sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

PÓS-NATALINA


Ainda não provei de nenhum umbu.
Lá é agreste; quem dá umbu é sertão.
No sertão do Velho Chico chove de enxurrada faz um bom tempo, a safra de umbu atrasou.
Mas continuo firme no propósito de não pagar oito reais por um litro de umbu, aqui na Pituba.

"Viver é aprender a perder", escreveu Antonio Geraldo em seu "As visitas que hoje estamos". Então, tá, sigamos no aprendizado.



imagem: come-se.blogspot.com, via Bol Fotos

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

ENTÃO É NATAL


A gente faz a viagem pra raiz. Um mergulho no tempo, na memória das coisas. Até mesmo das não vividas. 

E acaba por comer demais. A prosa em volta da mesa, na emenda das refeições.

Estou com a família de minha amada, na Colônia 13. Um lugar novo em que já se fala em "já teve", bem Brasil. Vou atrás de umbu na feira.

Minha irmã foi até nossa raiz comum, na beira do Velho Chico. De lá, espero umbus cabeludos das várzeas do rio Paramirim, do Brejinho da Serra Negra, quem sabe? E extrato de pimenta de Barra do Choça.

Pois raiz tem essa qualidade: se ramifica, se espalha, se conecta com outras raízes. E assim nos fincamos mais firmes na instabilidade do terreno da vida.

Estamos, pessoal, na estrada. E isso é muito bom.

Torcemos para que todos os amigos de sangue e do peito mantenham-se firmes na estrada, alongando raízes. Nos bons territórios, claro.

Vamos romperndo chão.

domingo, 22 de dezembro de 2013

SALVADOR, ZONA AZUL (IX)


- Alô, senhor H, do carreto?
- Sim, pode falar.
- Senhor H, estou precisando pegar um fogão na Paulo VI. Um trajeto de menos de um km até aqui em casa. O senhor faz o serviço?
- Faço, sim.
- Pode ser agora de manhã?
- Pode, sim.
- Vou lhe passar o endereço, então.
- Vou precisar levar um ajudante.
- Tá certo. Vou lhe dar...
- Vai sair por 120 reais, o carreto.
- Como? Quanto?
- 120 reais. Vou ter que pagar o ajudante.
- 120?!! 
- É, só pro ajudante vou ter que dar 40 reais.
- Senhor H, é só um fogão de 4 bocas, pequeno. 120 reais é a metade do preço do fogão.
- Esse é o preço do carreto.
- Tá bom, então. Esquece, senhor, esquece.

Isso é Pituba, isso é Salvador.

sábado, 21 de dezembro de 2013

SALVADOR, ZONA AZUL (VIII)

Saudades da Vila Laura. O custo de vida na Pituba, a três km de distância, supera os 300% em muitos casos.

Ontem, no fim de linha da Pituba: encosto o carro no meio-fio, de olho nos balaios de umbu. O vendedor corre pra cima.
- Tá quanto o litro?
- O freguês quer dos graúdos ou dos mais graúdos?
- Não sei, parece o mesmo.
- Né não, freguês, olha só esses aqui - e mete a mão no balaio.
- Ta quanto o litro?
- Desses aqui, oito reais.
Reajo com a boca aberta e menear negativo de cabeça.
- Diga, freguês, desses ou desses aqui, a gente vê.
- Não, não, deixa pra lá.
- Faço a seis, freguês.
- Não, não, esquece - e começo a acelerar. Mas ouço, ainda:
- Faço a cinco, freguês.
Aí é que não quero mesmo. Acelero, puto da vida, lembrando do meu tempo de menino, sacola de pano pendurada no ombro, quicé na mão e uma porção de sal enrolada num papelzinho, a catar umbu no mato. Merda de cidade grande.
Hoje, minha secretária periódica do lar me diz que na feirinha de Cosme de Farias, vizinha da minha Vila Laura, o litro do umbu é vendido a dois reais. Dois reais, a três km de distância, na mesma Salvador.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

MAIS AFFONSO MANTA

CRIAÇÃO

Crie canários verdes na varanda
Onde os meninos brincam de ciranda.

Crie esses bois de chifres de açucenas
Que pairam nos céus das manhãs serenas.

Crie cavalos da Andaluzia
Em sítios de cristal e fantasia.

Crie raiz no amor de uma mulher
E espere calmamente o que vier.


DE UM RABISCO

Há que deixar em paz o poema.
Ou o poema nos afeta.
O poema há de ser perfeito.
Ou ele come o poeta.


O APRENDIZ

Sou pobre realmente.
Tenho apenas algumas folhas de papel na alma
E uma vontade - digamos, mansa -
De hipnotizar borboletas.
Que coisa sei da vida?
O bastante para não correr.


Poemas que são fonte de água boa de beber. Para beber sempre, e muito. Beber desses poemas faz um bem enorme à saúde. (da Antologia Poética, seleção e organização de Ruy Espinheira Filho, publicada pela Acad. de Letras da Bahia e Assembleia Legislativa da Bahia, 2013).

domingo, 15 de dezembro de 2013

AFFONSO MANTA - AS PALAVRAS QUE ELA NÃO ME DISSE


SONETO DOIS

Os campos, os vergéis estão florindo.
Eis que já vem o tempo das colheitas.
Enquanto é claro o sol, vê se me deitas
No leito sensual do amor infindo.

Na campina, no alto da colina,
No canteiro das rosas cor-de-rosa,
No tapete de sala adamantina,
Na cama confortável e cheirosa.

Deita-me onde for doce me deitar:
Num lugar precioso, num lugar
Onde a beleza, onde o alvorecer.

Deita-me e deita no meu céu macio,
Como quem deita sobre a paz do rio,
Como quem deita sobre o próprio ser.


Uma poesia de beleza furiosa, de explosões líricas impressionantes, de alto valor universal. Affonso Manta tem, enfim, sua "Antologia Poética", organizada por Ruy Espinheira Filho, lançada pela coleção "Mestres da literatura baiana", sob o patrocínio da Academia de Letras da Bahia e da Assembleia Legislativa da Bahia. O lançamento aconteceu no dia 28 de novembro passado, no dia daquela tempestade que alagou a cidade. Mesmo assim fui lá e tenho aqui o meu exemplar, que me permite oferecer a vocês uma amostra da poesia superlativa de Affonso Manta, nascido em Salvador, no ano de 1939, e falecido em Poções/BA, em 2003.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

SALVADOR, ZONA AZUL (VII)

Volto ao estacionamento: oito reais por hora ou fração num daqueles para quem acessa o Pelourinho pela Baixa dos Sapateiros. Sem apelação, sem minutagem, redondos.

O que faz alguém no Pelourinho? Passeia, fotografa, faz compras, vai a shows, eventos, bebe, come, demora-se por aquelas ladeiras, entre o casario colonial, refrescando-se aqui e acolá. Programa para algumas horas, nunca para uma hora. Em uma hora vai-se ao banco, e olhe lá.

Então, a quem se destina um estacionamento a 8 reais a hora ou fração? Talvez a uma pequeníssima fração de soteropolitanos. Para turistas? Ora, não sabia que turistas alugavam carros como quem compra fitinhas do Senhor do Bonfim. Sobra para quem necessita, de verdade, ir até aquelas plagas para algum compromisso. E aí tem que chimbar (ou será ximbar?) em 24 reais por 3 horas no Pelourinho.

