sábado, 16 de junho de 2018

COPA DO MUNDO 2018 - o rebuliço



   Durante a Copa do Mundo publicarei textos no blogue Papo de Arubinha (www.papodearubinha.blogspot.com). Apareçam por lá.

terça-feira, 5 de junho de 2018

FUTEBOL E AMIZADE



   Então é Natal, cantaria Simone, que já bateu bem uma bola de basquete. 
   Fato é que, então, é Copa do Mundo. E na Rússia, lá onde a razão perdeu as chuteiras.
   Mas, antes, dois espantos: a final da Champions League, uma partida vencida pela truculência de um zagueiro, que merecia encontrar um seu avatar pelo caminho. Sérgio Ramos ganhou o título para o Real, sozinho, ao tirar Salah da partida e o goleiro Karius de órbita. Um plano perfeito. O resto foi consequência natural, hoje sabemos. Sérgio Ramos, anotem esse nome para quando chegar a hora.
    O outro espanto sempre me vem quando alguém cobra um lateral. Por quantas vezes durante uma partida a cobrança de lateral altera seu rumo? Sim, todo chute e cabeceio também possuem esse condão, mas o lateral é tão trivial, tão inofensivo, apenas uma reposição de bola em jogo, mas aí o sujeito resolve fazer algo diferente... e a partida toma um rumo inesperado. Acho que é trauma daquele gol do Botafogo contra o Vasco.
    Mas, então é Copa do Mundo. E lá vamos nós, meio sem graça, quase por obrigação.
     Thiago Silva como titular, pra mim, equivale a túmulo aberto, pago, com lápide aguardando a data precisa. "Ele quase morreu de tuberculose na Rússia; quem sabe, essa é chance de redenção", garanto que ouvi esse argumento estapafúrdio. No mais, sinto cheiro de tudo no ar. Vou torcer para a Islândia e pelo Egito, se Salah jogar. Quando o Brasil entrar em campo, sei que não tenho como fugir: vou ficar puto com o ramerrão dos passes infindáveis, com os escorregões da defesa e com a chicana do ataque. Ou seja, vou me retar com um tal cai-cai.
    Aí vem um amigo e me envia um video em que uma moça tenta evangelizar um pessoal de amarelinha sobre a situação do país etc etc etc e que assim não dá para torcer pela seleção etc etc etc. Rapaz, querem reviver o clima da Copa de 70. Torcer pela seleção é não se importar com a situação do país, quem torce é alienado etc etc etc. Bem, a amizade entrou aqui para dizer, por fim, que a gente tem que se esforçar pra respirar, mesmo sem problemas respiratórios. De qualquer forma, vou ver sozinho as primeiras semanas da Copa, ao que tudo indica.
     Claro que eu não lembrei ao amigo evangelizador que na Copa de 14, ano de reeleição da presidenta, no Brasil efervescente, o tal video teria sido obra de emplumados. Não, não lembrei, melhor a amizade.

domingo, 13 de maio de 2018

NO CAMINHO DOS SESSENTA IV


Ela de mim tomou conta
ali pelos meus dezessete.
Parece conto de onça,
causo de sete vez sete:
quando a pontada senti,
labutava num jardim,
pensei: é só um teste.

Tanto perfume sentia,
vivia a embriaguez
de amor e de poesia;
cada noite por sua vez
tanto prazer reunia,
que meu peito aquecido
quase nada percebia

Isso que a danada me fez,
quieta e mansamente,
consumiu lentamente
minha doce altivez,
retorceu a minha mente
entre ofícios e versos,
tornou-me doente de vez.

Aprendi então aos poucos
que se pode viver assim:
de dia, fugir do pipoco,
de noite, estourar festim;
de tarde, amar sem troco;
a noite pelo dia trocar,
pra de tarde amar de novo

De mim ela tomou conta,
pois conta não faço dela,
quando amigos me cercam
de amizade sem cancela,
a vida parece azulada,
uma vereda sombreada,
arroz doce na tigela.

Chego  aos sessenta assim
como quem sai dos vinte: 
irresponsavelmente sério,
hilariamente chatin',
preocupadamente sonso,
surdo, broco e manco,
crônico mas longe do fim. 


terça-feira, 1 de maio de 2018

SETE A UM, LANÇAMENTO 05 DE MAIO NO ICBA



 
   Quatro anos depois da humilhante derrota da Seleção Brasileira, por 7 x 1, diante da Alemanha, nas semifinais da Copa do Mundo de 2014, em pleno Mineirão, em Belo Horizonte, sete contistas brasileiros e um alemão entraram em campo para revisitar aquele jogo histórico. O resultado é a coletânea Sete a um, que serã lançada no próximo sábado (dia 05), das 15 às 19:30h, na Biblioteca do Instituto Goethe, no começo do Corredor da Vitória, em Salvador. Replay de um jogo inesquecível? Muito mais que isso, já que cada autor reconta a partida do seu jeito, e a ficção permite distorcer e até modificar a realidade.

   Pelo time do Brasil foram escalados os contitstas Cláudia Tajes (A vida é um eterno descenso), Carlos Barbosa (Glorinha toda solta), Elieser Cesar (O hexa de meu pai), Lima Trindade (Oito de julho), Luis Pimentel (Gertrud), Marcus Borgón (O resto do mundo) e Mayrant Gallo (O que houve depois). O gol de honra alemão coube a Hans-Ulrich Treichel (Foucault, Freud, Futebol). Organizada pelos escritores Tom Correia e Lidiane Nunes, a coletânea é uma coedição da editora baiana Dália Negra e da capixaba Cousa. Ela traz ainda um ensaio sobre futebol da professora de Literatura Alemã da Universidade de Leipzig, Dagrun Hintze. A orelha do livro é assinada por Cláudio Lovatto Filho, uma das maiores referências nacionais em literatura sobre futebol. A capa de Sete a um é do artista plástico carioca Marcelo Frazão e a versão dos textos do alemão para o português de Erlon José Paschoal, tradutor de grandes escritores germânicos, como Goethe, Brecht e Holderlin.
    
    Segundo os editores, "a ideia de trazer para o livro o placar invertido foi, desde o início, a essência vital: sete brasileiros dariam, através de um conto, a sua versão pessoal daquele evento fatídico, cabendo a um só escritor alemão a chance do gol de honra". Nisso, acrescentam, "estava a ironia, a brincadeira: a derrota em campo se converteria numa vitória literária, para os dois países".

sábado, 21 de abril de 2018

DESEJO DE SER ÍNDIO, FRANZ KAFKA



   Caso se fosse índio apesar de tudo, logo pronto e ao lombo do cavalo em disparada, inclinado no ar, sempre estremecendo brevemente sobre o chão a estremecer, até deixar de lado as esporas, pois não existiam esporas, até jogar fora as rédeas, pois não existiam rédeas, e, mal se visse a terra à sua frente como charneca cortada rente, já estaria sem pescoço de cavalo e cabeça de cavalo.


Extraído de "Blumfeld, um solteirão de mais idade e outras histórias", de Franz Kafka, com organização, tradução e posfácio de Marcelo Backes, publicado pela Civilização Brasileira, RJ, 2018.