sábado, 30 de março de 2013

REENCARNAÇÃO


na próxima encarnação
quero nascer sulista

nada de voltar nordestino
nem mesmo nortista:
esses morrem aos milhares,
em silêncio, todo ano,
de mazelas seculares,
desnutrição e ausência
de saneamento e hospitais

isso quando a seca ou a enchente
deixa alguma testemunha
pra carpir nos funerais

atenção,
nada de voltar serrano
muito menos favelado:
esses morrem sem cessar,
com certa divulgação,
de bala nunca perdida,
de arrastão de encostas
em enxurradas de argila

quero voltar sulista,
em sua melhor acepção

por certo assim terei,
no dia em que eu for notícia,
alguma autoridade bacana
que vele e chore por mim
em rede de televisão

sexta-feira, 29 de março de 2013

CRISTOS (JOVENS) CRUCIFICADOS


[...]
somos (cristos) jovens crucificados
sentados à mesa posta ao ponto exato
das exigências da etiqueta
dos protetores olhares, das canecas de prata
das mãos calejadas, dos brancos cabelos
das falas agoniadas
jovens e crucificados
nos acomodando aos pregos das cadeiras
aos cabos dos talheres

somos (cristos) jovens crucificados
na bebida espumante e nos risos soltos
nos bares de fumaça e calções
na saliva fácil das línguas expostas
olhando sem alvo fixo nem pensado, aguardando

somos (cristos) jovens crucificados
quandos nos fitamos
quando queremos
quando não podemos, sempre

cristos, jovens, crucificados
inesquecíveis



Lembro hoje, sexta-feira santa, esse poema de juventude que incluí em meu livrinho "Água de cacimba", de 1998. Escrito em meus dezoito, dezenove anos, quando o Brasil vivia ainda o período duro, em Geisel, da ditadura militar. Houve um tempo em que ser jovem era "não poder". Contemporaneamente, ser jovem é possuir todo o poder. Não se sentam mais à mesa e passam longe da cruz, onde fincaram os pais. Serão inesquecíveis?

quarta-feira, 27 de março de 2013

LIVRO DE SAN MICHELE, II


Em dezembro de 2010 publiquei aqui um comentário sobre minha leitura de "O livro de San Michele", de autoria do médico sueco Axel Munthe. O livro foi sucesso mundial décadas atrás e hoje só pode ser encontrado em sebos, em antigas edições. Meu exemplar é da 14a. edição tirada pela Ed. Globo, datada de 1979.  

Lembro esse post por algo que me impressiona: todas as semanas, desde então, aparece na estatística como um dos posts mais lidos, quase sempre o post mais lido do blogue. E aquele que tem comentários de pessoas que não fazem parte do meu círculo de amizades e de frequentadores mais assíduos deste espaço. Hoje, alcançou a marca de 1.081 acessos diretos, de cerca de 17.600 acessos que o blogue teve em toda sua existência, 6,14% das visitas. E a maioria, penso eu, chega ao meu texto por sites de busca, usando o nome do autor e o título do livro.  

Lúcia Constantino comentou: "Parece que esse livro mágico escolhe cuidadosamente as pessoas que irão lê-lo, apreciá-lo, dar-lhe o devido valor."  

José Maria Couto Pereira escreveu: "Axel escreveu um poema de vida, as atribulações de um médico conhecedor da alma humana mais do que o corpo. É um relatório de seu sacerdócio, é um romance, é uma enciclopédia de ética. É uma sucessão de grandes emoções."

Com tamanho interesse de público, passa da hora de uma editora (Ed. Globo?) lançar nova edição desse livro excepcional. 

Fotos: Ruy Espinheira Filho e Maria da Paixão - a entrada, a cozinha e a varanda sobre o abismo da  casa recriada por Axel Munthe em Anacapri, San Michele.
 

domingo, 24 de março de 2013

FACE


grita meu sangue na tarde
cosmopolita
ninguém responde
apenas cantam pneus
no cruzamento da avenida

minha filha doma o tempo
a cada presente que abre
na noite morna
minha filha sabe o que vero importa

quando menos se espera
tudo simplesmente prossegue 

amanhã abrirei meu coração
a uma estranha e fria máquina
talvez disso resulte
um tardio pedido de casamento

grita meu sangue na soturna vigília
tenho vinho na taça
e o forno aceso
onde borbulha uma fatia de pizza

jamais possuí uma rima
ou uma quadra solene
certa imagem me persegue:
gotas do meu mijo na face do rio
num festim de peroladas sementes

prosseguirá meu sonho inacabado
amanhã não saberá de hoje
algo que sirva a um brinde
nem que preste a um bocejo de enfado


quarta-feira, 20 de março de 2013

O FILHO DE MIL HOMENS, VALTER HUGO MÃE

http://www.staurus.com.br/images/detailed/1/o_filho_de_mil_homens_valter_hugo_mae.jpg