Isto é liberalismo: não estamos aqui para promover bem-estar público, mas para arrecadar cada vez mais (e permitir que os nossos faturem mais, também) para, assim, realizar obras de superfície, obras que todos vejam, alavancando nossa carreira política. Quem tem carro que se vire para mover-se com ele pela cidade e para estacionar - isso não é problema do poder público. Essa é a cor de Salvador.

Para fechar o assunto: soube que na parte de riba, na Misericórdia, estacionar custa nove reais a hora ou fração. Sem misericórdia.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

PAPO SOBRE JORGE AMADO


Ontem à tarde, no Centro Cultural dos Correios, de lado pra igreja de São Francisco, no centro histórico de Salvador, e ao lado de Antonio Torres, Myriam Fraga e Dênisson Padilha Filho, falamos de literatura, nossa e dos outros, e de Jorge Amado, em especial.

Conto o que tenho contado: entrei no ginásio aos 11 anos e já era um leitor compulsivo, apaixonado pela literatura e tudo o mais que pudesse ler. Minha professora de português, Vitória Rodrigues, me franqueou o acesso aos livros de Jorge Amado. Então, li, reli, treli, tudo que Jorge havia publicado até então. Depois viria toda obra de José Mauro de Vasconcelos e de Monteiro Lobato (que esqueci de citar, ontem). Pouco compreendi do que li à época, em particular dos livros que Jorge escreveu sob o peso ideológico. Mas isso não importa. O que ficou foi a emoção das leituras, dos mundos revelados, das possibilidades do fazer humano até então desconhecidas de minha miudeza de gente. 

Disse mais: que depois de tanta leitura, a gente forma um grupo de amigos escritores, se filia a esse grupo por valorar o trabalho desses autores e que, ao me tornar também autor, procuro defender os princípios desses meus amigos, adotando assim o entendimento do escritor norte-americano Jonathan Franzen, em oposição aos dos meus inimigos (aqueles autores de uma literatura a que não concedo valor). E que Jorge Amado é um desses meus amigos mais queridos por ter sido o primeiro autor em cuja obra mergulhei várias vezes. Ainda, que absorvi dele bens preciosos: a compaixão pelo povo e o amor por sua terra. Em minha literatura procuro dar conta disso, não sei se consigo fazer bem ou à altura desses meus amigos. Mas me esforço. Foi uma bela tarde, um ótimo encontro, um prosa daquelas merecedoras de um bom vinho tinto.

(mais sobre o encontro em www.jorgemais100.com.br)
Imagem: Carlos Eugênio Junqueira Ayres

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"Jorge +100" discute a Bahia de Jorge Amado na atualidade




Dia 11.12, a partir das 15h, participarei da mesa "Terras do sem fim" no evento "Jorge + 100", ao lado dos escritores Dênisson Padilha e Antonio Torres, com mediação da poeta Myriam Fraga. A entrada é gratuita. Compareçam. Leiam, abaixo, detalhes do evento.

O Centro Histórico de Salvador abrigará de 10 a 13 de dezembro um evento literário que vai discutir a Literatura que se faz hoje na Bahia, tendo como referência o mais famoso dos escritores baianos: Jorge Amado. O “Jorge + 100” é uma iniciativa patrocinada pelos Correios, com realização do Ministério da Cultura, apoio da Fundação Casa de Jorge Amado e organização da produtora Canto de Ideias.

O encontro será no Centro Cultural dos Correios, no Largo do Cruzeiro do São Francisco, Pelourinho, com acesso gratuito ao público até a capacidade máxima do auditório. O Jorge +100 reunirá diversos escritores e especialistas que debaterão sobre as obras ficcionais atuais e os temas relacionados, que vão desde as ruas de Salvador como inspiração à baianidade da população e influência da capital nos trabalhos dos autores locais. Estão confirmadas as participações de nomes de destaque no cenário nacional, como o baiano Antônio Torres, recém-eleito para a Academia Brasileira de Letras, Liv Sovik, pesquisadora de temas multiculturais, e a atriz e poeta Elisa Lucinda. A semana literária terá ainda a presença de Antônio Carlos Sobrinho, Aurélio Schommer, Carlos Barbosa, Daniel Lisboa, Dênisson Padilha Filho, Fernando Conceição, Herculano Neto, James Martins, Lande Onawale e Paulo Dourado.

Para o professor da Universidade Estadual da Bahia e curador do Jorge +100, Gildeci Leite, é preciso compreender a dimensão da obra amadiana, que sempre será ponto de partida para sua afirmação e enaltecimento ou para tentar negá-la, sem necessariamente utilizar artifícios depreciativos. “Desde algum tempo Jorge Amado tem sido compreendido como autor de um modelo literário que pode ser visto das ruas da Bahia em especial da Cidade da Bahia de Todos-os-Santos. Há autores que fazem questão de demonstrarem o distanciamento desta proposta e outros, que mesmo sem serem imitadores, assumem a baianidade amadiana, pois não assumi-la seria negar parte significativa do cotidiano à nossa volta”, afirma. “O projeto Jorge +100 tem o intuito de problematizar essas e outras questões e fazer valer várias propostas de literariedade todas com a cara de diversas Bahias”, completa.

Escritores pós-amadianos | Durante quatro dias, os debatedores e mediadores vão abordar as heranças literárias de Jorge Amado e também a produção de escritores de uma geração posterior. As mesas temáticas “Mulheres da Bahia”, “Terras do sem fim”, “A cor da Bahia”, “Nas ruas de Salvador”, “Socialistas, graças a Deus” e “Crenças e Mistérios” serão mediadas, respectivamente, por Renata Rocha, Myriam Fraga, Goli Guerreiro, Márcio Mattos, João Paulo Cuenca e Fernando Guerreiro. Antes de cada debate, haverá apresentação de uma dupla de atores que farão um stand-up literário. Nos dias 14 e 15, encerrando o evento, estão programadas atividades com alunos da rede pública de ensino de Salvador. A programação completa está no jorgemais100.com.br.

CONTATOS:
Gildeci Leite | 8884-6851  (75)9824-4785
Canto de Ideias Produções e Consultoria | 9165-0599  9165-0810

O QUÊ: Jorge +100             
QUANDO: 10 a 13 de dezembro
ONDE: Auditório do Centro Cultural dos Correios
               Largo do Cruzeiro do São Francisco. Centro Histórico.
HORÁRIO: 15h30 às 19h30 
ACESSO GRATUITO*até a lotação do espaço

