sábado, 18 de agosto de 2018

REMORSOS PARA UM CORDEIRO BRANCO, REINA MARIA RODRIGUEZ




        Também fui menino 
             e fui menina

eu também fui menino e fui menina
e tive corpo e tive vida
andei dispersando-me entre outros corpos.
só cheguei a ser quem sou
quando soube que algo morria por dentro
onde morava em pequeno espaço do peito
um cordeirinho branco
que me lambia
aos gritos.


Remorsos para um cordeiro branco, de Reina Maria Rodriguez, em tradução de José Eduardo Degrazia, publicado pela Editora Penalux, 2018. Reina nasceu em 1952 em Cuba, onde vive "com seus gatos, seu piano, seus amigos e sua poesia", no dizer do tradutor e apresentador dessa antologia da poeta. Não li o livro, li alguns poemas que me foram passados por Mônica Menezes, por deles muito gostar. Aí está o primeiro que li. Vamos ao livro agora, todos os que lerem isto aqui.



domingo, 12 de agosto de 2018

MINOTAURO, BENJAMIN THAMMUZ





   Li em duas sentadas esse romance do Tammuz. Desses que a gente lamenta chegar ao fim. Mas dá um prazer que se alonga por muito tempo após o livro fechado. E que permanece em nós maturando reflexões sobre a capacidade humana de amar, de se enganar, de urdir armadilhas inescapáveis para si mesmo. Lembrei-me de "Museu da inocência", do Pamuk, narrativas que se aproximam pelo vetor obsessão amorosa. Ah, mas tão díspares...
   
   Um homem maduro julga ter encontrado a mulher por quem sempre sonhou encarnada numa adolescente de 17 anos. Está a trabalho num país estrangeiro. Por conta de sua profissão, logo se informa sobre a moça e passa a lhe enviar cartas. Sedutoras, amorosas, misteriosas. A moça cede ao jogo, propõe aproximações, sempre evitadas pelo homem, que ora some, ora ressurge em novas cartas. Daí, com o tempero do tempo, as situações dramáticas se sucedem.
   
   O homem é agente secreto israelense. Tammuz traz para o romance um resumo do que foram os embates entre árabes e judeus no território da Palestina e suas colônias por boa parte do século passado. Nada simplificado. Mais para caleidoscópio. Dois dos homens que a desejada moça, não por acaso chamada Téa, são produtos de somas genéticas e culturais do Oriente com o Ocidente, modelos de homens planetários, embora comprometidos com propósitos nacionais. Um possui vários passaportes diferentes, outro defende uma civilização mediterrânea, ambos falam várias línguas - seres ampliados em sua condição natural. 
   
  Agradou-me especialmente o destemor de Tammuz com a repetição, não só de informações mas de trechos integrais da narrativa. Um recurso da poesia utilizado na prosa, sem economias, que funciona com um peso dramático surpreendente. Talvez eu o leia novamente, antes de devolver o exemplar ao mestre Ruy Espinheira Filho, que mo emprestou.

   Trechos: "Então, ele aguardou o momento em que ela voltasse o perfil para a amiga e, quando isso aconteceu e ele viu os traços do rosto da garota, sua boca se abriu como se ele estivesse prestes a soltar um grito, que, contudo, ficou reprimido. Ou será que o grito escapou de sua boca? De qualquer forma, os passageiros não reagiram." [...] 
   "Não sei por que eu achava que, antes de encontrá-la, receberia algum aviso prévio. De todo modo, nunca imaginei que seria pego de surpresa. Mas fui. Eu a vi de repente, sentando-se na minha frente no ônibus. Não tive dificuldade nenhuma em reconhecê-la. Quando ela desceu, eu a segui.[...] A pele e a tez do seu rosto eram como eu os recordava: muito claros, como os de minha mãe, com um rosado que ficava mais profundo, sem qualquer marca e sem pressa, na direção das maçãs do rosto, tão gradualmente a ponto de não ser possível dizer onde a brancura acabava e onde começava o rosado. Mas sua boca era de um repentino rubro brilhante. E aqueles dentes. Meu Deus! Não é possível que tivessem sido criados apenas para mastigar comida. Se assim fosse, eu diria que não era necessário um esforço tão grande."

