domingo, 30 de junho de 2019

A NOIVA DO TIGRE, de TEA OBREHT




   
      Vivemos em estado de guerra, nos sussurra o romance de Tea. Estamos dentro dela, em seus círculos mais internos e profundos. Lá fora caem bombas, acima os aviões, distantes os homens que acionam seus comandos; em nós finca-se o horror das explosões ou o aço quente de um projétil, enquanto colhemos legumes no quintal ou visitamos o que resta de um zoológico. Cercas se tornam fronteiras, sotaques definem vida ou morte. E morte é o grande banquete que continuamente se prepara. Nós somos os humanos cercados pelo fogo e somos eles, também, os que definem os círculos e o alcance do incêndio. Nem sempre.

   Em "A noiva do tigre", a jovem escritora norte-americana de origem iugoslava, Tea Obreht, perfila personagens inesquecíveis. Crianças, homens e mulheres que habitam os tempos e os lugares com suas particularidades encantatórias, enigmáticas e emocionantes, enquanto as bestas vistoriam casas e carros e dizem quem pode passar ou viver. A Cidade e povoados dos Balcãs nos são apresentados por dentro, nas vozes de seus moradores, e nos sentimos como nos sertões, entre crendices e ervas, entre deuses e feras. Digo assim pois, decompor a narrativa, expor o enredo talvez diga menos do romance. Mas, vamos lá.

   Natalia é uma jovem médica em trabalho comunitário. O avô de Natalia, também médico, é sua principal referência. No meio de uma viagem assistencial, Natalia toma conhecimento da morte do avô, ocorrida num povoado distante. As lembranças da convivência com o avô, das histórias que ele contava, em especial, as da noiva do tigre e do homem sem morte, tornam-se o eixo central do romance. A guerra veio e se foi, e retornou tempos depois, e agora já é rescaldo desta última, com clima de uma próxima que se engendra, pois ao fazer seu trabalho, Natália não deixa de ser "do outro lado", e aqueles que criam problemas "são do seu lado, doutora".  Mais uma vez, não há como deixar de notar como essa bipolarização se universalizou. O estado de guerra, também.

    Mas é o talento narrativo de Tea Obreht que ressalta e impressiona. Agradou-me, especialmente, sua habilidade em imprimir cor e graça à narrativa a partir de personagens secundários e situações periféricas, como o papagaio declamador da primeira parte  -  ri às escâncaras, me impregnou sua curta passagem pelo texto. Conheceremos o avô-menino e entenderemos o motivo de ele levar Natalia ao zoológico para ver o tigre e o porquê de carregar sempre consigo um velhíssimo exemplar de O livro da selva, de Kipling. Aqui nos encontramos e nos emocionamos. Aqui está o povo abandonado pelas autoridades e pela ciência, resolvendo e criando seus imbróglios na turvação das crenças, lendas e produção incessante de mortes.
   
    Tudo parece se resumir a esse estertor social, dos tempos do avô-menino e da noiva tigre, ao tempo do avô-médico e o homem sem morte, até o de Natalia-médica e o avô-morto, esse tempo em que as assombrações persistem, bruxas ordenam e uma família inteira se desloca até o território inimigo para revirar um vinhedo atrás de um corpo enterrado durante a guerra. Da mesma forma que Natalia corre risco de morte para resgatar os pertences do avô-morto. Tudo que é novo nasce de algo putrefato, a raiz antiga de toda invenção. Enquanto as crianças servem de cobaias, de alvo preferencial da violência, de argamassa das gerações, de desculpa para atos de desespero e de esperança renovada.

    Uma leitura que me reportou a "O rei branco", de G. Dragomán, e "O navio branco", de T. Aitmátov, por seus personagens infantis e pelos ambientes de violência autoritária e disputas territoriais. Uma leitura inesquecível, como acompanhar a travessia de um elefante pelas ruas da cidade deserta e adormecida, ou andar ao lado de um tigre pela mata com a mão posta em seu dorso, ou descobrir o motivo de um cão ficar por dias ao lado de uma caçamba à beira da estrada. Um grande romance, vencedor do Orange Prize 2011. E como estamos no Brasil, um romance praticamente desconhecido, vendido em saldão no mercado de frutas por dez reais.


A noiva do tigre, de Tea Obreht, tradução de Santiago Nazarian, publicado pela editora Leya, SP, 2011

quarta-feira, 1 de maio de 2019

AS MARGENS DO PARAÍSO, de LIMA TRINDADE


    
   O Brasil parece parado no tempo a repetir experiências sem gerar aprendizado relevante. Tudo que construímos ostenta marcas passadiças, propósitos turvos, resultados duvidosos à custa do suor e do sangue dos mais pobres. Agora mesmo somos arrastados por uma onda reversa que pretende ressuscitar o país de 50 anos atrás, aquele que a Ditadura Militar engendrou com seus atos institucionais. Piorado, em verdade, por um fundamentalismo religioso que espanta por sua solidez e profunda ramificação nos estratos sociais. Temos, sim, uma tendência ao desastre, por mais que nossa bossa brilhe nos palcos do mundo.