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO, MARIO VARGAS LLOSA



As ilusões plasmadas com a palavra exigem ativa participação do leitor, esforço de imaginação e, às vezes, em se tratando de literatura moderna, complicadas operações de memória, associação e criação, algo de que as imagens de cinema e da televisão dispensam os espectadores. E estes, em parte por esse motivo, tornam-se cada dia mais preguiçosos, mais alérgicos a um entretenimento que exija deles esforço intelectual. Digo isto sem a menor intenção beligerante contra os meios audiovisuais e a partir da confessa posição de viciado em cinema - vejo dois ou três filmes por semana -, que também tem prazer com um bom programa de televisão (essa raridade). Mas, por isso mesmo, posso afirmar com conhecimento de causa que todos os bons filmes que vi na vida e que tanto me divertiram não me ajudaram nem remotamente a entender o labirinto da psicologia humana tanto quanto os romances de Dostoiévski, ou os mecanismos da vida social tanto quanto Guerra e Paz de Tolstoi, ou os abismos de miséria e os ápices de grandeza que podem coexistir no ser humano tanto quanto aprendi com as sagas literárias de Thomas Mann, Faulkner, Kafka, Joyce ou Proust. As ficções das telas são intensas por causa da imediatez e efêmeras nos resultados: aprisionam e libertam quase de imediato; das literárias somos prisioneiros para toda a vida. Dizer que os livros daqueles autores entretêm seria ofendê-los, porque, embora seja impossível não os ler em estado de transe, o importante das boas leituras é sempre posterior à leitura, efeito que deflagra na memória e no tempo. Está ocorrendo ainda em mim, porque, sem elas, para o bem ou para o mal, eu não seria como sou, nem acreditaria no que acredito, nem teria as dúvidas e as certezas que me fazem viver. Esses livros me modificaram, modelaram, fizeram. E ainda continuam me modificando e fazendo, incessantemente, no ritmo de uma vida com a qual os vou cotejando. Neles aprendi que o mundo está malfeito e sempre será malfeito - o que não significa que não devamos fazer o possível para que não seja ainda pior do que é -, que somos inferiores ao que sonhamos e vivemos na ficção, e que, na comédia humana de que somos atores, há uma condição que compartilhamos, em nossa diversidade de culturas, raças e crenças, que nos torna iguais e deveria tornar, também, solidários e fraternos. O fato de não ser assim, de, apesar de termos tantas coisas em comum com nossos semelhantes, ainda proliferarem preconceitos raciais e religiosos, a aberração dos nacionalismos, a intolerância e o terrorismo, é algo que posso entender muito melhor graças àqueles livros que me mantiveram alerta e em brasas enquanto os lia, porque nada melhor do que a boa literatura para aguçar nosso olfato e nos tornar sensíveis para detectar as raízes da crueldade, da maldade e da violência que o ser humano pode desencadear.


 Trecho do pronunciamento de Llosa ao receber o Prêmio da Paz dos Editores e Livreiros alemães, em 1996, que fecha o livro de ensaios "A civilização do espetáculo", Objetiva, 2013, tradução de Ivone Benedetti. Esse pronunciamento recebe no livro o sugestivo título de "Dinossauros em tempos difíceis". Leitura necessária.

domingo, 18 de agosto de 2013

INVASÃO NO BLOG


Aos meus poucos leitores: este blog está praticamente inoperável por conta de uma invasão de horrendas peças publicitárias a toda vez que acesso para postagem. A partir do meu notebook, claro. As tais peças abjetas impedem a utilização adequada do espaço para novas postagens.

Atrevi-me a baixar um programa para downloads de filmes e séries e deu nisso: três ou quatro outros programas acoplaram-se no processo e agora gasto preciosos minutos a fechar insistentes telas, que mais parecem chatos de galocha em reunião de trabalho. E não consigo postar textos no meu blog, usando meu notebook.

Aliás, isso deveria ser considerado na elaboração das novas leis para internet. Punição severa para os proprietários desses programas invasores, chatotórixes, cerceadores de direitos alheios, da mesma forma que certos bancos quando encaminham cartões sem serem pedidos.

Como sou apenas um usuário, busco agora um técnico para limpar meu notebook dessa praga de invasores pentelhos. Até lá verei o que posso fazer a partir de outros computadores. Minhas desculpas.

sábado, 10 de agosto de 2013

O PAÍS DAS NEVES, YASUNARI KAWABATA






Guardar num dedo a memória de uma mulher. Voltar a essa mulher, aprendiz de gueixa em uma estância termal no País das Neves, noutro inverno, como se construísse a cada passo um poema amoroso. Kawabata conheceu certa gueixa chamada Komako e a fez borboleta nesse intenso romance de neve e fogo. Komako flutua em volta de Shimamura, e de outros clientes, envolta em quimonos alados; o pano de baixo é vermelho, por inevitável. Komako vai quando quer ficar; fica, quando quer partir; canta, quando doi; silencia, quando feliz. Nada se realiza por completo na narrativa. O desejo move essas personagens, mas escapa como floco de neve numa poça d’água. A solução, partir; mas retornar à hospedaria faz mais sentido para Shimamura, que em sua cidade deixou mulher e filhos. A neve a se acumular nos beirais como improváveis peônias brancas. 
O texto de Kawabata explora o cenário de forma apaixonada, faz o mesmo com o cortejar mútuo entre Komako e Shimamura, até revelar a tragédia que pontuou desde o início esse idílio. A tecnologia macula o cenário com fogo e a Via-Láctea invade o coração de Shimamura para dizer-lhe que a loucura talvez seja o que verdadeiramente dá sentido à vida. 

O país das neves, Yasunari Kawabata, tradução de Neide Hissae Nagae, Estação Liberdade, 2004. Publicado originalmente na revista eletrônica Verbo21.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

SALVADOR, ZONA AZUL (VI)


Um homem aproximou-se de nossa mesa na praça de alimentação do Aeroporto.
Falou em inglês e estendeu a mão. 
Retribuí o aperto de mão emendando um "I don't speak english".
O homem disse, em português, que isso não era problema, pois falava também francês etc.
Matraqueou sua condição de professor numa petrolífera, que tinha 2.500 reais pra receber e que estava sem comer desde ontem.
Espantado, meti a mão no bolso e lhe estendi dois reais.
- Dois reais! Pra eu almoçar! Não quero dois reais, não! - bradou o tal sujeito.
E arrancou pelo saguão enfurecido.
Conheci hoje no Aeroporto de Salvador, agora identificado como ALEM, o "pedinte padrão Fifa". 
Na saída, depois de uma hora e cinquenta minutos, paguei 11 reais de estacionamento.
Quero minha aposentadoria no padrão Fifa, seu moço!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

SALVADOR, ZONA AZUL (V)


Durante anos, almoçamos no Ceasinha do Rio Vermelho toda quinta-feira. 
Restaurante do Edinho.
O Governo, por assim dizer, resolveu derrubar o Ceasinha e construir um novo no mesmo local. 
Imprensaram o pessoal num prédio dos fundos, a comer poeira e a ficar surdo com as obras em andamento. Ainda em andamento.
Fui lá comprar extrato de pimenta de Barra do Choça pra mandar pra Sumpaulo.
Conversei com a turma de antes, agora abatida e encapsulada em 2 x 2.
Dizem: o Novo Ceasinha, terceirizado, cobrará de 1.200 a 1.500 reais o futuro metro quadrado a título de instalação para lojas e restaurantes. Ou seja, um boxe 4 x 4, p.e., sairá por uns 25 mil reais só para se instalar. Fora o condomínio mensal.
Dizem: os espaços maiores sairão por até 150 mil reais a ocupação.
Well, well, well, o Novo Ceasinha terá padrão Shopping, ou padrão Fifa, pelo que lá ouvi.
Dizem: o tal partido não receberá mais nenhum voto dos trabalhadores do Ceasinha.
E nós, ao que tudo indica, não reuniremos condições bancárias para voltar a almoçar naquele pedaço de terra que um dia ocupamos.
Salvador, Bahia.

