segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

HERBERTO HELDER, ÚLTIMOS VERSOS



[...]
se vendessem o gás a retalho o comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser de minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte, 
porque já não me fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como dizia o outro: a minha vida por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

   Aí está a parte final do último poema de "A morte sem mestre", de Herberto Helder, poeta português, morto em 2015 aos 84 anos de idade. Extraídos do volume "Poemas completos", publicado no Brasil pela editora Tinta da China como parte da coleção Grandes Escritores Portugueses, em 2016.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

AS GUERRAS DE SHAKESPEARE, RON ROSENBAUM


   "[...] a maioria das pessoas instruídas com quem conversei fora da academia não sabia que talvez haja dois Rei Lear, muito menos três Hamlet. E que as versões divergentes levantam questões sérias para todos os que se importam com essas peças. Essa é apenas uma dentre várias questões, debates, argumentos, guerras seculares, urgentes e genuinamente importantes que vêm acontecendo e que merecem atenção, caso achemos que vale a pena se interessar por Shakespeare. Até mesmo a razão de acharmos que vale a pena se interessar pela obra de Shakespeare é tema de um debate interessante. Devido a seus 'temas'? Devido à beleza e ao prazer da linguagem? Ou será que beleza e prazer não são mais categorias legítimas de valor? E o que torna diferentes, se é que são diferentes, a beleza e o prazer 'shakespearianos'?"

   Ron Rosenbaum é professor de jornalismo na Universidade Columbia (EUA), é formado em literatura inglesa por Yale e colaborador do New York Times Magazine. Publicou alguns livros bem recebidos por público e crítica, entre eles Para entender Hitler. Foram anos de pesquisa e entrevistas para escrever As guerras de Shakespeare.  As melhores passagens são aquelas ligadas ao diretor de teatro e cinema Peter Brook, a quem o livro é dedicado. Leiam a seguir uma de suas declarações:

   "- Um certo nível de escritor [...] usa os personagens como seus porta-vozes. O nível seguinte usa seres humanos, mas apenas aspectos deles, sua humanidade não é completa; outro nível pode dar vida rápida, mas só a um pequeno elenco, a pequenos papéis. Mas a noção de Shakespeare de que cada personagem tem facetas infinitas, de modo que podemos assistir a ele ano após ano, podemos dar interpretações novas a qualquer personagem e eles são sempre baseados em verdades que estão lá... Iso é inigualável, e acho que é inseparável de Shakespeare ser tão anônimo. Uma coisa que todos podemos concordar a seu respeito é que é o menos conhecido de todos os grandes escritores"

   Mais um pouquinho de Brook: "- Ele (Shakespeare) consegue entreouvir e notar dois tipos de coisa: toda a vida e todo o barulho que se despeja com grande entusiasmo. Mas, ao mesmo tempo, muito embora seja um homem bastante prático, consegue evocar, com palavras, mundos distantes, histórias estranhas, ideias espantosas, e elaborá-los e vinculá-los numa insinuação de significado na sociedade, com relação aos deuses, uma sensação de realidade cósmica... tudo isso pulsava em sua mente, todos esses níveis ao mesmo tempo."

   Leitura apaixonante. Sei que depois dela já repassei longos trechos de peças, cuja leitura, havia desprezado anteriormente, como Ricardo III, por exemplo. O problema é a tradução, que nos afasta do ritmo shakespeariano... bem, isso lá é outra imensa coisa. Conhecer a obra de Shakespeare já é muito e necessário e maravilhoso.



As guerras de Shakespeare, de Ron Rosenbaum, publicado pela Editora Record, 2001, em tradução de Maria Beatriz de Medina, 713 pgs.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

SVETLANA ALEKSIÉVITCH, O FIM DO HOMEM SOVIÉTICO


Ainda não li o mais recente livro da Svetlana lançado pela Companhia das Letras. Mas li um trecho da, digamos, introdução em uma livraria. Fotografei e agora divido com vocês.

"Barricadas são um lugar perigoso para um artista. Uma armadilha. Lá, a visão fica estragada, as pupilas se fecham, o mundo perde as cores. Lá, o mundo torna-se preto e branco. De lá, já não se distingue um ser humano, você só vê um ponto preto: um alvo."

Diagnóstico preciso do que assistimos no Brasil, nos últimos anos. E Svetlana fala da Rússia, antiga e recente. Parece que lutamos para ser quem ninguém mais almeja ser, pelo menos em lugares onde viceje um pouco de sanidade.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A FILHA PERDIDA, ELENA FERRANTE




   Todos os livros que li de Elena Ferrante são narrativas na primeira pessoa. A série napolitana é conduzida pela voz de Lenu, também Elena. Dias de abandono e a A filha perdida são conduzidas pelas vozes das mulheres protagonistas. De igual forma, Uma noite na praia, livro infantil, nos é contada pela boneca abandonada. O que isso quer dizer, por certo, críticos mundo afora já destrincharam, rotularam e carimbaram. De minha parte, vejo apenas uma predileção da autora, até o momento, por essa forma de contar histórias. Ou, simplesmente, porque as histórias "pediram" para vir a lume por essas vozes específicas. E fim. 