   Em seu primeiro romance, As margens do paraíso, Lima Trindade deixa isso bem claro: projetamos paraísos sobre corpos despedaçados e almas corrompidas; estamos sempre às margens de algo promissor, marcados por desesperança e perdas irreparáveis. Do Rio de Janeiro, de Juazeiro/BA e de Anápolis/GO partem os três protagonistas do romance - Rubem, Leda e Zaqueu - em busca da nova Canaã, a Brasília que os candangos erguiam no Planalto Central do Brasil. Jovens, deslocados em seus ambientes de origem, Brasília representou para eles, e aos brasileiros em geral, o farol e a oportunidade quando a crise se instalou em suas existências. Fico pensando que jovens como eles acorreram a várias outras terras prometidas ao longo de nossos séculos, obtendo resultados bem parecidos ou iguais. Porque "o sistema é bruto", já se conhece bem o bordão.

   Lima Trindade mostra apuro na definição particular das vozes narrativas e no trabalho de pesquisa que recupera ambientes e climas nas diversas cidades envolvidas na trama e naquela que se constrói na interlândia. Brasiliense de nascimento, Trindade oferece ao leitor, enquanto expõe o drama que move e aproxima seus personagens na capital que ajudam a construir, o conhecimento do cotidiano dos peões nos canteiros de obras e nos barracões, nas biroscas empoeiradas e nos puteiros baratos e de luxo, e até mesmo dos trabalhadores mais qualificados, entre esses, os embriões ou filhotes dos empreiteiros celebridades da contemporaneidade. Por isso a impressão de que estamos a nos repetir da pior forma possível. 

    A construção de Brasília durante o governo JK até hoje provoca polêmica. Mas sua edificação, em si mesma, foi grandiosa em todos os sentidos. A propaganda governamental tem nos bombardeado ao longo das décadas com seus aspectos positivos, mas sabemos que essa é uma história que ainda esconde episódios nebulosos e trágicos, que merecem investigação sensível e cuidadosa, como essa que nos traz As margens do paraíso

     O romance recupera um grande momento do Brasil - campeão do mundo no futebol em 1958, Pelé e Garrincha, a bossa nova, JK e Brasília - para costurar com a alegria, o gozo e o desespero da juventude de seus protagonistas, um sonho de construção de um mundo melhor. Sonho que nunca nos cansamos de sonhar, cobertos de poeira ou de mágoa, embriagados por idealismo ou por álcool,  mesmo ao comungar com Mauro, personagem que funciona como arauto do novo mundo, quando afirma: "Reflito nesse momento de profundo vazio e na ideia de que, algumas vezes, a única saída existente seja abraçar a bala em seu trajeto, seja esquecer o medo, não olhar para trás."

   Lima Trindade realiza com As margens do paraíso uma bela contribuição à literatura brasileira, ao romance social que temos praticado contemporaneamente. 


As margens do paraíso, Lima Trindade, Companhia Editora de Pernambuco - CEPE, Recife, 2019

segunda-feira, 29 de abril de 2019

GAME OF THRONES





    A série Game of Thrones - GoT tem ambiência sombria, múltipla direção e custos altos. Pois bem: desde a sétima temporada a série meio que desbrava o enredo, posto que GRRMartin não concluiu a saga nos livros que publicou. Presa ao "estilo" que adotou, GoT provoca críticas e comentários os mais diversos a cada episódio. Eu li os cinco tomos publicados d'As crônicas de Gelo e Fogo e garanto a vocês que não senti falta do que foi extirpado da trama em benefício de clareza e agilidade. Mas há quem...
   
    Bem, dos vários textos que li durante o day after da Batalha de Winterfell ressaltam críticas à escuridão das cenas, não bastasse a luta ter sido travada durante uma noite invernal. Não vejo motivo para queixas: as melhores cenas do 3o episódio só foram possíveis por conta da escuridão reinante (sem trocadilho). Senão vejamos: 1) o acendimento das foices dos dothraki, pela feiticeira Melisandre, exigia o contraste para que a sequência tivesse o efeito plástico que teve, 2) o avanço dos dothraki na direção do exército dos mortos, na direção da escuridão, visto de perto ou à distância, foi bem bacana, 3) e o choque dos dothraki com a massa do exército dos mortos, como foi filmado, realizou momento precioso de puro cinema - luz e escuridão, a luz se apagando aos poucos até a escuridão imperar. Numa economia gigantesca de recursos de todos os naipes, a direção mostrou o enfrentamento e a derrota dos dothraki apenas com jogo de luz e sombra - isto é cinema. Mais que isso, representou uma economia enorme para a produção e para os olhos dos telespectadores, que teriam pela frente muitas cenas sangrentas. Considerei primorosa a cena 3.