Há, neste mundo, quem queira ter filhos. E quem clame por um pai ou mãe ou substitutos. Há carência amorosa e de cuidados na aldeia global. E há quem “pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende”. E assim as histórias se contam aos montes e trasmontanamente. Poucos, porém, com o talento de Hugo Mãe. Depois de “A máquina de fazer espanhóis”, não causa surpresa a costura narrativa desse novo romance. Nada de intrincado, apenas respeitoso com a carga de carências de cada personagem, com a inteligência do leitor. Na beira do mar os elementos primordiais se encontram. Os restos de naufrágios, também. Um pescador solitário, uma anã grávida de quinze homens, um órfão, uma galinha gigante, um homem maricas, uma mulher sem valia de virgindade, aos poucos e por partes, podem formar uma família, um desmesurado barco para a tormentosa vida. A realidade assim ensina.


Esse comentário sobre O FILHO DE MIL HOMENS, de autoria do escritor angolano/português Valter Hugo Mãe, publicado pela CosacNaify, em 2011, está na edição de fevereiro da revista eletrônica Verbo21 (verbo21.com.br), na coluna Crítica Rasteira.

Imagem: Bol Fotos.

segunda-feira, 18 de março de 2013

COTIDIANO


todo dia
tomo uma dose de corticóide
um anti-hipertensivo
e dois comprimidos para o combate à gota

todo dia
despejo em meu olhos gotas
de dois colírios para prevenir glaucoma
de manhã e de noite

todo dia leio, durante horas, a melhor literatura

toda semana
mando pro bucho quinze miligramas de metotrexato
quimioterápico que se presta, em dose pequena assim,
a reduzir a inflamação das juntas

a cada quinze dias
aplico eu mesmo a injeção de adalimumabe
no modo subcutâneo

entre uma dose e outra
viajo ao amor incondicional de minha filha
me espalho no calor daquela que a mim o seu querer entrega
respiro minha família
persigo a frase que dirá belamente certa façanha do herói
depois outra que a iguale ou a supere
aprumado sempre na trilha dos meus amigos-mestres

e por  assim palpitar
meu animado cotidiano
nada me diz que importe difamação ou desmerecimento
que em verdade difamam e desmerecem aqueles
tristes irmanados elementos
de qualquer que seja o poder babugentos

domingo, 17 de março de 2013

ISADORA DUNCAN POR JOHN DOS PASSOS



 http://3.bp.blogspot.com/-4mXpbDSjO9M/TesbbmvePsI/AAAAAAAAAj8/a5vkOx0c864/s1600/iduncan_1.jpg    http://4.bp.blogspot.com/-HMhpI0xfKxg/UNg4J_PECoI/AAAAAAAAIJo/5gRCXuc8yIg/s640/bizarre-deaths-isadora-duncan.jpg

          Um dia, num pequeno restaurante em Golfe Juan, ela pegou um carcamano bonito que tinha uma garagem e dirigia um pequeno Bugatti de corrida.
          Dizendo que talvez comprasse o carro, ela o fez ir ao seu estúdio pegá-la para um passeio;
        os amigos não queriam que ela fosse, disseram que ele não passava de um simples mecânico; ela insistiu, tinha tomado alguns tragos (não restava mais nada que lhe importasse no mundo além de uns tragos e um rapaz bonito);
          entrou ao lado dele e
          jogou a echarpe de pesadas franjas no pescoço com um gesto largo todo seu e
          voltou-se e disse,
          com o forte sotaque da Califórnia que seu francês jamais perdera:
          Adieu, mes amis, je vais à la gloire.
          O mecânico engrenou o carro e partiu.
       A pesada cauda da echarpe enganchou-se numa roda, enrolou-se com força. A cabeça foi puxada contra o lado do carro, que parou no mesmo instante; o pescoço dela partira-se, o nariz fora esmagado, Isadora estava morta.



Esse, o trecho final do pequeno perfil biográfico de Isadora Duncan, intitulado "A arte e Isadora", posto como capítulo de "O grande capital", do escritor norte-americano de ascendência portuguesa John dos Passos. A trilogia "USA" apresenta vários perfis biográficos, em prosa poética, de personalidades consideradas pelo autor representativas do final do séc. XIX até as portas da Grande Depressão. Monumento literario único e insuperável.