   A filha perdida traz uma professora de literatura que vai sozinha à praia no período das férias de verão. Aluga um apartamento numa cidadezinha da costa jônica e passa a frequentar certa faixa de praia em que pontua uma família napolitana. Férias na praia, família napolitana, um moço chamado Gino, uma jovem mãe casada com um homem mais velho, uma menina chamada Elena e sua inseparável boneca, universo bem conhecido dos leitores de Ferrante. Nada de importante parece acontecer e fatos terríveis se preparam. A professora tem 48 anos, mas aparenta ser mais jovem. Tem duas filhas adultas que moram com o pai no Canadá. E ela não está sozinha de férias na praia impunemente. Ferrante tem uma qualidade extraordinária como escritora: não deixa nenhuma convenção social, e ousaria dizer preferência pessoal, contaminar seu texto. Devem dizer por aí que ela é feminista, mas não sinto isso nos seus livros, embora a condição feminina esteja sempre no centro da trama A crueza dos fatos, sua verdade mais profunda e oculta, as possibilidades da ação benéfica ou maléfica são perseguidas e expostas por meio de um dos melhores textos que tive o prazer de ler nos dois últimos anos.

   A condição de mulher madura, culta, experiente e sábia não afasta da professora universitária a arrogância, a vaidade intelectual, o egoísmo desnaturado, a carência, a solidão, um ou outro trauma de infância. Diariamente, segue os movimentos da família napolitana e os contrapõe, aqui e ali, com a sua história pessoal. Aos poucos se envolve com alguns deles, com o salva-vidas e com o corretor que lhe arrumou o apartamento. O texto então realiza o que a melhor literatura faz com o leitor: seduz, transporta, envolve, excita, angustia, assusta, encanta. Aquela família napolitana viverá momentos de desespero e tensão em suas férias e a professora voltará mais cedo para casa, depois de perder o afeto que conquistou, naqueles dias, da pior maneira possível. Seguir um impulso pode resultar em abismo incontornável.

   Depois de Alessandro Baricco, vem da Itália mais um talento literário inquestionável, de quem devemos ler tudo que escrever, seja lá quem for Elena Ferrante.  

domingo, 4 de dezembro de 2016

DESPEDIDA, FERREIRA GULLAR (1930-2016)



DESPEDIDA

Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
                 raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.

Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos, tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
            para que eu fique
            para que eu fique.

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.



Poema extraído de "Barulhos" (1980-1987), em Toda Poesia, 21a. edição, revista e ampliada, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 2015

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

LANÇAMENTO NA CONFRARIA DO FRANÇA, SÁBADO, A PARTIR DAS 11:30H



Um livro fundador

Fernando Bonassi*

Evento estético e político fundamental das últimas décadas em nosso país foi a entrada da periferia das grandes cidades na paisagem da cultura. Hoje não se discute a força que tem esse território, mas durante muito tempo esta espécie de “não-lugar” permanecia sem voz que a expressasse... Até aparecer Sabor de química, em 1976; nele se operavam maravilhas: primeiro, o talento do autor ao dar forma artística a uma realidade que ainda se processava. Vivia-se o fluxo migratório dos anos 70, e os brasileiros que chegavam para construir a “cidade grande”, terminavam pelos arrabaldes baratos, como estoque de mão de obra da indústria. Roniwalter Jatobá decidiu olhar para isso, e o espanto em seu texto era a ousadia de penetrar o mais profundo da alma “dessa escória”, traduzir a angústia e a loucura da miséria por dentro, e não apenas como elemento sociológico de um plano intelectual. Havia também a justaposição das duas partes do livro, com histórias do sertão e da cidade: ao acompanhar o deslocamento de um personagem mais típico de uma certa cultura rural, Roniwalter registrava, para além de seu próprio campo e tempo histórico, a transição do regional para o urbano, que acontecia no imaginário brasileiro.
Em 1978 vem as Crônicas da vida operária, em que o inferno do trabalho se junta à atmosfera da ditadura e produzem um poderoso painel de nossa experiência recente. São narrativas sobre a inutilidade do esforço, a destruição dos laços afetivos e a mutilação dos corpos pelas necessidades materiais, o homem virado em número e valor de produção; tramas sombrias que, à luz do que vivemos, permanecem atuais.
Tiziu, novela na terceira parte deste livro, apareceu em 1994 e conclui o projeto literário. Na trajetória de Agostinho, que volta derrotado à sua cidade de origem, ecoam todas as vozes de Roniwalter -- as que têm nomes e as anônimas, as que gritam seu desespero e as que contemplam o fracasso em silêncio -- todas elas tecidas com enorme vitalidade poética.
O leitor tem nas mãos um livro fundador daquilo que somos e fizemos de nós mesmos.


*Fernando Bonassi é escritor e roteirista