     No mais, o episódio 3 exibido ontem teve o condão de encerrar a luta contra o Rei da Noite e seu exército de mortos, vilões sem voz e sem um propósito maior a alcançar, sem qualquer empatia. Agora vamos a Cersei, esta sim, vilã das mais impressionantes e admiráveis.


Foto: Arya, personagem vivida por Maise Williams, Bol

quarta-feira, 24 de abril de 2019

SONS DE MERCÚRIO


    
     Seguindo pela Linha Verde até Sergipe, ouvimos pela primeira vez o cd Entre crendices e amores pagãos, assinado por Sons de Mercúrio, banda de Feira de Santana. O álbum tem direção artística de Cartre Sans e Mohzah Nascimento, parceiros em todas as composições (em uma delas, Thiago junta-se à dupla). São treze canções que podem muito bem ser apreciadas como movimentos de uma sinfonia, mesmo porque as letras giram em torno do tema/título do disco.

     A presença de guitarras e da batida típica do velho rock modulam a sequência de canções, como se fosse um roteiro do show da banda. As melodias, as letras, os arranjos, os vocais se sucedem de forma harmônica, com uma base técnica notável, consolidando o entendimento de que Entre crendices e amores pagãos é, sim, um excelente disco.


     De minha parte, enquanto ouvia Sons de Mercúrio, fiz uma viagem paralela, emocional e bem particular, revisitando os anos 1970 e identificando a irmandade daquele som com o trabalho imortal da Banda de Pau e Corda, do Quinteto Violado, do Pessoal do Ceará, de Sá, Rodrix & Guarabira... Uma irmandade assim é bem mais que um elogio, é um selo de rara qualidade que confiro às maviosas toadas, cantigas e rocks-rurais que me embalaram ao volante do carro na manhã da quinta-feira santa. Enquanto, no íntimo, lastimava por todos que ainda não ouviram Entre crendices e amores pagãos, um disco arrojado que nasce clássico, um trabalho que merece os prêmios que houver por aí na MPB e, claro, ser conhecido logo nacionalmente. 

domingo, 14 de abril de 2019

DIVISADERO, de MICHAEL ONDAATJE





      A melhor receita de vida é estar aberto a novas leituras, a novos autores, daqui e d'alhures, deste ou de outros tempos; melhor receita não só para um crescimento pessoal saudável, mas para uma atitude de correta honestidade intelectual. De outra maneira é como se aprisionar a um território e suas parcas possibilidades  -  por mais que as consideremos plenas  -  ou a um cânone gélido - por mais que o consideremos insuperável. Como saber, se não experimentarmos? Eu sou um que se considera imperfeito, incompleto e ansioso por conhecimento  -  o que sou, o que tenho, o que conheço, o que sei, ou o que penso ser, ter, conhecer e saber, parece-me muito pouco. E foi assim que cheguei a Ondaatje, por exemplo. Já o conhecia de O paciente inglês, filme adaptado de um romance seu. Mas não o havia lido, ainda; e isso não fazia parte dos meus planos. Até que topei com...

      Divisadero é um romance contemporâneo clássico. Narrativa entrecortada e vertiginosa, polifônica, com narradora principal complexa, mais metaliteratura e a presença dos textos clássicos dando suporte à construção dos personagens e de tudo o mais. Colette, Dumas, Hugo, Stendhal, uma verdadeira homenagem à literatura e à cultura francesa, não transcorresse grande parte do enredo em solo francês, em tempos diversos. Sem falar em Nietzsche e em Lupicínio Rodrigues. É que...

    Bem, seguindo o autor, podemos dizer que Divisadero tem na sua construção algumas frases pilares: "Temos a arte, para que não sejamos destruídos pela verdade", de Nietzsche, é uma delas, a que Anna, a narradora principal, recorre sempre como viga mestra de sua existência. Uma outra: "Se acabarei sendo o herói de minha própria vida, ou se esse posto será ocupado por outra pessoa, é o que estas páginas precisam mostrar", que bem poderia ser a epígrafe do romance. E os versos de Lupicínio, em Um favor, mal traduzidos como "Se algum de vocês a vir em suas jornadas  -  gritem-me, assobiem...", mas que o autor reconhece nas notas ter sido "o que começou essencialmente este livro".

