sexta-feira, 1 de novembro de 2019

ELENA FERRANTE E MÔNICA MENEZES EM SINTONIA


   Leio que o novo livro de Elena Ferrante será lançado ainda este ano na Itália. E que não tem editora nem previsão de data para lançamento no Brasil. "La vita bugiarda degli adulti", com tradução livre para o português "A vida mentirosa dos adultos", é o título de mais uma narrativa que a autora ambienta em Nápoles, sua terra natal, a despeito de ser desconhecida sua verdadeira identidade.
 
   Pois bem, o material de divulgação de "La vita bugiarda..." adianta a primeira frase do romance: 
   
   "Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse a minha mãe que eu era muito feia". 

   Ao ler a frase, de imediato a associei ao poema "Eleição", de Mônica Menezes, pela voz feminina acusadora de um golpe terrível, a pecha de ser feia, que tem origem em um ser mais que amado, um dos genitores; no caso do romance de Elena Ferrante, o pai, e no poema de Mônica Menezes, a mãe. Leiamos o poema em sua versão publicada no blog da autora, "Estranhamentos", no dia 08 de janeiro de 2011:

   ELEIÇÃO

   o anel, a flor, o poema
   tudo isso tão bonito
   todavia o que ecoa mesmo
   no fundo mais fundo da alma
   são as palavras-lâmina da mãe
   sussurradas no quarto ao lado
   naquela madrugada de setembro
   elegendo-a
   para sempre
   a menina mais feia da casa

   Um poema poderoso, sem dúvida. Toda vez que o leio, sinto as palavras rasgando o tecido dessa alma sensível, marcando-a eternamente com um epíteto naturalmente injusto; sinto um transbordo emocional inevitável e reconheço no poema a arte de uma poeta de superlativa qualidade, de  indiscutível talento para o burilamento e condução de temas preciosos à condição humana. Precisava fazer esse registro, pois fui alcançado por essa sincronia criativa de duas autoras que muito aprecio e recomendo. 

   Aguardemos, portanto, o lançamento do novo livro da Elena Ferrante. Enquanto isso, confiram mais poemas de Mônica Menezes no blog "Estranhamentos", listado aí ao lado, e no "Profundanças 3", coletânea virtual publicada pela Voo Audiovisual, que teve organização de Daniela Galdino, onde "Eleição" se faz presente, que pode ser baixado gratuitamento em http://vooaudiovisual.com.br/projects/profundancas3/


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

SÃO FRANCISCO: O SANTO, O RIO E O GÊNIO

 


    O rio é chamado de São Francisco porque sua foz foi encontrada pela expedição portuguesa que fazia o reconhecimento do litoral da nova terra, a mando d'El Rei de Portugal, no dia consagrado ao santo dos pobres. Américo Vespúcio era o cartógrafo, foi quem anotou lá a existência do grande rio, naquele 04 de outubro de 1501. 
       
    De lá até os dias que sofremos na pele, o rio São Francisco foi o Rio dos Currais por todo o período colonial e o rio da Integração Nacional já na República, quando os vapores navegavam entre Juazeiro e Pirapora. Atualmente, entulhado em vários trechos, já não serve à navegação, mas como reserva para geração de energia elétrica e irrigação das grandes lavouras. Sem falar no sangramento a que o submetem para abastecer os tais canais... bem, deixemos isso de lado. 

   Quero lembrar aqui algo que relatei no romance "Beira de rio, correnteza", páginas 134/6:

   Naquele mesmo porto, chamado de Boca da Barra, pouco mais de cem anos antes, um diplomata inglês em serviço no Brasil, Richard Francis Burton, Sir, desembarcava no começo de um dia ensolarado. Era um preciso e festejado dia Quatro de Outubro, aniversário de achamento do rio e data comemorativa do santo que o nomeia, coincidência que merece particular e futura apreciação.