Minotauro, Benjamin Tammuz, tradução de Nancy Rozenchan, editora Rádio Londres, 2016, 2a. edição.

sábado, 4 de agosto de 2018

A PROMESSA, FRIEDRICH DÜRRENMATT




   [...] para ser sincero, nunca tive os romances policiais em tão alta conta e sinto muito que o senhor também os escreva. Perda de tempo. No entanto, o que o senhor disse em sua palestra de ontem valeu a pena; como os políticos fracassam de forma tão criminosa... [...] as pessoas esperam que ao menos a polícia saiba botar ordem no mundo, mesmo que eu não consiga imaginar esperança pior que essa. Infelizmente, em todas essas histórias policiais se perpetra ainda um engodo bem diferente, e não falo do fato de que seus criminosos sempre encontram a justiça, pois essas belas histórias são moralmente necessárias. Trata-se das mentiras que preservam o Estado, como o piedoso ditado de que o crime não compensa, ainda que seja preciso apenas dar uma olhada na sociedade para saber a verdade sobre esse dito popular, tudo isso eu deixo passar, mesmo que apenas por princípio profissional, pois cada público e cada contribuinte têm o direito a seus heróis e a seu final feliz, e nós, da polícia, somos obrigados a oferecer esse direito, como vocês, os escritores, também o são. Não, eu me irrito muito mais com a ação em seus romances. Aqui o engodo é tremendo demais, desavergonhado demais. Vocês constroem ações de um jeito lógico, e ele segue como um jogo de xadrez, aqui o criminoso, aqui a vítima, aqui o cúmplice, aqui o beneficiário; basta que o detetive conheça as regras e refaça os movimentos, logo ele terá posto o criminoso em xeque, ajudado a justiça a triunfar. Essa ficção me deixa furioso. Apenas em partes se lida com a realidade através da lógica.

   [...] Por sua vez, em seus romances o acaso não tem vez, e, se algo parece acaso, é ao mesmo tempo destino e coincidência; desde sempre, a verdade é jogada aos lobos por vocês, escritores, em detrimento de regras dramatúrgicas. Mandem essas regras para o inferno de uma vez. Um acontecimento não pode se desenvolver como um cálculo matemático pelo simples fato de de nós nunca conhecermos todos os fatores necessários, mas apenas alguns poucos, a maioria deles bem secundários. Também o acaso, o incalculável, o incomensurável tem um grande papel aí. Nossas leis baseiam-se apenas na probabilidade, na estatística, não na casualidade; aplicam-se apenas no geral, não no específico. O individual fica fora do cálculo. Nossos meios criminalísticos são insuficientes, e quanto mais nós os desenvolvemos, em princípio mais insuficientes serão. Vocês, da escrita, não se preocupam com isso. Não tentam lidar com uma realidade que vive escapando entre os dedos, mas montam um mundo que é administrável. Esse mundo talvez seja perfeito, possível, mas é uma mentira. É preciso deixar a perfeição para lá se quiserem continuar com as coisas, com a realidade, como é adequado para os homens, ou vão ficar aí sentados, ocupados com seus exercícios inúteis de estilo. 



   Aí está um trecho de "A Promessa", de Friedrich Dürrenmatt, escritor suiço, em edição da TAG Estação Liberdade, 2018. Infelizmente, não consegui capturar a imagem da capa do livro na internet, e não achei justo apresentar outra capa que não a dessa edição especial da TAG, entregue aos assinantes neste mês de agosto, fruto da curadoria do escritor Cristovão Tezza. Junto com "A Promessa" vem a novela "A Pane", que ainda não li.
   Aqui, o narrador, um comandante de polícia conta a um escritor uma investigação muito especial. A narrativa pode ser rotulada, para quem gosta disso, de antirromance policial. Para mim, foi uma deliciosa surpresa. Leitura altamente recomendável.

Imagem: FDürrenmatt, askART, capturado em Bol Fotos

domingo, 29 de julho de 2018

HOMO SAPIENS SEXUALIS, Marcelo Frazão e Paulo Villela




Quantos segredos
revela nosso avesso
o avesso do corpo
a carne
de dentro
em contato
com a carne
de fora
morna
úmida
profunda
em movimento.

*****

Você é
a qualidade
do sexo
que faz.

*****

Corpos, membros e salivas
não vem
com manual de instrução.

Talvez não seja bom
nem ruim
apenas a vida
afinal
que mistérios
são mais impressionantes
que os nossos
próprios mistérios.

*****

Sexo
é compromisso
assinado a lápis.



   Lendo "Homo Sapiens Sexualis", livro com poemas do Marcelo Frazão e desenhos do Paulo Villela, publicado pela Villa Olívia, em 2015, com recente lançamento multimídia em Salvador, a que, infelizmente, não pude comparecer. Extraí da leitura esses fragmentos ou poemas por completo do Frazão, que aqui vão desacompanhados dos excelentes desenhos do Villela por culpa de minhas deficiências tecnolábicas (?). 

