cidade inteira ali presente. Vejo o caixão aberto, o rosto macerado de Nelsinho, os chumaços de algodão sobressaindo da pele morena e dos hematomas, as centenas de ginasianos fardados, e depois dos colegas mais próximos carregando o caixão, em revezamento, até o cemitério. Eu me espremia entre o povaréu, procurando ficar próximo do caixão, na longa jornada até o túmulo aberto. Lá, o caixão repousaria sobre o montículo de terra retirada, enquanto o sol nos abandonava de chofre, e o prefeito, meu padrinho Eládio Almeida Pinto, fazia o discurso de louvação do jovem estudante morto, do craque de futebol que o nosso futuro perdia, do filho muito amado de seus compadres. Lembro, lembro, lembro...

   Cinquenta absurdos anos se passaram. Vez em quando bate essa emoção retada e incontornável. Meus onze anos de então incorporaram esses cinquenta na marra. Toda sorte de tropelia me acometeu de lá pra cá e mesmo assim tenho resistido, pois resistir foi a parte que me coube. Saibam que, quando minha hora for construída e alcançada, quero depois virar cinzas. E se não for dar trabalho demais a quem ficar, que se me espalhem no meio do rio São Francisco, em frente ao cais de Bom Jardim, a Ibotirama falada. Adianto que só serve se for no meio do rio, onde não dá pé, que é sempre o melhor jeito de navegar.


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

23 DE SETEMBRO 1969, TERÇA-FEIRA, O DIA DO ACIDENTE


   Jantávamos cedo lá em casa. Uma mistura de sobras do almoço e café com leite, acompanhados de cuscuz, beiju, aipim, batata doce, essas iguarias da mesa sertaneja. Éramos beiradeiros que raramente comiam peixe: minha mãe passou mal, certa feita, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. E assim tangíamos o tempo, entre sol e lua, alimpando o terreiro de nossa exígua existência.

   Nelsinho possuía um porta-objetos fixado na parede de nosso quarto. Ele mesmo havia feito com sobras de madeira e pintado com uma paisagem de colina e coqueiros. Ali ficavam a escova de dentes, o desodorante e o creme pra cabelo Trim.  Foi de cabelo engomado e cheirando a Rastro que deixou nossa casa para ir até a praça da igreja encontrar-se com a namoradinha. Era pra ter sido assim, algo corriqueiro.

   Mas deu-se que topou com um caminhão de gado, guiado por um admirador, que lhe ofereceu carona. Nelsinho não quis subir na boleia. Por que não, se estava enfatiotado para encontro amoroso? Talvez por sua natureza aventureira, seu arrojo natural, Nelsinho galgou a carroceria e sentou-se no alto da gaiola, tomando vento... e o que mais? Não sabemos, ninguém veio nos dizer desses momentos que antecederam a queda. 

   E o caminhão subiu a rua 1º de Janeiro, contornou rente a lateral da igreja e bordejou o jardim. Por que Nelsinho não desceu ali, se o jardim era o seu destino? Talvez estivesse cedo e a namoradinha ainda não se fizesse presente, ignoramos. Fato é que ele seguiu trepado no alto da gaiola do caminhão de gado. O motorista bem que poderia ter contornado mais uma vez na outra extremidade da praça, retornando pelo lado oposto, mas não, decidiu seguir para a pracinha do cais. E para chegar na praça do cais era preciso passar pelo beco de Seo Artur Matias.

   E foi ali, na entrada do beco, que se deu o baque. Cruzava o beco a fiação elétrica, e os postes de madeira não eram tão altos como os atuais. O caminhão entrou no beco e quando sua carroceria já desaparecia das vistas de quem observasse de um banco da praça, um corpo caiu de lá de cima no chão duro. O fio mais baixo alcançou o pescoço de Nelsinho, derrubando-o do alto da gaiola. Gritos, o caminhão para, enquanto Nelsinho levantava-se do chão, sacudindo a areia da roupa. Dá pra ver as pessoas acudindo-o, ele recusando apoio, sentindo aos poucos as dores todas avançarem por seu corpo e juízo adentro.