   [...] Burton era figura ímpar. Geógrafo, cartógrafo, explorador, linguista, escritor, tradutor, diplomata e espião da Rainha da Inglaterra. Um renascentista e viajante inveterado. Em Bom Jardim, ocupou-se parte do dia em andanças pelo arraial e arredores, em conversações com o povo e a fazer anotações, fato em nada espantoso pois Burton dominava a língua, tendo passado temporada em Goa, então possessão portuguesa na Índia. Adotava como prática a imersão na cultura do povo que visitava. Comia de sua comida, bebia de sua bebida.

    As anotações que fez em Bom Jardim, nos idos de 1860, Burton reuniu no livro que publicou sob o título "Viagem de canoa de Sabará ao Atlântico", editado no Brasil pela Editora Itatiaia. Resumi no romance os registros mais importantes que Burton fez sobre Bom Jardim, nossa Ibotirama, quando ali passou um dia inteiro, o dia 04 de outubro, um dia como o de hoje. À noite daquele dia, Burton desceu até a altura do Barro Alto, onde acampou e promoveu batuques e farra com os nativos, sujeito sábio. Disse muita coisa sobre a carnaúba e sobre cada lugar que lhe mereceu passagem e atenção. 

    Mas de tudo ficou aquele 04 de Outubro, dia do Santo, dia do Rio, dia em que o genial inglês, primeiro tradutor para o ocidente das "Mil e uma noites", o homem que conduziu a expedição em busca da nascente do rio Nilo (vejam o filme "Nas montanhas da lua"), esse incrível cientista nos visitou e tão bons augúrios fez ao nosso futuro. Que se cumpram, e que não seja tarde para nós e para o rio.

    

terça-feira, 24 de setembro de 2019

24 DE SETEMBRO 1969, QUARTA-FEIRA, O DIA DA MORTE



   Como aquele dia chegou e amanheceu, não faço a menor ideia. Sei que ficamos no Posto de Saúde até altas horas e que retornamos para nossa casa a granel, em momentos variados, pelo escuro das ruas, pois em Ibotirama a luz elétrica, então, era a diesel e desligada às 22:30h. Talvez eu tenha dormido pesado, menino que era, assustado que estava, esgotado por cansaços diversos, talvez.

   Daquele começo de manhã de quarta-feira nada recordo que sirva a esta contação, a não ser de minha figura mirrada descendo a rua 1º de Janeiro a responder pessoas sobre o estado de saúde do meu irmão: "Na mesma, na mesma." E depois retornando ao Posto e depois em casa novamente. Era primavera lá fora e o mais gélido outono possuía o nº 3 da travessa Nossa Senhora da Guia. Sim, lembro do meu pai, em algum momento daquele dia, de barba por fazer e cenho absolutamente fechado, chapéu nas mãos, num silêncio insuperável. E da casa ficando atopetada de gente em providências arrepiantes.

   E foi de uma maneira seca feito um raio sobre nossa cabeça que, por volta das 11h, meu pai irrompeu em casa e disse: "Ele morreu".  A partir de então, minha mãe prostrou-se na cama do casal aos gritos e em pranto, ou em pranto entrecortado por gritos. Minha irmã e eu agarrados a ela, num chorar desmedido, tentávamos dar-lhe algum consolo, fazendo promessas de bom comportamento. Havia aquela câmara dolorosa que abrigava minha mãe e pelo resto da casa uma agitação de preparo do velório. Tudo pra mim era espantoso e inédito. E muito tempo depois reviveria aquele ambiente, naquela mesma casa, quando eu mesmo conduzi os preparativos para os velórios de meus pais. Aquela casa jamais me abandonará.

   Desse cenário, salto para a igreja lotada, a multidão ocupando o adro, escadarias e parte da praça, a cidade inteira ali presente. Vejo o caixão aberto, o rosto macerado de Nelsinho, os chumaços de algodão sobressaindo da pele morena e dos hematomas, as centenas de ginasianos fardados, e depois dos colegas mais próximos carregando o caixão, em revezamento, até o cemitério. Eu me espremia entre o povaréu, procurando ficar próximo do caixão, na longa jornada até o túmulo aberto. Lá, o caixão repousaria sobre o montículo de terra retirada, enquanto o sol nos abandonava de chofre, e o prefeito, meu padrinho Eládio Almeida Pinto, fazia o discurso de louvação do jovem estudante morto, do craque de futebol que o nosso futuro perdia, do filho muito amado de seus compadres. Lembro, lembro, lembro...

