domingo, 4 de dezembro de 2016

DESPEDIDA, FERREIRA GULLAR (1930-2016)



DESPEDIDA

Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
                 raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.

Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos, tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
            para que eu fique
            para que eu fique.

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.



Poema extraído de "Barulhos" (1980-1987), em Toda Poesia, 21a. edição, revista e ampliada, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 2015

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

LANÇAMENTO NA CONFRARIA DO FRANÇA, SÁBADO, A PARTIR DAS 11:30H



Um livro fundador

Fernando Bonassi*

Evento estético e político fundamental das últimas décadas em nosso país foi a entrada da periferia das grandes cidades na paisagem da cultura. Hoje não se discute a força que tem esse território, mas durante muito tempo esta espécie de “não-lugar” permanecia sem voz que a expressasse... Até aparecer Sabor de química, em 1976; nele se operavam maravilhas: primeiro, o talento do autor ao dar forma artística a uma realidade que ainda se processava. Vivia-se o fluxo migratório dos anos 70, e os brasileiros que chegavam para construir a “cidade grande”, terminavam pelos arrabaldes baratos, como estoque de mão de obra da indústria. Roniwalter Jatobá decidiu olhar para isso, e o espanto em seu texto era a ousadia de penetrar o mais profundo da alma “dessa escória”, traduzir a angústia e a loucura da miséria por dentro, e não apenas como elemento sociológico de um plano intelectual. Havia também a justaposição das duas partes do livro, com histórias do sertão e da cidade: ao acompanhar o deslocamento de um personagem mais típico de uma certa cultura rural, Roniwalter registrava, para além de seu próprio campo e tempo histórico, a transição do regional para o urbano, que acontecia no imaginário brasileiro.
Em 1978 vem as Crônicas da vida operária, em que o inferno do trabalho se junta à atmosfera da ditadura e produzem um poderoso painel de nossa experiência recente. São narrativas sobre a inutilidade do esforço, a destruição dos laços afetivos e a mutilação dos corpos pelas necessidades materiais, o homem virado em número e valor de produção; tramas sombrias que, à luz do que vivemos, permanecem atuais.
Tiziu, novela na terceira parte deste livro, apareceu em 1994 e conclui o projeto literário. Na trajetória de Agostinho, que volta derrotado à sua cidade de origem, ecoam todas as vozes de Roniwalter -- as que têm nomes e as anônimas, as que gritam seu desespero e as que contemplam o fracasso em silêncio -- todas elas tecidas com enorme vitalidade poética.
O leitor tem nas mãos um livro fundador daquilo que somos e fizemos de nós mesmos.


*Fernando Bonassi é escritor e roteirista

sábado, 19 de novembro de 2016

O CHÃO QUE EM MIM SE MOVE - LEITURAS 1



 (...) Este - O chão que em mim se move -, não sei por qual razão exatamente, evocou-me imediatamente um desenho ou uma espécie de caricatura, sei lá, que conheço desde menino de Galileu Galilei com a inscrição "...eppur si muove".

Bom, o resto é o que se segue: li o livro de duas sentadas e reputo ao mesmo a categoria de literatura de excelente qualidade. Com ele você já exibe um estilo próprio, maturidade e, por fim, uma escrita gostosa, simples, atemporal e que revela por trás dessa suposta simplicidade bons e sólidos conhecimentos literários, aliás, se fosse possível comparar nesse sentido lembra a obra musical de Elomar Figueira - erudição, no melhor sentido da palavra, com singeleza. 

Na minha humilde e ignara opinião, o seu equilibrado tempero sabe a: uma chiringada de Guimarães Rosa aqui, outra de Graciliano Ramos ali, e mais uma outra de Anton Chekov acolá, isto tudo sem prejuízo do conteúdo e da qualidade, aliás, muito em benefício de ambos.

Os contos Joana e suas cercas e Corpo de mãe são realmente impagáveis e definem bem a qualidade de sua obra.

Ernesto Lédo

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

ÂNGELA VILMA E ANA MARTINS MARQUES


   PARA FERNANDO PESSOA

   Dizem que não finjo, não minto
   quando escrevo. Dizem que nada
   é ficção. E buscam dados
   biográficos
   de minha imaginação.
   Ah, como uso o coração!