domingo, 4 de agosto de 2013

CENA DE RUA, OUTRA


Noite.
Uma adolescente miúda corre pela calçada até um automóvel estacionado.
Entra no carro pela porta traseira.
Surge uma mulher que a perseguía pela calçada.
Essa mulher posta-se em frente ao Fiesta branco de vidros escuros.
A pessoa ao volante tenta arrancar.
A mulher firma as duas mãos no capô do Fiesta.
A pessoa ao volante acelera e freia em seguida, o carro parece um touro a preparar o ataque na arena.
A mulher é empurrada de costas pelos arrancos do Fiesta mas mantém-se firme.
Grita: - Você não vai! - Você não vai!
Escora o carro com as mãos, em desespero, enquanto grita.
A adolescente está no banco de trás, não se ouve a voz dela; a pessoa ao volante segue a acelerar e freiar; a mulher repete sua frase essencial enquanto é empurrada de costas pela rua.
O motor do carro fala pelas pessoas dentro dele.
Ouve-se então outro grito de mulher, vindo de uma janela do edifício em frente:
- Deixa ela ir! - Deixa ela ir!
A mulher então desiste, sai de lado e o Fiesta parte à toda rua abaixo.
Entramos, enfim, em casa, o ruído do carro a se perder distante.
Nossos corações batendo alto.
Noite de sábado em Salvador, numa rua da Pituba.

domingo, 28 de julho de 2013

HEROICA


o herói que habitava meu pai
possuía o silêncio da faca
a fatiar por precisão o tempo

o herói que em meu pai silenciava
sofria duras necessidades
no esforço para oferecer doçuras

o herói que em meu pai sofria
calava sempre os reclamos
para calar em nós a fome

o herói que corroía meu pai
em seu sábio silêncio
trabalhava simplesmente
trabalhava

terça-feira, 23 de julho de 2013

DOMINGUINHOS, MEU PARCEIRO


Descansou, como se diz no sertão.

Conheci o José Domingos de Moraes em Brasília, por volta de 1992 ou 93, não sei precisar. Trabalhava na Comunicação Social de um banco público e o Dominguinhos foi lá apresentar seu projeto "Asa Branca". Era assim o herdeiro de seo Gonzaga: queria cantar a música nordestina em praça pública, em tudo que é cidade, e arrastar consigo seus amigos artistas pelo prazer de cantar pro povo. O patrocínio foi concedido e o Asa Branca rodou o país.

Um dia ele me falou da carência de letristas. Então eu disse que talvez tivesse alguma coisa que servisse (àquela época, eu havia deixado para trás minha vida de compositor e cantor em festivais no interior e nas mostras de som do meio universitário).

Revirei minhas pastas de escritos, produzi algo novo. E mandei pra ele em São Paulo. E foi só isso.

Um ano ou mais se passou até receber um telefonema dele: tinha uma surpresa pra mim. E a surpresa me foi entregue por Codó, seu empresário: um cd e um LP, com dedicatórias, do novo disco "Nas quebradas do sertão". E lá estava "Brincadeiras de rua", com meu nome depois do dele, os autores. Foi um dia longo, arrepiado, até chegar em casa e ouvir aquela ciranda belíssima, com um arranjo impecável de flauta na introdução e a sanfona segura e brilhante de Dominguinhos a conduzir a melodia. Houve outra canção em parceria, "Santinha", igualmente bela sendo mais delicada, mas essa ele não chegou a gravar (foi gravada por Flávio Carvalho nos anos 1990 e por Serginha nos anos 2000).

Descansou, enfim. Ficam a saudade, a honra de ter sido seu parceiro e o compromisso de manter viva sua música, divulgando-a e ouvindo-a sempre. Sujeito arretado de bom e generoso, maravilhoso artista, sertanejo firme e afetuoso.    


Imagem: Bol Fotos

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A PIADA INFINITA, David Foster Wallace


São 1.093 páginas de literatura inovadora e surpreendente.São mais 95 páginas de notas do autor, que detalham e aprofundam o conhecimento do leitor sobre personagens, cenários e questões, digamos, de cunho científico. Um mundo próximo de se materializar ou já materializado em alguma parte. Tênis, depressão, drogas, cinema e o tempo de todos nós subsidiado por uma grande marca global. Estou na leitura, um pouco sofrida por se tratar de tradução portuguesa. Contarei mais adiante, fiquem com trechos:

"E tudo parece áspero, espinhoso e aborrecido, como se cada som ouvido ganhasse subitamente dentes." (depressão).

"O verdadeiro adversário, a fronteira contentora, é o próprio jogador. Sempre e apenas o que está lá, no campo, para ser confrontado, combatido, trazido para a mesa para fixar os termos. O rival do outro lado da rede não é o inimigo: é mais o parceiro de dança. Para nós é aquilo que é a palavra pretexto ou ocasião para confrontar o eu. Como nós somos a ocasião para ele. As infinitas raízes da beleza do tênis são autocompetitivas. Competimos com os nossos próprios limites para transcender o eu em imaginação e destreza. Desaparecemos no seio do jogo: quebramos limites: transcendemos: aperfeiçoamos: vencemos. [...] É trágico e triste e caótico e belo. Toda a vida é a mesma, como cidadãos do Estado humano: os limites animadores estão no interior, para serem mortos e chorados, eternamente." (tênis e...suicídio?)


A piada infinita, D. F. Wallace, tradução de Salvato Telles Menezes e Vasco Teles Menezes, Quetzal Editores, Lisboa, Portugal, 2012.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

ABDIAS, CYRO DOS ANJOS



O quarentão Abdias é professor em um colégio de moças. Uma delas se chama Gabriela, e basta. Abdias é casado, tem filhos, trabalha num museu, o ensino é bico. Abdias imita Tolstoi: escreve duplo diário, um para consumo da curiosidade alheia, que deixa sobre qualquer mesa, e outro, secreto, em que narra seus encontros e desencontros de pretensão amorosa. E Minas, ali, sempre Minas. O texto de Cyro chega a comover ao expor, com brilho e leveza, a moldura moral e erudita de uma sociedade afetada, presunçosa e hipócrita. Abdias engendra visitas, passeios, pesquisas, para ter Gabriela por perto. Fantasia a morte da própria mulher. Mas não há, em Minas, esperança para o que foge à tradição. Nem mesmo uma Gabriela furta-se inteiramente à família mineira. Mas sempre haverá o Rio de Janeiro para as novidades, pois não. E assim é que alguns sonhos se realizam. Isso também vale para Abdias. A eterna questão é, não custa repetir, que não sabemos direito o que fazer ao ter nas mãos o produto de um sonho. 


ABDIAS, Cyro dos Anjos, Ed. Globo, 2008

Publicado originalmente na Verbo21. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

SALVADOR, ZONA AZUL (IV)


Estacionamento, de novo.

Estive na Rodoviária: 9 reais a hora, 15 minutos de tolerância e 15 centavos por minuto. A Rodoviária, administrada pelo Sinart, é uma instituição pública.

Estive no Aeroporto: a mesma cobrança. O Aeroporto, administrado pela Infraero, é uma instituição pública.