   Cinquenta absurdos anos se passaram. Vez em quando bate essa emoção retada e incontornável. Meus onze anos de então incorporaram esses cinquenta na marra. Toda sorte de tropelia me acometeu de lá pra cá e mesmo assim tenho resistido, pois resistir foi a parte que me coube. Saibam que, quando minha hora for construída e alcançada, quero depois virar cinzas. E se não for dar trabalho demais a quem ficar, que se me espalhem no meio do rio São Francisco, em frente ao cais de Bom Jardim, a Ibotirama falada. Adianto que só serve se for no meio do rio, onde não dá pé, que é sempre o melhor jeito de navegar.


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

23 DE SETEMBRO 1969, TERÇA-FEIRA, O DIA DO ACIDENTE


   Jantávamos cedo lá em casa. Uma mistura de sobras do almoço e café com leite, acompanhados de cuscuz, beiju, aipim, batata doce, essas iguarias da mesa sertaneja. Éramos beiradeiros que raramente comiam peixe: minha mãe passou mal, certa feita, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. E assim tangíamos o tempo, entre sol e lua, alimpando o terreiro de nossa exígua existência.

   Nelsinho possuía um porta-objetos fixado na parede de nosso quarto. Ele mesmo havia feito com sobras de madeira e pintado com uma paisagem de colina e coqueiros. Ali ficavam a escova de dentes, o desodorante e o creme pra cabelo Trim.  Foi de cabelo engomado e cheirando a Rastro que deixou nossa casa para ir até a praça da igreja encontrar-se com a namoradinha. Era pra ter sido assim, algo corriqueiro.

   Mas deu-se que topou com um caminhão de gado, guiado por um admirador, que lhe ofereceu carona. Nelsinho não quis subir na boleia. Por que não, se estava enfatiotado para encontro amoroso? Talvez por sua natureza aventureira, seu arrojo natural, Nelsinho galgou a carroceria e sentou-se no alto da gaiola, tomando vento... e o que mais? Não sabemos, ninguém veio nos dizer desses momentos que antecederam a queda. 

   E o caminhão subiu a rua 1º de Janeiro, contornou rente a lateral da igreja e bordejou o jardim. Por que Nelsinho não desceu ali, se o jardim era o seu destino? Talvez estivesse cedo e a namoradinha ainda não se fizesse presente, ignoramos. Fato é que ele seguiu trepado no alto da gaiola do caminhão de gado. O motorista bem que poderia ter contornado mais uma vez na outra extremidade da praça, retornando pelo lado oposto, mas não, decidiu seguir para a pracinha do cais. E para chegar na praça do cais era preciso passar pelo beco de Seo Artur Matias.

   E foi ali, na entrada do beco, que se deu o baque. Cruzava o beco a fiação elétrica, e os postes de madeira não eram tão altos como os atuais. O caminhão entrou no beco e quando sua carroceria já desaparecia das vistas de quem observasse de um banco da praça, um corpo caiu de lá de cima no chão duro. O fio mais baixo alcançou o pescoço de Nelsinho, derrubando-o do alto da gaiola. Gritos, o caminhão para, enquanto Nelsinho levantava-se do chão, sacudindo a areia da roupa. Dá pra ver as pessoas acudindo-o, ele recusando apoio, sentindo aos poucos as dores todas avançarem por seu corpo e juízo adentro.

   Mesmo nesse estado, Nelsinho foi a pé, por toda a praça da igreja, a maior da cidade, até o Posto de Saúde. Lá, já meio tonto, tiraram-lhe a roupa e lhe deram um banho de mangueira no fundo do prédio. E depois o levaram até um quarto, onde o médico da cidade veio lhe medicar. Enquanto isso, o povo corria até nossa casa para contar da tragédia seus detalhes mais crus e pesados. E o horror daquilo tudo suspendeu a arrumação do tempo, os gritos de minha mãe calaram o mundo, e fomos todos até o Posto de Saúde, onde uma multidão se aglomerava à porta.