         Divisadero se ocupa de rupturas, de partições, da busca que fazemos de nós mesmos no outro. Anna se descobre mulher com o irmão de criação, Cooper, gerando com isso o esfacelamento de seu núcleo familiar. Mais tarde, na França, Anna pesquisa a vida do poeta Lucien Segura, conhece e namora o cigano Rafael, enquanto Cooper enfrenta as durezas da jogatina e Claire, a outra irmã de criação, investiga casos para a promotoria da Califórnia. A biografia do poeta francês levantada por Anna, parte final do romance, reproduz o cerne da proposta de Ondaatje: as muitas vidas que vivemos possuem divisas bem definidas e pouco somam umas às outras. Mas deixam marcas indissolúveis, que arrastamos para sempre. É que, como afirma Anna no texto: "É a fome, aquilo que não temos, que nos mantêm juntos".


Divisadero, de Michael Ondaatje, tradução de Augusto Pacheco Calil, Companhia das Letras, SP, 2008.

     

domingo, 31 de março de 2019

AS MARGENS DO PARAÍSO, de LIMA TRINDADE




     O primeiro lançamento foi ontem, na livraria LDM, daqui de Salvador. Outros lançamentos virão em Brasília, Rio de Janeiro e Porto Alegre, e mais que a memória me falta. Em tempos nublados, Lima Trindade viaja ao período de construção da capital federal, onde nasceu, para acompanhar a jornada de três personagens. Estou começando a leitura, mas já deixo aqui um aperitivo:



    [...] O movimento nas escadas é nervoso, pois o elevador está sempre em manutenção. Ninguém reclama. Estão acostumados. Passa noite atrás de noite e o cartaz de aviso continua preso à porta enferrujada. De qualquer forma, estou me lixando se o elevador funciona ou não. Tirando o velho Ápio, não vou muito com a cara de ninguém por aqui. No fundo, quero mais é que o Frederico Ribeiro se exploda. Só não mudo de colégio, não me arranco de uma vez por todas, por causa da maldita bolsa. Só por isso. Não fosse por ela, tava noutra. Bom, mas bom mesmo, seria estar no apartamento da Janete, tomar banho de banheira e foder até não aguentar mais.



As margens do paraíso, de Lima Trindade, publicado pela CEPE Editora, 2019.

sábado, 16 de março de 2019

LÉXICO FAMILIAR, de NATALIA GINZBURG






     Um livro especial, uma biografia familiar para ser lida como romance, na sugestão da própria autora. Vida real, nomes reais, mas todo mistério que cerca o viver submetida, no caso, a um pai dado a rompantes autoritários e em um tempo de afirmação do fascismo na Itália. Contra o qual, diga-se logo, a família se posicionou e, por conta disso, sofreu duras consequências. 
     Natalia Ginzburg quase nada relata de sua própria vida no seio da família: é o olhar, a escuta e a memória que fixa e nos entrega nesse livro os fazeres e dizeres de uma família italiana de origem judia nos duros tempos do fascismo. Com uma preocupação nítida em recuperar o linguajar praticado pelos pais, irmãos, parentes e amigos, frases e expressões que representam chaves emocionais instantâneas e eternas.
     O Ginzburg, Natalia ganhou quando se casou com Leone, amigo de seus irmãos e companheiro de luta política, que morreu na prisão, deixando-a com três filhos, um deles o renomado historiador Carlo Ginzburg. Natalia Ginzburg trabalhou na famosa editora Einaud, ao lado de Cesare Pavese e Italo Calvino, figuras que aparecem no livro em passagens marcantes.
       Trechos:
     Meu pai voltava para casa sempre furioso, por ter encontrado no caminho cortejos de camisas-negras; ou por ter descoberto nas reuniões da faculdade novos fascistas entre seus conhecidos: - Palhaços! Safados! Palhaçadas! - dizia, sentando-se à mesa; batia o guardanapo, batia o prato, batia o copo e bufava de desprezo. [...]
     Meu pai, quando morria uma pessoa, acrescentava imediatamente a seu nome a palavra "finado"; e ficava bravo com minha mãe que não fazia o mesmo. Esse do "finado" era um hábito muito respeitado na família de meu pai: minha avó, referindo-se a uma irmã falecida, dizia invariavelmente a "finada Regina" e não a evocava de outro modo. [...]
      Quanto à minha mãe, ela era de índole otimista e esperava algum belo golpe de cena. Esperava que um dia alguém, de algum modo, "derrubasse" Mussolini. Minha mãe saía, de manhã, dizendo: - Vou ver se o fascismo continua de pé. Vou ver se derrubaram Mussolini. - Recolhia alusões e boatos nas lojas, e tirava disso auspícios animadores. 

Léxico familiar, de Natalia Ginzburg, com tradução de Homero Freitas de Andrade, prefácio de Alejandro Zambra e posfácio de Ettore Finazzi-Agrò, Companhia das Letras, 2018.