Fui ao oftalmologista, que atende em um centro comercial no Itaigara. Estacionamento: 3 reais a primeira hora, 75 centavos a segunda hora, 15 minutos de tolerância e 5 centavos o minuto. O estabelecimento é privado e visa ao lucro. 

Aí está mais uma lição do liberalismo carlista. O estacionamento público em Salvador tem preço "padrão Fifa" e qualidade de estrupício.


domingo, 7 de julho de 2013

UM HOMEM APAIXONADO, Martin Walser



“Meu amor não sabe que já passei dos setenta. Eu também não sei.” Está posto assim o cerne do romance de Walser que, publicado na Alemanha em 2008, provocou alvoroço. O homem apaixonado: Goethe, O Conselheiro; o objeto da paixão: Ulrike, na flor dos seus dezenove anos. “Até que ele a visse, ela já o havia avistado.” O texto de Walser não descuida do contexto político, dos diversos interesses de Goethe, dos inevitáveis jantares e bailes, mas sustenta a delicadeza poética que o tema e a circunstância exigem. 


Goethe fala, escreve cartas, poemas e um romance de título igual ao que habita; Goethe experimenta beijos, uma queda literal e o ciúme por um rival mais jovem; Goethe quer casar-se com a brilhante e destemida Ulrike; Goethe sonha, ilude-se e se desespera, “ele se transforma em um anão que pratica salto em altura”. O caminho do homem apaixonado agravado pelas limitações da idade provecta. As duras descobertas das ausências e silêncios do ser amado. “Admira-se que por causa dela/ o sol não se paralise”, chega a escrever em meio ao tormento passional. Isso, muito antes de compreender o mandamento zero, aquele que teria caído da tábua de Moisés na descida do Sinai: “Não deves amar.” 



Um homem apaixonado, Martin Walser, tem tradução de Renata Dias Mundt, e foi publicado no Brasil pela editora Planeta, em 2010. Comentário publicado originalmente na Verbo21.


quinta-feira, 4 de julho de 2013

CENA DE RUA (826)


Um cão caçava.
Metia o focinho por entre caixas e sacos.
Na barafunda da feira livre.
Um cão esfomeado caçava.
Nada aqui, um pontapé acolá... caçava.
Sumiu por um tempo entre as barracas.
Saiu adiante a trotar.
Levava pendurado nas presas um saco de lixo.
Devidamente cheio.
Sumiu por entre as barracas.
O feroz caçador.


sábado, 29 de junho de 2013

RUY CÉSAR


Conheci este Ruy César que está na capa de uma edição da revista Veja, de outubro de 1979. Era dirigente do DCE da UFBA. E naquele mês saiu do Congresso de Reconstrução da UNE, realizado aqui em Salvador, como seu novo presidente. E sequer era candidato.

Fui um dos milhares de delegados que ocuparam, durante alguns dias, o vão livre do Centro de Convenções, em Salvador. Após idas e vindas, com a proibição da entrada dos ônibus na cidade pelo ACM da época, discussões e votações a todo vento, no começo da noite de sábado, se não me falha a memória, uma bomba explodiu, cortando a luz do local e levando os participantes a um início de tumulto. Que não teve consequências trágicas por causa do Ruy César.

No escuro e sem som, Ruy César subiu na mesa e comandou a multidão com frases simples e diretas, que pedia para serem repetidas pelos presentes, como: "Companheiros, calma!", "Fiquem em seus lugares!", e mais. E foi assim, no gogó, que Ruy César controlou o pânico que ameaçava tomar conta do ambiente, informando o que havia acontecido e as providências que estavam sendo tomadas. Um líder. Um verdadeiro líder. Não podia ser outro o primeiro presidente da nova UNE, ali refundada.

Li ontem no jornal que Ruy César morreu aos 57 anos, vítima de um câncer. Que se tornou produtor cultural e era conhecido como fundador da Casa Via Magia. Não soube dele durante esse tempo todo, muito por conta de minha longa ausência de Salvador. Deixo aqui esse registro como uma pequena homenagem de um desconhecido, em cuja existência Ruy César plantou um momento inesquecível de grandiosidade humana. De arrepiar, até hoje.




Imagens: Site da revista Veja, A Tarde On Line.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

LANÇAMENTO DA COLETÂNEA "82, UMA COPA, QUINZE HISTÓRIAS"



Agora é pra valer: sexta, 28 de junho, a partir das 18h, na livraria LDM, Praça Castro Alves, em Salvador, acontecerá o lançamento da coletânea "82, uma copa, quinze histórias". Leia abaixo meu texto para o hot-blog do livro:

A potência de certos acontecidos requer cuidados no trato da memória. Eu sempre quis escrever sobre aquele almoço fraturado, aquela segunda-feira de luz, sombra e pavor. Hesitei, como sempre, ao receber o convite. Mas no fundo sabia que o conto já estava pronto, em alguma gaveta cerebrina. Não foi fácil espanar poeira e teias, realinhar os passos, emoldurar e colorir o causo. No entanto, quem escreve ficção sabe que o ofício reserva prazeres parecidos ao preparo de um banquete, com direito a experimentar desse e daquele prato, dessa ou daquela compota, e a alterar a seu gosto o cardápio e os temperos. É uma festa particular, onde se pode quebrar sem remorso taças e derramar vinho em brancas toalhas. E chorar escondido, também. Em "Jogo de cintura" homenageei um casal amigo prestes a ter o primeiro filho, revisitei meu tempo de bancário e paleteiro pelas ruas de Salvador e me entoquei novamente atrás de uma porta para assistir ao final da tragédia da seleção de Telê. Elis Regina e Moraes Moreira disseram presente na narrativa e obtive assim o ritmo que julguei adequado ao conto. Estou convencido de que a coletânea "82" será um golaço editorial, daqueles que resultam da participação de toda a equipe, com dribles curtos, passe em profundidade, corta-luz e tirambaço na rede adversária. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

VATAPÁ COM CUSCUZ


Noite de São João.
- Alguém aí vai querer salada?
- Não, não como essas coisas laite de noite.
Não teve paredão. O paredão será na semana que vem. Mas teve um trio elétrico no terreno de um bar. Imagine passar a noite dormindo nos intervalos entre bandas e ser acordado às 4h da madrugada com um vozeirão:
- E agora com vocês a banda sensação do Nordeste, Carnes Gêmeas!
Mil e quinhentos decibéis alma adentro até o amanhecer.
Dizem que no paredão montam uma parede de som em cada canto da praça. Até os paralelos dançam. Mas isso será no São Pedro.
Por enquanto, vai-se ao vatapá com cuscuz. O vatapá é de frango desfiado, uma bomba calórica. A comilança parece não ter fim.
Aliás, há uma festinha de escola fundamental que se chama exatamente comilança: cada criança leva um prato e todos se acabam até a volta pra casa, pro almoço ou janta.
Por falar nisso, depois da janta, ouço:
- E aí, vai tomar alguma coisa antes de deitar?
- Claro, mugunzá.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

CIORAN, SILOGISMOS DA AMARGURA


Só os espíritos superficiais abordam as ideias com delicadeza.

Para nos vingar dos que são mais felizes do que nós, inoculamo-lhes - na falta de outra coisa - nossas angústias. Porque nossas dores, infelizmente, não são contagiosas.