   Lá estava o herói deitado numa cama de ferro, agitando-se de forma desordenada, o rosto inchado pelo hematoma da cotovelada no jogo de domingo e pela pancada no chão do beco, o pescoço marcado pelo estrago que o fio lhe fizera de um lado a outro, trechos sem pele, tudo já ficando arroxeado. Minha mãe jogou-se ao seu lado, e tudo era puro desespero e impotência. Não havia na cidade recurso hospitalar, a bê-erre estava em construção e o mundo civilizado quedava-se distante demais. 

   Também eu fiquei ao lado da cama e vi crescer em Nelsinho a agonia de um cérebro perturbado por traumatismos e hemorragias. Uma agonia que teve seu auge quando ele se agarrou ao pescoço de minha mãe, que se entregava sem reação, exigindo de meu pai e outras mãos certo esforço para separá-los. E depois disso, Nelsinho aquietou-se. Caiu no beco por volta das 19h e entrou em coma às 23h. 


domingo, 22 de setembro de 2019

21 DE SETEMBRO 1969, DOMINGO, O DIA DO JOGO



     Então a rapaziada organizou um selecionado local para uma partida no distrito da Canabrava do Boqueirão, sudeste do município, perto do riacho do Arame, de onde se pode desbandar para a serra do Chiqueiro Velho, dita Boa Esperança. Tudo isso lá no Bom Jardim, posto no mapa como Ibotirama.

     O ser humano havia pousado na lua, fazia pouco tempo, e Pelé estava muito perto de fazer seu milésimo gol em Andrada, já repisei o tema aqui anteriormente. No domingo que foi aquele 21 de setembro de 1969, seguiram em algazarra na carroceria de um caminhão, pela estrada da Veredinha, aqueles rapazes que amavam o futebol. Entre eles, Nelsinho, meu irmão, que precisaria chegar a dezembro para completar 15 anos, mas não conseguiu. Um menino de corpo atlético entre aqueles rapazes e homens-feitos.

     Todos reconheciam em Nelsinho um craque excepcional. Lembro que foi "obrigado" a jogar entre os adultos por não ser aceito mais nos babas entre os de sua idade. Várias vezes o vi brincar de "time de um jogador", enfrentando sozinho um grupo de adversários do mesmo tope. Corria e ria, driblava e ria, fazia gols e ria, divertia-se com a bola nos pés. Era um azougue também fora do campo, e isso lhe causou transtornos e o desejo manifesto de ir-se em bora logo daquele lugar.

     Quem perdeu tempo lendo meus livros já percebeu que Nelsinho se faz presente aqui e ali, por inevitável. Foi meu primeiro ídolo, meu irmão mais velho, de quem levei coques e taponas, a quem causei problemas por me destacar nos estudos, o contraponto indesejado, um grude incômodo ao furacão que se movia dentro dele. 

      Foi num domingo assim que Nelsinho foi acertado no campo de bola por uma cotovelada no olho esquerdo. Fez gol, jogou muito e voltou pra casa com um inchaço no rosto. Inchaço que se tornaria um pouco maior no dia seguinte. 

     Vejo no calendário de 1969 que, uma vez mais, fui driblado por minha memória. A sequência dos acontecimentos não se deu em domingo-segunda-terça, não. Houve a partida de futebol no domingo e a tal cotovelada. Na segunda-feira, dia 22, nada aconteceu de relevante. Talvez Nelsinho não tenha ido ao Colégio Cenecista, tenha ficado em casa, aplicando a lâmina fria de uma faca sobre o hematoma ocular, não me lembro. Mas houve esse dia neutro, um dia de bonança antes da tormenta que nos alcançaria a todos na terça-feira, dia 23 de setembro de 1969, exatos cinquenta anos atrás. Dias que não se cansam de apertar meu combalido coração.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