   Mesmo nesse estado, Nelsinho foi a pé, por toda a praça da igreja, a maior da cidade, até o Posto de Saúde. Lá, já meio tonto, tiraram-lhe a roupa e lhe deram um banho de mangueira no fundo do prédio. E depois o levaram até um quarto, onde o médico da cidade veio lhe medicar. Enquanto isso, o povo corria até nossa casa para contar da tragédia seus detalhes mais crus e pesados. E o horror daquilo tudo suspendeu a arrumação do tempo, os gritos de minha mãe calaram o mundo, e fomos todos até o Posto de Saúde, onde uma multidão se aglomerava à porta.

   Lá estava o herói deitado numa cama de ferro, agitando-se de forma desordenada, o rosto inchado pelo hematoma da cotovelada no jogo de domingo e pela pancada no chão do beco, o pescoço marcado pelo estrago que o fio lhe fizera de um lado a outro, trechos sem pele, tudo já ficando arroxeado. Minha mãe jogou-se ao seu lado, e tudo era puro desespero e impotência. Não havia na cidade recurso hospitalar, a bê-erre estava em construção e o mundo civilizado quedava-se distante demais. 

   Também eu fiquei ao lado da cama e vi crescer em Nelsinho a agonia de um cérebro perturbado por traumatismos e hemorragias. Uma agonia que teve seu auge quando ele se agarrou ao pescoço de minha mãe, que se entregava sem reação, exigindo de meu pai e outras mãos certo esforço para separá-los. E depois disso, Nelsinho aquietou-se. Caiu no beco por volta das 19h e entrou em coma às 23h. 


domingo, 22 de setembro de 2019

21 DE SETEMBRO 1969, DOMINGO, O DIA DO JOGO



     Então a rapaziada organizou um selecionado local para uma partida no distrito da Canabrava do Boqueirão, sudeste do município, perto do riacho do Arame, de onde se pode desbandar para a serra do Chiqueiro Velho, dita Boa Esperança. Tudo isso lá no Bom Jardim, posto no mapa como Ibotirama.

     O ser humano havia pousado na lua, fazia pouco tempo, e Pelé estava muito perto de fazer seu milésimo gol em Andrada, já repisei o tema aqui anteriormente. No domingo que foi aquele 21 de setembro de 1969, seguiram em algazarra na carroceria de um caminhão, pela estrada da Veredinha, aqueles rapazes que amavam o futebol. Entre eles, Nelsinho, meu irmão, que precisaria chegar a dezembro para completar 15 anos, mas não conseguiu. Um menino de corpo atlético entre aqueles rapazes e homens-feitos.

     Todos reconheciam em Nelsinho um craque excepcional. Lembro que foi "obrigado" a jogar entre os adultos por não ser aceito mais nos babas entre os de sua idade. Várias vezes o vi brincar de "time de um jogador", enfrentando sozinho um grupo de adversários do mesmo tope. Corria e ria, driblava e ria, fazia gols e ria, divertia-se com a bola nos pés. Era um azougue também fora do campo, e isso lhe causou transtornos e o desejo manifesto de ir-se em bora logo daquele lugar.

     Quem perdeu tempo lendo meus livros já percebeu que Nelsinho se faz presente aqui e ali, por inevitável. Foi meu primeiro ídolo, meu irmão mais velho, de quem levei coques e taponas, a quem causei problemas por me destacar nos estudos, o contraponto indesejado, um grude incômodo ao furacão que se movia dentro dele. 

      Foi num domingo assim que Nelsinho foi acertado no campo de bola por uma cotovelada no olho esquerdo. Fez gol, jogou muito e voltou pra casa com um inchaço no rosto. Inchaço que se tornaria um pouco maior no dia seguinte. 

     Vejo no calendário de 1969 que, uma vez mais, fui driblado por minha memória. A sequência dos acontecimentos não se deu em domingo-segunda-terça, não. Houve a partida de futebol no domingo e a tal cotovelada. Na segunda-feira, dia 22, nada aconteceu de relevante. Talvez Nelsinho não tenha ido ao Colégio Cenecista, tenha ficado em casa, aplicando a lâmina fria de uma faca sobre o hematoma ocular, não me lembro. Mas houve esse dia neutro, um dia de bonança antes da tormenta que nos alcançaria a todos na terça-feira, dia 23 de setembro de 1969, exatos cinquenta anos atrás. Dias que não se cansam de apertar meu combalido coração.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