   Como uso o coração!
   Talvez por isso vejam a verdade
   no que escrevo. E quando digo
   que minto, há uma derrisão:
   penso que acreditam, ou sei não:
   se desviam em risos, ou
   nunca mais em nada acreditam
   ou acreditarão.

   Como uso o coração!
   Escrevo o que sinto, mentindo.
   Vivendo, não.

   (Ângela Vilma)


   FACA

   Como chamar faca
   tanto aquela
   enfiada na fruta
   quanto aquela
   enfiada no peito?
   como chamar fruta
   tanto o sol polpudo da laranja
   quanto a lua doce da lichia?
   como chamar peito
   tanto o peso oco do meu coração
   quanto o peso oco do seu coração?

   (Ana Martins Marques)

   Poemas extraídos dos livros "A Solidão mais funda", de Ângela Vilma (Mondrongo, 2016) e "O livro das    semelhanças", de Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 2015). As poetas participaram de mesa intitulada "Exílios interiores", na Flica 2016, no sábado passado, com mediação da professora de literatura e poeta Mônica Menezes.

 

sábado, 8 de outubro de 2016

KRISHNAMURTI GOES DOS ANJOS E O CHÃO...

CHÃO DE AREIA MOVEDIÇA
Por Krishnamurti Góes dos Anjos(*)
            Após chegarmos a última página do livro de contos “O chão que em mim se move” do escritor Carlos Barbosa (Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2016, 128p.) surge-nos à mente a imagem de areias movediças, aquele fenômeno natural no qual a areia, por estar embebida em água, não oferece resistência a animais, pessoas ou objetos e traga-os para a morte. Antes de uma explicação do porque dessa metáfora de areia movediça, cumpre situar a literatura do autor.
            Fiel à ambiência que o modelou, Carlos Barbosa (que também é romancista), não sonega suas raízes nordestinas, apesar do pendor para a análise psicossocial. Tem em relação a sua região (centro-oeste) da Bahia um repertório de lembranças, vivências e imagens de infância, que aparecem nos contos e revelam um prosador de temperamento e origens regionais. Como regional, se entenda também, uma literatura que, por suas amplas inquirições existenciais, transborda do espaço ficcional sugerido pela geografia em que se localiza. Parte do localismo para o universal, empreende a sondagem da alma humana através da auscultação de uma determinada zona geográfica.
            Suas narrativas são estruturadas com extrema simplicidade, numa prosa que tem o colorido brasileiro, e recorre à oralidade, seja captando falares, seja reproduzindo ditos e máximas populares que traduzem a sabedoria dos humildes. Da fusão das personagens com a terra, dos homens com o cenário, sai o drama que espelha a condição humana e, em assim sendo, legitima-se como literatura da mais alta qualidade. As histórias curtas admitem, mais de um ponto de vista, mais de um ângulo de enfoque. E o ângulo que cumpre analisar, e que nos remete à metáfora da areia movediça, é aquele que fecha um círculo onde a realidade se apoia na História, passa pelo contemporâneo dos sertões esquecidos desse imenso Brasil, e projeta-se em perspectiva de futuro nefasto em um entrelaçamento de causa e efeito. Três contos ajudam-nos a explicar:
            Em “O interrogatório”, o velho sertanejo Silvino, homem rude mas trabalhador e honesto, que dedicou toda sua vida a cuidar da família e que aprendera com o pai “tudo que é trabalho de homem do campo”, enquanto espera o delegado que o interrogará, preocupa-se com a sorte de seus filhos também detidos. Vejamos o registro narrativo: “No tempo de Horácio de Matos coisa assim não sucederia. Ele, Silvino, iria ter com Horácio em Brotas, ou na trincheira que estivesse, e diria, meus filhos sumiram faz três dias e não sei do destino deles, pois na roça ocupado estava. Horácio lhe diria para ficar despreocupado, que tomaria as providências, que gente dele não passava aperto, e chamaria um de seus homens e determinaria investigações”. Mais adiante ficamos sabendo que o coronel Horácio de Matos (personagem que realmente existiu), em verdade não pertenceu a sua geração, mas a de seu pai – vejam a força do mito a atravessar gerações. Horácio de Matos (1882-1931) foi um poderoso político e coronel do sertão baiano (o uso de forças particulares nos sertões se explica pela falta do Estado, onde, especialmente pelas grandes distâncias, não alcançavam as forças regulares e estruturas estatais. O jagunço e o número dele à disposição dos chefes políticos era símbolo de status quo). O mando deste coronel chegou a constituir governo paralelo ao da capital. Pois bem; mais adiante ficamos estarrecidos ao nos deparamos com o pensamento de Silvino: “pelo menos um bom advogado vamos ter, eu e os meninos. A plantação perdida, as encomendas desatendidas. Será que já queimaram tudo ou vão fazer como da outra feita: encher caminhão com os pés de maconha, botar a gente em cima, algemados, cano de escopeta no cangote, e desfilar pelas ruas pra exemplar?!”