SANDRO ORNELLAS LANÇA "EM OBRAS" NO GOETHE INSTITUT







   Sandro Ornellas promove no próximo sábado, 21.09, das 16 às 20h, no Goethe Institut (Corredor da Vitória, Salvador/BA), o lançamento de seu quarto livro de poemas, "Em obras". Busca de algum sentido no mundo em que vivemos, olhar crítico sobre o nosso tempo e um modo singular de expressão poética, são alguns dos destaques de “Em obras”, que sai pela Editora Cousa/ES. 
   Ornellas traz uma proposta incomum para tardes de autógrafos: quem for ao evento, vai poder adquirir o livro pelo preço que achar mais justo. 
     No material de divulgação, o editor Saulo Ribeiro afirma que a poesia do autor agrada por unir dois elementos: o experimentalismo radical na forma, na linguagem, mas sem perder a seiva do poema. “Há um deleite visual na leitura do trabalho de Sandro que se completa com os sentidos que ele nos aguça, nos fazendo salivar e sangrar ao mesmo tempo”, afirma. Já em um trecho da orelha assinada por Kátia Borges, a poeta ressalta que no livro de Ornellas “o lirismo presente nos versos dispensa os equipamentos de segurança obrigatórios e convida à coreografia da desconstrução”.
   Trajetória do Autor: filho de pais baianos, Sandro Ornellas nasceu em Brasília e mora em Salvador desde os anos 1980. Estreou como um dos vencedores do extinto Prêmio Copene em 1998, com ”Simulações”, publicando ainda ”Trabalhos do Corpo” [2007] e ”Formas de cair e outros poemas” [2011]. Além de ter editado fanzines e folhetins poéticos, ele já gravou e produziu algumas experiências sonoras e videográficas. Ornellas também é professor do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.

domingo, 15 de setembro de 2019

AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO, de Mariana Enriquez


 

    É possível viver na bolha.
    Qualquer que seja.
    Só não sei como se realiza tamanha façanha.
    Talvez o fanático mais próximo explique bem como se faz.
    E são tantos hoje em dia...
    Mas eu prefiro manter distância das bolhas e bitolas.
    Pois amo a literatura.
    E na literatura a vida acontece plena.
    Sem meias verdades.
    Na literatura, claro, que se impõe como tal.
    Ando atormentado pelos contos de Palahniuk e de Enriquez.
    Ambos da escola das sombras e dos horrores humanos.
    Mundo absurdo, vida surreal, gente demoníaca, ódio e loucura nas ruas e nas casas.
    Pancadão... Palahniuk fica pra um depois.
    Trato aqui dos contos de As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez.
    Jornalista e professora, Enriquez narra sobre o que a sociedade procura esconder.
    O que quase ninguém quer tomar conhecimento.
    O que poucos acreditam que aconteça na casa ao lado.
    Casa e logradouro de qualquer lugar, mas calha ser na grande Buenos Aires.
    As criaturas da noite, crianças abandonadas, mulheres maltratadas, homens extemporâneos.
    Sim, há uma pegada feminista na abordagem dos temas, e por que não?
    Homens seguem espancando e matando mulheres a todo instante.
    Se um desses desaparecer, como se fazia na Ditadura Militar, que mal há?
    Se mulheres decidem se queimar antes de serem queimadas por eles, quem há de?
    Por que não se divertir enquanto se gerencia o horror dos abandonados?
    A que deus se sacrifica tantas crianças desovadas em terrenos baldios?
    A quem respeita a grande máfia dos miseráveis? Ou o que ela respeita?
    De tudo isso, há algo novo ou que não se tenha feito antes?
    É loucura o que provoca ou a loucura é resultado?
    Tem alguém aí que não experimenta uma depressão assim ou assada?
    De repente o rio Riachuelo supera o Tietê em miasmas e favelas.
    E acontece que o limbo produz vida em profusão.
    E que a miséria pode, sim, ignorar normas e rituais antigos.
    E a fome pode se alimentar de outras fomes.
    E o adorável ser humano assumir condições até então impensáveis.
    Deixar de ser, simplesmente. Ou ser diverso.
    Desaparecer nas ruas, nas rodovias, dentro de um quarto.
    Essas coisas que perdemos no sangue derramado.
    Nas ruínas e nos lixões.
    Que perdemos no fogo que nos arde, em que ardemos uns mais que outros.
    Quem zela por nós, afinal?
    Quem merece o nosso zelo?