Imagens: Bol Fotos/Google Images

sexta-feira, 15 de março de 2013

PAPA: NOVA ORDEM


A ideia me veio de chofre: a eleição de um Papa de 76 anos indica uma Nova Ordem na sucessão papal. 

Em uma instituição milenar, multinacional desde os primórdios, prenhe de homens doutos, as decisões são sempre planejadas, não podem resultar de golpes de sorte ou azar.  Embora garantam ser escolha direta de Deus.
 
Mas,  que Nova Ordem seria essa?

Primeiro: a sucessão papal deve se dar mais amiúde. 

Segundo: a renúncia papal deve ser medida costumeira sempre que o Papa adoecer grave e cronicamente.

Por consequência, o Papa a ser eleito deve ter idade aí pelos 75 anos.

Mas por que isso?

Porque o Vaticano mobiliza a mídia mundial durante semanas, de forma positiva e expectante, a cada conclave para a eleição de um novo Papa; a mídia e a população global, nos mais distantes rincões.

A exposição obtida em forma de propaganda gratuita, em mercado global, corresponde a um investimento de, imagino por baixo, centenas de trilhões de dólares, a se considerar a quantidade de veículos de comunicação (tv, rádio, internet, jornal, revistas etc.) e as horas de cobertura ao vivo e em gravado e entrevistas com especialistas e mesas de debate. Algo precioso demais para ser ignorado pela inteligência da Igreja Católica.

Nada mais adequado aos interesses de crescimento e fortalecimento da Igreja Católica, portanto, que ter um novo Papa a cada, digamos, 8 ou 10 anos, um período equivalente ao de um presidente eleito e reeleito.

Por isso será preciso eleger amiúde um novo Papa com idade já avançada, como o Papa Francisco. Nada de Papas sessentões, joviais, longevos, reformistas animados.

Por isso mesmo a renúncia entrou na rotina papal para não mais sair e ser usada sempre que o Papa em exercício perder sua "funcionalidade".

Parece ser esse o projeto inaugurado (e pensado?) por Bento XVI.

Em 2020 talvez tenhamos um novo conclave, do qual emergirá um Papa eurasiano setentão.

Será? Essa é uma ideia horrorosa ou plausível? 

Eu, que sou um cinquentão, talvez não veja nada disso acontecer. Tudo talvez não passe mesmo de golpes de sorte, de azar, de vento, de estado, Divino.

quarta-feira, 13 de março de 2013

ELA


Lembro o movimento
mavioso do braço
levando a mão sutil
ao cabelo que descia
pela face dulcífera

Lembro o meneio da cabeça
o leve torção do pescoço
e a mão, aquela, 
a suspender o cabelo, 
revelando de novo
certa face de encanto

Lembro o escorrego da mão
depois de largar o cabelo
preso atrás da fina orelha
e a inclinação majestosa
da cabeça angelical,

Lembro aquela face toda exposta, 
face que quis beijar na hora
e que ainda hoje quero beijar
multiplicada em poros
por toda ela dulcífera,
angelical, de encantos majestosa

segunda-feira, 11 de março de 2013

TEMPO DE LEITURA


Tenho lido muito nos últimos meses. E publicado aqui comentários sobre alguns dos livros lidos. Hoje mesmo fechei o segundo volume da triologia "USA", de John dos Passos, intitulado "1919", iniciado tão logo devorei o primeiro, "Paralelo 42". Cerca de 1.130 páginas, os dois reunidos. Falta agora o terceiro volume, "O grande capital", cujo encontro se dará em breve, tão logo Ruy Espinheira Filho mo empreste. Falarei sobre a trilogia, adiante. Monumental é o mínimo que posso dizer, no melhor sentido do termo.

Agora, inspirado pelo texto do Franzen, publicado anteriormente, pensei em livros que me seduziram e que ainda hoje volto a ler, por puro prazer do reencontro e do aconchego amigo. Não se trata de lista valorativa, mas de relação de livros que representam meu núcleo de interesse como leitor e que, adotando o conceito de Franzen, devo defender em minha literatura, mesmo que intuitivamente, sem planejamento prévio.