Diariamente converso em particular com meu esqueleto, e isso minha carne nunca me perdoará.

Todas as águas são cor de afogamento.

Aquele que, por distração ou incompetência, detiver, ainda que só por um momento, a marcha da humanidade, será seu salvador.

Deixa-se de ser jovem quando já não se escolhe mais os inimigos, quando a gente se contenta com os que tem à mão.

Todos os nossos rancores provêm do fato de havermos ficado abaixo de nossas possibilidades, sem ter conseguido alcançar a nós mesmos. E isso nunca o perdoaremos aos outros.

Por que nos retirar e abandonar a partida quando ainda nos restam tantos seres a decepcionar?


Extraídos do livro "Silogismos da amargura", Emile M. Cioran, filósofo romeno que radicou-se na França, publicado pela Rocco, em 2011, com tradução de José Thomaz Brum.

Imagem: Bol Fotos

terça-feira, 18 de junho de 2013

82, uma copa, quinze histórias - NOVA DATA DE LANÇAMENTO, NOVO LOCAL


O LANÇAMENTO DA COLETÂNEA DE CONTOS 82, uma copa, quinze histórias MUDOU DE DATA E DE LOCAL.

ANOTEM: dia 28.06, sexta-feira da próxima semana, a partir das 18h, na Livraria LDM do Espaço Itaú de Cinema, na Praça Castro Alves.

A mudança foi motivada pelo feriado municipal anunciado para o dia 20.06, por conta do jogo Nigéria x Uruguai, pela Copa das Confedrações, aqui em Salvador. Assim, o local previsto anteriormente não abrirá suas portas.

Nosso jogo foi adiado, mas vai rolar bonito.

domingo, 16 de junho de 2013

MANIFESTAÇÕES DE RUA, DIREITO DO POVO


Belíssima foto. Uma pena que tenha sido capturada no Feice e eu não tenha aqui o nome do fotógrafo para grafar em caixa alta. A foto mostra um manifestante carregando um policial desmaiado. 

Pelo que tenho lido, houve policial quase linchado por um grupo de manifestantes e salvo por outro grupo de manifestantes; houve jornalistas feridos por balas de borracha, pelo menos um com ameaça de perder a vista; e tantos presos e detidos quanto nas manifestações do tempo da ditadura militar.

Não compactuo com atos de violência. Mas admito ser capaz de matar por causa de minha filha, por exemplo, e incapaz de matar por minha própria causa. Vá entender... Bem, os governantes têm o poder, e a polícia tem o poder com armas na mão. Pé sempre atrás. E o povo é aquela massa com a qual se faz o barro da nação, para construir sólidos alicerces ou petardos. 

Ainda não me situei bem quanto a essas manifestações originárias no aumento da passagem de coletivos. Mas estou sempre ao lado dos mais fracos, ando de bengala, quando não estou preso em um engarrafamento. 

Não só a Praça Castro Alves é do povo, todo espaço público pertence ao povo. Não se pode depredar patrimônio público, claro. Infratores devem ser detidos, punidos, mas com a força adequada, jamais excessiva.

Votei contra no plebiscito do desarmamento, eu que jamais tive arma e nem pretendo ter. Mas aprendi na faculdade de Direito que quando o Governo se propõe a retirar qualquer direito do povo devemos ser sempre contra: não se deve entregar direito na bandeja a seo Ninguém. Nem mesmo a dona Dilma.

Sim, umas boas vaias fazem bem ao alisamento da crista. Talvez assim baixe um pouco.

Sim, a inflação está bem mais alta do que dizem os números oficiais.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

SALVADOR, ZONA AZUL (III)


Restaurante bacana no Espaço Gourmet.
Jantar delicioso.
Sobremesa: biscoito de freira...?
- Garçom, isso aqui, biscoito de freira, o que é?
Hesitação.
- É um biscoito aí que tem.
Risadas incontidas, pedido alterado.
A conta, depois. Tudo bem.
(Porra, R$ 7,40 numa long-neck de cerveja sem álcool!!??)
Levantando pra sair:
- É, meu caro, parece que com esse cardápio estamos prontos pra Copa, não?
Foi a vez do garçom rir:
- Até amanhã, doutor.
É, estamos prontos para a Copa, sim.



Imagem: Bol Fotos, Copa e Cia Blog

domingo, 9 de junho de 2013

82, UMA COPA, QUINZE HISTÓRIAS - LANÇAMENTO E VENDAS




  Anotem: dia 20 de junho, quinta-feira, a partir das 19h, no ICBA, Corredor da Vitória, a Casarão do Verbo promoverá o lançamento da coletânea de contos 82, uma copa, quinze histórias. Avisem os amigos, apareçam. Até lá, o livro pode ser comprado nos endereços abaixo. Acho que vou dar uma passada no centro.  

AUTORES BAIANOS [clique aqui]
Faculdade Dois de Julho
Av. Leovigildo Filgueiras, 85, Garcia.
71 3181-9031

LDM
Espaço Itaú de Cinema
Praça Castro Alves, s/n, Centro.
71 3013-4759

SHOPPING CENTER LAPA
Stand de Revistas, 1º piso.

PÉROLA NEGRA [clique aqui]



Preço sugerido: R$ 30 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

UFOBA VIRA UFOB


Riam à vontade, pessoal.

Depois de nosso post "Ufoba é foda", o Governo Federal voltou atrás e mudou a sigla da Universidade Federal do Oeste da Bahia para Ufob (rs...). A sigla da Bahia (BA) foi para o sacrifício por conta do cacófato. E assim a nova universidade perde sua identidade automática, passa a ser aquela "onde fica, mesmo?".

Só não entendi por que não adotaram Ufoesba, se a Universidade Federal do Sul da Bahia ficou com a sigla Ufesba. Ufob é assim meio gozação: Ufo-a e Ufo-b, a voadora desconhecida,  ou Uf-ob, a universidade-absorvente, ou universidade-tampão.

A Ufob (isso deve mudar, ainda, sinto no ar) terá sua sede em Barreiras e campi em Bom Jesus da Lapa, Barra, Santa Maria da Vitória e Luis Eduardo Magalhães. Serão 35 cursos de graduação e pós-graduação, com previsão de atendimento a quase 8 mil estudantes.

Sempre achei que a maior causa de fuga dos interioranos para as grandes cidades é a busca por saúde e educação, e não trabalho ou sonho de riqueza. A educação está chegando ao interior com universidades federais e estaduais. Agora faltam os hospitais, bons hospitais. Como há em São Paulo faz um tempão, o que torna o interior paulista o segundo mercado brasileiro. Isso não é para rir, é coisa das mais sérias.

Agora, Ufob ainda beira o ridículo.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

EM BUSCA DO UNICÓRNIO, Juan Eslava Galán





Vencedor do Prêmio Planeta como melhor romance espanhol de 1987, narrativa deliciosa construída em primeira pessoa, numa linguagem de época que instala o leitor como mais um aventureiro em busca do unicórnio em terras d’África, a mando de D’El-Rey D. Henrique IV, no séc. XV, quando a navegação por mares distantes ainda era segredo de estado. Pois os heróis desse romance empreenderam viagem a cavalo, a camelo, a pé, enfrentando no “país dos negros” o grande areal, as matas fechadas, os rios e animais deles desconhecidos, em busca do poder afrodisíaco do afamado corno. 