            O conto “Queimada”, inicia com: “A suspeita era a de que havia armas escondidas na serra da Cristalina. Armas que os subversivos cuidaram de trazer e guardar para os inevitáveis enfrentamentos com os milicos da ditadura, mas que na precisa hora, ficaram para trás, na fuga que encetaram no ano de 1971” Esta introdução acaba por nos apresentar a outro homem velho, alquebrado, que caminha na serra da Cristalina a procura de algo. A narrativa nos induz a pensar que se trata de alguém que, de alguma forma, participou das guerrilhas contra a ditadura militar, pensamento que o trecho “veio-lhe à mente a sucessão de torturas sofridas, o pau-de-arara, o corpo esfolado, as unhas...”, confirmam. O homem não procura armas, mas encontra uma arca onde estão guardadas lembranças daquele tempo de resistência. Em dado momento, pensa: “… é melhor caminhar por essas picadas até cansar o juízo, até não lembrar mais que em outros tempos meus filhos por ela cruzaram, alegres e esperançosos, até não me lembrar mais o motivo de assim proceder, até que restem entregues ao mato que as cobrirá por falta de pés e patas que as definam e as mantenham desimpedidas. E tudo se acabará porque nada pôde ser modificado quando foi tempo de fazê-lo”.
            E finalmente, o conto “Corpo de pai”, onde transparece o lirismo de uma ficção “fantástica”. Ali as consequências ficcionais são múltiplas, há como que um redimensionamento do tema (o homem sertanejo explorado), surge uma alegoria que não fica explicada. Somente o absurdo posto. Não fica explicada, vale dizer, porque não se explica a inércia do não querer/poder mudar o próprio destino. O personagem Lívio volta seu pensamento para o corpo do pai morto. “O corpo do pai no caixão de papelão grosso, à sua frente, era mais que uma imagem dolorosa. O governo corporativo havia autorizado a cerimônia pública na antiga catedral, pois o pai de Lívio era um dos 'remanescentes', como eram chamados os que não deviam obrigações a waterCo, companhia japonesa concessionária do trecho do rio em Bom Jardim IV”. Aí temos o círculo fechado de que falamos mais acima!
            Dessa forma, seja desnudando o fragor de conflitos íntimos quanto à solidariedade que negamos ao próximo como acontece no excepcional “O encontro”, ou nos desajustes da personalidade acuada ante as impossibilidades e desilusões do meio, de que é exemplo pujante o conto “Vertigem”, ou ainda a exposição de uma consciência que dá seu testemunho de uma dor que é coletiva (tenha-se ou não consciência disto), como ocorre no já citado “Queimada”, a preocupação básica de Carlos Barbosa com a criatura é permanente. A base humana é seu lastro. Não importa precisamente o meio rude do sertão em suas possibilidades descritivas, mas sim, as consequências que a completa falta de perspectivas de mudança acarreta no coração sertanejo, ainda hoje a viver uma miserável condição social. Este o sentido do humano nas diversas imagens do homem que o autor dá cor, dimensão e vida.
            O chão que se move no interior do Brasil é o das areias movediças que não permitem, e continuam a negar a incontáveis gerações, o exercício simples de uma cidadania. Alerta veemente também a lembrar, aquilo que Millôr Fernandes sentenciou: O Brasil tem um enorme passado pela frente.

(*) Krishnamurti Góes dos Anjos. Escritor, Pesquisador. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contos e Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 22 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho –Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional - Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

EDITORA PENALUX, O CHÃO QUE EM MIM SE MOVE


   "O chão que em mim se move", cuja capa está posta acima, pode ser adquirido no site da Editora Penalux, no endereço    www.editorapenalux.com.br ou pelo link: http://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=458. O exemplar custa R$ 34,00. 

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