O engenhoso fidaldo dom Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes;
A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy - Laurence Sterne;
Crime e castigo e Os irmãos Karamázov - Dostoiévsky;
As tragédias - Shakespeare;
Os trabalhadores do mar e Os miseráveis - Victor Hugo;
Os três mosqueteiros - Alexandre Dumas;
Ulisses - James Joyce;
O velho e o mar - Hemingway;
Macunaíma - Mário de Andrade;
Grande sertão: veredas e Sagarana - João Guimarães Rosa;
A morte e a morte de Quincas Berro d'Água - Jorge Amado;
Crônica da casa assassinada - Lúcio Cardoso;
Enquanto agonizo e Palmeiras selvagens - William Faulkner;
Obra completa - C. D. de Andrade e Manuel Bandeira;
Cem anos de solidão - G. G. Marquez;

Claro que há autores e livros contemporâneos que muito me impressionam. A poesia de Ruy Espinheira Filho, por exemplo, tem sido objeto de muitas leituras ultimamente. Mas essa é uma lista em que não incluí contemporâneos. E em que há pacotes, como os de Shakespeare, Drummond e Bandeira.

Antecipo, por óbvio, que estou certo de ter esquecido algum livro importante para mim como leitor e escritor. É natural, sempre acontece quando se faz bobagens desse naipe. Ao reler a lista, comecei a duvidar desse e daquele título etc. Então, vou parar por aqui.

Acrescentei um título à lista, o que prova a inutilidade de se fazer esse tipo de coisa.

sábado, 9 de março de 2013

COMO FICAR SOZINHO, II

http://www.companhiadasletras.com.br/images/livros/13289_g.jpg

"Quando escrevo, não me sinto um artesão influenciado por artesãos do passado que eram, eles mesmos, influenciados por artesãos ainda mais remotos. Sinto-me membro de uma única e grande comunidade virtual na qual mantenho relações dinâmicas com outros membros da comunidade, sendo que a maioria deles não está mais viva. Como em qualquer outra comunidade, tenho meus amigos e tenho meus inimigos. Descubro meus próprios caminhos até chegar àqueles recantos do mundo da ficção onde fico mais à vontade, onde, entre amigos, me sinto seguro, mas também estimulado. Uma vez que já li livros suficientes para saber quem são esses amigos -  e aí é que entra o processo de seleção ativa do jovem escritor, o processo de escolher por quem será influenciado  -, trabalho para antecipar nossos interesses em comum. Ao escrever o quê e como escrevo, luto a favor dos meus amigos e contra meus inimigos. Quero que mais leitores apreciem a glória dos russos do século XIX; sou indiferente ao fato de leitores gostarem ou não de James Joyce; e meu trabalho representa uma campanha ativa contra os valores de que não gosto: sentimentalidade, narrativa débil, prosa abertamente lírica, solipsismo, autocomplacência, misoginia e outros provincianismos, jogos de palavras estéreis, didatismo patente, simplicidade moral, dificuldade desnecessária, fetiches de informação, e por aí vai. Na realidade, muito do que pode ser chamado de "influência" é negativo: não quero ser como este ou aquele escritor."


Aí está um trecho do ensaio "Sobre ficção autobiográfica", do livro "Como ficar sozinho", do Jonathan Franzen. Destaco pelo que tem de importante, não somente na definição do autor e de sua obra mas como material de reflexão para quem pretende ou já escreve. Ao apontar alguns dos valores que não aprecia e contra os quais luta em sua literatura, Franzen revela muito do que se tem visto na literatura contemprânea brasileira que faz sucesso de crítica.



Imagem: Bol Fotos

terça-feira, 5 de março de 2013

FRANCISCO CARVALHO, POETA MAIOR




Recebo a notícia da morte de Francisco Carvalho, pelo site Poesia Net, editado pelo poeta Carlos Machado. Leio no site do jornal O Povo que Carvalho morreu por falência múltipla dos órgãos na madrugada deste 5 de março, aos 86 anos de idade.

Estendo a mão e colho na estante o volume "Memórias do espantalho", que adquiri na perdida livraria Grandes Autores. Desde que conheci o trabalho de Francisco Carvalho, sempre volto à sua poesia com a certeza de novas descobertas e alumbramentos. E diante da monumental obra, prenhe de poemas memoráveis, opto por copiar do Poesia Net este poema:

RECATO
 
Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.
Que as traças o devorem sem deixar
o mais débil vestígio de tua humanidade.

O que pensas do amor, da vida e da morte
não interessa a ninguém.
Todos estão demasiadamente distraídos
e preocupados com as precárias
liberdades do corpo e as metamorfoses da alma.

Digam o que disserem os graves e os cínicos
os bêbados e os bastardos
os que te cumprimentam todas as manhãs
com mentirosa cordialidade...
— Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.


De minha parte, os poemas de Francisco Carvalho estarão sempre à mão para deleite da alma. Que receba todas as homenagens merecidas e possíveis. Que seu nome seja sempre lembrado como um dos grandes poetas brasileiros de todos os tempos. 

Foto: jornal O Povo