Impressiona o trabalho de linguagem, o referencial histórico de suporte (o narrador não é nenhum sábio), o emaranhado de aventuras e o humor extraído da ignorância e da perplexidade de homens comuns diante do desconhecido: coisas, entes e costumes. Uma leitura em que se experimenta o puro prazer que a boa literatura deve trazer aos poucos humanos contemporâneos que ainda a valorizam. 


EM BUSCA DO UNICÓRNIO, Juan Eslava Galán (trad. port. de José Colaço Barreiros), Civilização Brasileira, 1992. Publicado originalmente na coluna Crítica Rasteira, da Verbo21.

Imagem: Bol Fotos, Luccia Lignan

terça-feira, 4 de junho de 2013

RUY ESPINHEIRA FILHO




Aos 70 anos, o poeta maior da Bahia, Ruy Espinheira Filho, continua a produzir boas notícias para a cultura baiana:

1. Seu livro de poemas "A casa dos nove pinheiros" (Dobra Editorial/SP) é semifinalista do prêmio Portugal Telecom.

2. "Estação infinita e outras estações" (Bertrand Brasil/RJ), obra que reúne a produção poética de Ruy até 2012, recentemente lançado, já está com sua segunda edição em preparo, o que indica bom desempenho de vendas nas livrarias.

3. O livro de contos "Andrômeda e outros contos" (Caramurê/BA) foi adotado por alguns colégios de Salvador e já mereceu uma primeira reimpressão para atender a demanda.

Por essas e outras é que não hesito em afirmar que Ruy é o mais importante escritor radicado na Bahia.



Imagem: Bol Fotos, Carlos Souza

domingo, 2 de junho de 2013

CINQUENTINHA DOURADA*


Obama e Dilma
desconhecem Dirlei
em suas brancas alvoradas

por isso se enrolam
e se afundam
em confusões com falsos reis
e lideranças bravas

tivessem Dirlei
em seus estafes
mesmo por um dia
mesmo que por partes
toda questão se resolveria
em festa, em riso, em arte

ou então se embirrassem
Obama e Dilma
com seus opositores
Dirlei não ficaria mal:

organizaria sem falha
com axé e refletores
uma terceira guerra mundial


*(a partir de ideia de Mônica Menezes)

Ontem foi Dirlei que provou uma festa organizada por Bibi e amigas pelos seus cinquentinha de espoleta. Um belo encontro de amizades e emoções. Parabéns a Dirlei pelo amor que espalha e recebe. E a Bibi pela surpresa que orquestrou com êxito por semanas. Tudo dez.

terça-feira, 28 de maio de 2013

82, UMA COPA, QUINZE HISTÓRIAS


Taí a capa da coletânea de contos 82, uma copa, quinze histórias, da qual participo com o conto Jogo de cintura. O lançamento será no dia 20 de junho, no ICBA, Corredor da Vitória (que cantei num conto), aqui em Salvador. Todos os contos tratam daquele fatídico dia em que o Brasil saiu da Copa de 82 ao perder para a Itália por 3 x 2. A organização é de Mayrant Gallo e o livro sai pela editora Casarão do Verbo, a mesma que lançou ano passado a coletânea As baianas.

A capa não poderia ser mais precisa. Essa foto correu mundo, à época, e até hoje a capa do Jornal da Tarde é exibida como exemplo de qualidade jornalística (agora mesmo, por ocasião da morte de Ruy Mesquita, fundador do jornal, a capa com essa foto ilustrou alguns necrológios na tevê). E a orelha, meus amigos, foi escrita por Tostão, um craque nos campos e na crônica esportiva. 

Agora é segurar a ansiedade pelo dia 20, pois logo em seguida teremos na Arena Fonte Nova outro Brasil x Itália. 

Mais informações no blog do livro 82umacopa15historias.blogspot.com, ou pelo link aí ao lado. 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

PATRIMÔNIO, PHILIP ROTH


A leitura de certos romances pode ser muito dolorosa. Ler "Patrimônio", que tem como subtítulo, "uma história real", levou-me a um passado não tão distante ainda, no qual vivenciei experiência semelhante à que Roth narra: acompanhar a decrepitude física do pai até a morte. Terminei hoje pela manhã e até agora ando sorumbático, agindo maquinalmente e pensando em meu pai, que se foi após um longo tempo de prostração e agonia. Pais cuidam de filhos, filhos cuidam dos pais, esta a lei natural, esta a obrigação que o sangue determina, acima de qualquer dificuldade ou veleidade humana. 

 Deixo aqui um trecho que me fez tremer mãos e queixo:

    "Pedi ao médico que me deixasse a sós com meu pai, ou tão a sós quanto era possível em meio à azáfama da sala de emergência. Sentado ali e observando seu combate para continuar a viver, tentei me concentrar no que o tumor já lhe causara. (...) Pensei nos horrores que inevitavelmente viriam pela frente, mesmo supondo que ele pudesse ser mantido vivo num pulmão de aço. Vi tudo, tudo, e mesmo assim tive de continuar sentado lá por um longo tempo antes de chegar o mais perto dele que pude e, com os lábios quase tocando seu rosto encovado e arruinado, finalmente encontrar forças para sussurrar: "Papai, vou ter que deixar você ir embora". Ele já estava inconsciente havia horas e era incapaz de me ouvir, mas, em choque, aturdido, chorando, repeti aquilo muitas e muitas vezes até eu mesmo acreditar no que dizia.
     Depois disso, só me restou seguir sua maca até o quarto onde o puseram e me sentar ao lado da cama. Morrer dá trabalho, e ele era um trabalhador. Morrer é pavoroso, e papai estava morrendo. Peguei sua mão, que ao menos eu ainda sentia como sendo sua mão, afaguei sua testa, que ao menos ainda parecia ser sua testa, e lhe disse todo tipo de coisas que ele não podia mais registrar. Por sorte, de tudo que eu lhe disse nessa manhã, nada havia que ele já não soubesse."

Patrimônio, Philip Roth, tradução de Jorio Dauster, Cia das Letras, 2012,
Imagem: Philip Roth, Bol Fotos

sábado, 25 de maio de 2013

TRILOGIA "USA", JOHN DOS PASSOS





Paralelo 42, 1919 e O grande capital, são os títulos dos três volumes. Mais de duas mil páginas de prosa irretocável. Um monumento literário inquestionável. Passos nos apresenta em profundidade a vida dos trabalhadores do campo, dos das cidades, e dos magnatas; a indústria produzindo bens populares, os milhões de dólares, o proletariado; os grandes inventores, os banqueiros, os artistas; a grande guerra, o caipira no velho mundo, o preparo do império; as negociatas da guerra, as relações públicas imprescindíveis, o saber viver; a revolução bolchevique, as greves e os comícios, o jogo da bolsa de valores. 