   Recomendo o uso, ou melhor, a leitura nona do conjunto, e se quiserem ir mais adiante, fiquem à vontade. E mais não digo pois o livro traz dois textos muito bons assinados por Carlito Azevedo e Álvaro Sá, que muito melhor que eu sabem do labor literário contemporâneo e atrevido, como esse belo trabalho da dupla Frazão/Villela.

sábado, 16 de junho de 2018

COPA DO MUNDO 2018 - o rebuliço



   Durante a Copa do Mundo publicarei textos no blogue Papo de Arubinha (www.papodearubinha.blogspot.com). Apareçam por lá.

terça-feira, 5 de junho de 2018

FUTEBOL E AMIZADE



   Então é Natal, cantaria Simone, que já bateu bem uma bola de basquete. 
   Fato é que, então, é Copa do Mundo. E na Rússia, lá onde a razão perdeu as chuteiras.
   Mas, antes, dois espantos: a final da Champions League, uma partida vencida pela truculência de um zagueiro, que merecia encontrar um seu avatar pelo caminho. Sérgio Ramos ganhou o título para o Real, sozinho, ao tirar Salah da partida e o goleiro Karius de órbita. Um plano perfeito. O resto foi consequência natural, hoje sabemos. Sérgio Ramos, anotem esse nome para quando chegar a hora.
    O outro espanto sempre me vem quando alguém cobra um lateral. Por quantas vezes durante uma partida a cobrança de lateral altera seu rumo? Sim, todo chute e cabeceio também possuem esse condão, mas o lateral é tão trivial, tão inofensivo, apenas uma reposição de bola em jogo, mas aí o sujeito resolve fazer algo diferente... e a partida toma um rumo inesperado. Acho que é trauma daquele gol do Botafogo contra o Vasco.
    Mas, então é Copa do Mundo. E lá vamos nós, meio sem graça, quase por obrigação.
     Thiago Silva como titular, pra mim, equivale a túmulo aberto, pago, com lápide aguardando a data precisa. "Ele quase morreu de tuberculose na Rússia; quem sabe, essa é chance de redenção", garanto que ouvi esse argumento estapafúrdio. No mais, sinto cheiro de tudo no ar. Vou torcer para a Islândia e pelo Egito, se Salah jogar. Quando o Brasil entrar em campo, sei que não tenho como fugir: vou ficar puto com o ramerrão dos passes infindáveis, com os escorregões da defesa e com a chicana do ataque. Ou seja, vou me retar com um tal cai-cai.
    Aí vem um amigo e me envia um video em que uma moça tenta evangelizar um pessoal de amarelinha sobre a situação do país etc etc etc e que assim não dá para torcer pela seleção etc etc etc. Rapaz, querem reviver o clima da Copa de 70. Torcer pela seleção é não se importar com a situação do país, quem torce é alienado etc etc etc. Bem, a amizade entrou aqui para dizer, por fim, que a gente tem que se esforçar pra respirar, mesmo sem problemas respiratórios. De qualquer forma, vou ver sozinho as primeiras semanas da Copa, ao que tudo indica.
     Claro que eu não lembrei ao amigo evangelizador que na Copa de 14, ano de reeleição da presidenta, no Brasil efervescente, o tal video teria sido obra de emplumados. Não, não lembrei, melhor a amizade.

domingo, 13 de maio de 2018

NO CAMINHO DOS SESSENTA IV


Ela de mim tomou conta
ali pelos meus dezessete.
Parece conto de onça,
causo de sete vez sete:
quando a pontada senti,
labutava num jardim,
pensei: é só um teste.

Tanto perfume sentia,
vivia a embriaguez
de amor e de poesia;
cada noite por sua vez
tanto prazer reunia,
que meu peito aquecido
quase nada percebia

Isso que a danada me fez,
quieta e mansamente,
consumiu lentamente
minha doce altivez,
retorceu a minha mente
entre ofícios e versos,
tornou-me doente de vez.

Aprendi então aos poucos
que se pode viver assim:
de dia, fugir do pipoco,
de noite, estourar festim;
de tarde, amar sem troco;
a noite pelo dia trocar,
pra de tarde amar de novo

De mim ela tomou conta,
pois conta não faço dela,
quando amigos me cercam
de amizade sem cancela,
a vida parece azulada,
uma vereda sombreada,
arroz doce na tigela.

Chego  aos sessenta assim
como quem sai dos vinte: 
irresponsavelmente sério,
hilariamente chatin',
preocupadamente sonso,
surdo, broco e manco,
crônico mas longe do fim.