SANDRO ORNELLAS LANÇA "EM OBRAS" NO GOETHE INSTITUT







   Sandro Ornellas promove no próximo sábado, 21.09, das 16 às 20h, no Goethe Institut (Corredor da Vitória, Salvador/BA), o lançamento de seu quarto livro de poemas, "Em obras". Busca de algum sentido no mundo em que vivemos, olhar crítico sobre o nosso tempo e um modo singular de expressão poética, são alguns dos destaques de “Em obras”, que sai pela Editora Cousa/ES. 
   Ornellas traz uma proposta incomum para tardes de autógrafos: quem for ao evento, vai poder adquirir o livro pelo preço que achar mais justo. 
     No material de divulgação, o editor Saulo Ribeiro afirma que a poesia do autor agrada por unir dois elementos: o experimentalismo radical na forma, na linguagem, mas sem perder a seiva do poema. “Há um deleite visual na leitura do trabalho de Sandro que se completa com os sentidos que ele nos aguça, nos fazendo salivar e sangrar ao mesmo tempo”, afirma. Já em um trecho da orelha assinada por Kátia Borges, a poeta ressalta que no livro de Ornellas “o lirismo presente nos versos dispensa os equipamentos de segurança obrigatórios e convida à coreografia da desconstrução”.
   Trajetória do Autor: filho de pais baianos, Sandro Ornellas nasceu em Brasília e mora em Salvador desde os anos 1980. Estreou como um dos vencedores do extinto Prêmio Copene em 1998, com ”Simulações”, publicando ainda ”Trabalhos do Corpo” [2007] e ”Formas de cair e outros poemas” [2011]. Além de ter editado fanzines e folhetins poéticos, ele já gravou e produziu algumas experiências sonoras e videográficas. Ornellas também é professor do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.

domingo, 15 de setembro de 2019

AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO, de Mariana Enriquez


 

    É possível viver na bolha.
    Qualquer que seja.
    Só não sei como se realiza tamanha façanha.
    Talvez o fanático mais próximo explique bem como se faz.
    E são tantos hoje em dia...
    Mas eu prefiro manter distância das bolhas e bitolas.
    Pois amo a literatura.
    E na literatura a vida acontece plena.
    Sem meias verdades.
    Na literatura, claro, que se impõe como tal.
    Ando atormentado pelos contos de Palahniuk e de Enriquez.
    Ambos da escola das sombras e dos horrores humanos.
    Mundo absurdo, vida surreal, gente demoníaca, ódio e loucura nas ruas e nas casas.
    Pancadão... Palahniuk fica pra um depois.
    Trato aqui dos contos de As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez.
    Jornalista e professora, Enriquez narra sobre o que a sociedade procura esconder.
    O que quase ninguém quer tomar conhecimento.
    O que poucos acreditam que aconteça na casa ao lado.
    Casa e logradouro de qualquer lugar, mas calha ser na grande Buenos Aires.
    As criaturas da noite, crianças abandonadas, mulheres maltratadas, homens extemporâneos.
    Sim, há uma pegada feminista na abordagem dos temas, e por que não?
    Homens seguem espancando e matando mulheres a todo instante.
    Se um desses desaparecer, como se fazia na Ditadura Militar, que mal há?
    Se mulheres decidem se queimar antes de serem queimadas por eles, quem há de?
    Por que não se divertir enquanto se gerencia o horror dos abandonados?
    A que deus se sacrifica tantas crianças desovadas em terrenos baldios?
    A quem respeita a grande máfia dos miseráveis? Ou o que ela respeita?
    De tudo isso, há algo novo ou que não se tenha feito antes?
    É loucura o que provoca ou a loucura é resultado?
    Tem alguém aí que não experimenta uma depressão assim ou assada?
    De repente o rio Riachuelo supera o Tietê em miasmas e favelas.
    E acontece que o limbo produz vida em profusão.
    E que a miséria pode, sim, ignorar normas e rituais antigos.
    E a fome pode se alimentar de outras fomes.
    E o adorável ser humano assumir condições até então impensáveis.
    Deixar de ser, simplesmente. Ou ser diverso.
    Desaparecer nas ruas, nas rodovias, dentro de um quarto.
    Essas coisas que perdemos no sangue derramado.
    Nas ruínas e nos lixões.
    Que perdemos no fogo que nos arde, em que ardemos uns mais que outros.
    Quem zela por nós, afinal?
    Quem merece o nosso zelo?

 
   As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez, tradução de José Geraldo Couto, publicado pela editora Intrínseca, 2017.