Segmentado em “o jornal da tela” (flashes jornalísticos da época), “o olho da câmera” (o lirismo de vozes desconhecidas), perfis biográficos e as aventuras cruzadas de personagens emblemáticos, a trilogia USA expõe as vísceras daquele país em seu processo de construção interna, de afirmação no cenário mundial, de expansão imperialista. E revela a luta intestina de classes que produziu muita miséria e mortes e, também, o tecido devorador de almas da corrupção cotidiana. Descendente de portugueses, John dos Passos afirmou-se com a trilogia USA como um dos mais importantes escritores do séc. XX. 

USA (trilogia), John dos Passos (trad. de Marcos Santarrita), Benvirá, 2012

Foto: John dos Passos, Bol Fotos

quinta-feira, 23 de maio de 2013

SALVADOR, ZONA AZUL (2)


Depois das chuvas a buraqueira toma conta das ruas. Dizem que um buraco na Av. Paralela detonou pneus de 50 automóveis num só dia. A culpa naturalmente é da chuva, da chuva, da chuva...

Todo ano a mesma história se repete. E os cofres públicos sangram dezenas de milhões de reais na operação tapa-buraco. 

Quanto representa de despesa pública a manutenção anual do metro quadrado de uma pavimentação em paralelepípedo?

Calçamentos seculares (suspeito que alguns sejam milenares) de paralelepípedo são preservados em cidades europeias. Aqui desprezamos paralelepípedos. Onde havia, foram cobertos com um asfalto de quinta categoria. E esse asfalto, sabemos todos, exige recapeamento e tapação de buracos anuais, talvez semestrais. 

Ruas não são pistas de corrida, não precisam oferecer rolamento precioso e preciso aos automóveis. O argumento de que a trepidação estraga isso e aquilo do carro vai buraco abaixo com o asfalto que temos. Apaga, inventa outro.

Talvez sejamos ricos demais para rasgar dinheiro velho na chuva.

Talvez, na verdade, o lobby empresarial esteja acima dessas questões.

Quanto custa mesmo a manutenção anual de um metro quadrado de rua em paralelepípedo?


Foto: Portal A Tarde

quarta-feira, 22 de maio de 2013

SEDE


faz um tempo
que sinto trabalhar em mim
vontades de matar

aos poucos 
por estripamento
feito o pistoleiro de Herberto

talvez seja hora de morrer

segunda-feira, 20 de maio de 2013

LITERATURA E FUTEBOL


Então a bola vai rolar. O técnico já escalou o time e definiu o esquema tático. A estratégia de jogo vai sendo revelada aos poucos. 

Partida importante, trato cuidadoso, um certo mistério, muita expectativa. A bola vai rolar em junho, sabe-se agora. Falta pouco, falta pouco.

82, uma copa, quinze histórias, sai pela editora Casarão do Verbo com organização de Mayrant Gallo. Visitem o hot-blog do livro pelo link aí ao lado, ou digitem na barra de endereços:       82umacopa15historias.blogspot.com

Conheça no hot-blog quem são os autores e faça o aquecimento com textos e videos sobre a famigerada Copa de 82 e sua tragédia brasileira.

Jogo de cintura, minha contribuição.

domingo, 19 de maio de 2013

LUGAR COMUM


Quebrangulo, Itabira,
Cordisburgo,
Stratford-upon-Avon
e algum lugar denominado berço,
dizem do coração,
da pedra lima
e da geometria elástica
de nossa desventura

a humana coisa
se faz
num átimo delirante
de um lugar anônimo
por improváveis mãos
para uma desconhecida solidão
vagante

quinta-feira, 16 de maio de 2013

LANÇAMENTO "ESTAÇÃO INFINITA", RUY ESPINHEIRA FILHO




Próximo sábado, 18 de maio, entre 10 e 14h, teremos a oportunidade de conhecer o novo livro de Ruy Espinheira Filho, "Estação Infinita e outras estações", publicado pela editora Bertrand Brasil. Estaremos lá para esse grande evento. Anotem: Livraria Multicampi, LDM, Espaço Itaú, Praça Castro Alves, Salvador, BA. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

ANIVERSÁRIO

mesmo nesse dia
chove em teus verdes vales

e teu peito transborda
enxurrada materna

e exatamente por isso
ainda nesse dia
passas a noite numa emergência hospitalar

tua festa assim se desdobra
em rugas
e silêncios abissais

mesmo nesse dia
abres o leque de renúncias
e tua alma decanta
um sonho antigo

enquanto a chuva desce
por teus verdes vales


segunda-feira, 13 de maio de 2013

CARTAS BAHIANAS, LANÇAMENTO


A P55 e os autores convidam para o lançamento de "Trem de risco", de Ana Bárbara Sousa, e "Muadié Maria", de Martha Galrão, cujo blogue pode ser acessado aí ao lado. O evento acontecerá amanhã, 14.05, no restaurante Confraria do França (antigo ExTudo), na rua Lídio de Mesquita, 04, Rio Vermelho, a partir das 19h. Sucesso! 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A MÁQUINA DE MADEIRA, MIGUEL SANCHES NETO


                                 A MÁQUINA DE MADEIRA, Miguel Sanches Neto, Companhia das Letras, 2012.

O padre sonhador materializa seu sonho. Julga que irá mudar o mundo com a máquina de taquigrafia. O registro dos sermões, das sessões parlamentares, facilitados. Então, na exposição nacional de 1861, perguntam-lhe: “Qual o valor do seu produto?” O produto do sonho pode pertencer a esse tempo, mas não o sujeito que sonha, que jamais pensa no valor comercial de sua criação. O padre sonhador não sabia que o valor desejado era diverso do seu. 

Houve uma infância brasileira, uma juventude, e de lá saltamos para o caquetismo atual, sem passar pela maturidade. Queimamos madeira, poluímos a água, produzimos sonhos sem valor algum até serem apropriados por alienígenas. Um padre, um homem que sonhava, que amava a escrava que comprou e libertou, um que inventou a máquina de escrita antes de ela ser patenteada pelos gringos. História mais brasileira, impossível. Romance histórico, painel de uma época, interessante viagem ao que nunca deixamos de ser. Nós, os que jamais sabemos o valor do nosso produto, do nosso sonho.


Publicado originalmente na revista eletrônica Verbo 21 (www.verbo21.com.br), edição de abril 2013.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

SALVADOR, ZONA AZUL


O flanelinha me apresenta a nova cartela de estacionamento:
 Agora é três reais, doutor, tá vendo aqui?
Vi, realmente, três reais cintilando na azulzinha.
 Parece que não teve jeito, né? O prefeito botou pra arrebentar, dobrou o preço.
O flanelinha, aqui chamado por alguns de guardador, deu um risinho:
 É, mas pra nós aumentou só 10 centavos.
 Como assim?  dessa vez não guardei na bochecha a perplexidade.  Quando era 1,50 vocês não tiravam a metade, 75 centavos?
Foi aí que o suado flanelinha me mostrou um papelucho com anotações a caneta:
 Tirava. Mas olha aqui, doutor, na cartela de três reais a gente deixa agora na prefeitura 2,15. Portanto, a gente tira agora somente 85 centavos na cartela de três, um aumento de 10 centavos. E a gente torrando neste sol...
Esta a lição do liberalismo baiano: 100% de aumento na despesa do usuário da classe média, quase 200% de aumento no faturamento da prefeitura e meros 10 centavos, pouco mais de 10% de aumento pro trabalhador.
Agora, tirem uma linha, como dizia minha mãe.