 
   As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez, tradução de José Geraldo Couto, publicado pela editora Intrínseca, 2017.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

ANDRADA, O GOLEIRO DO MILÉSIMO GOL





   Os últimos movimentos de Andrada não foram na direção da bola. Depois de aposentar-se do futebol, Andrada trabalhou para o Serviço de Inteligência do governo argentino, a partir de 1983, e teve seu nome citado como agente da repressão, mas não recebeu condenação por falta de provas. Andrada sempre negou esse envolvimento, e é só isso que posso dizer pelo que leio por aí. Fato é que Andrada morreu ontem, 04.09, aos 80 anos de idade.

   Ir em busca da bola, essa era a regra que pregava para o goleiro no instante máximo do futebol: o pênalti. Escrevi uma crônica sobre essa lição andradiana, que chegou a ser lida por Jô Soares em seu antigo programa no SBT, contando, inclusive, com mise en scène, um sucesso. Escrevi o texto com lembranças que guardei de uma reportagem feita pela revista Placar com o goleiro do Vasco, à época, cogitado para naturalizar-se e servir a seleção no Mundialito de 72, disputado aqui no Brasil em comemoração ao Sesquicentenário da Independência  -   chegou até a posar com a camisa tricampeã, outros tempos.

   Fiquei fã de Andrada não só pelo que fazia pelo meu estropiado Vasco (campeão carioca 70, brasileiro 74), mas por sua sabedoria de arqueiro. O goleiro deve ir sempre no rumo da bola. Por conta disso, peguei profunda antipatia por goleiro que escolhe canto e salta antes da batida do cobrador do pênalti. Este, o mote da tal crônica. Até os dias de hoje, nenhum grande goleiro segue essa lição primordial. E continuam abusando da minha paciência em disputas por pênaltis. 

   Pois é, o grande Andrada, que depois defendeu o Vitória em 1977, na formação poderosa que contava com Fischer de centroavante, se não me falha a memória mais uma vez. Andrada foi atrás da bola quando Pelé partiu para executar seu milésimo gol. Basta ver o tape: o goleiro magricela voando raso e tocando a pelota, sem evitar, no entanto, que a danada balançasse a rede cruzmaltina. Ouvi pelo rádio, Waldir Amaral narrando com sua voz arrastada e tendo meu irmão morto a meu lado, coisa que contei aqui isturdia. Andrada foi meu segundo ídolo, o primeiro sendo Nelsinho, um craque que Ronaldo Nazário imitava e que somente eu vi jogar, esse meu irmão morto aos 15 anos de idade num acidente. 

   Ontem foi a vez de Andrada partir, seu verdadeiro último movimento. Que tenha sido realmente inocente do que lhe acusaram, é o que eu gostaria que fosse verdade. Pois como goleiro dos meus Vasco e Vitória, Andrada fez por merecer lugar de honra no meu seleto grupo de craques memoráveis. Que descanse em paz.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

TORTO ARADO, de Itamar Vieira Junior




   Aqui está um belo romance, um grande prosador.
   Aqui está um povo inteiro a se movimentar no tempo.
   Abrigado pelas asas dos encantados.
   A dançar o jarê, a cavoucar a terra, a recolher peixes nas torrentes.
   Daqui flui suor e cheiro das peles negras.
   E muito sangue, também.
   Pois não há movimento que fuja a desfecho sangrento.
   E não há pessoa ou povo que suporte por muito tempo açoite.
   Aqui a memória se aviva, revê o ciclo doloroso da servidão.
   E a agitação de corpos e mentes no esforço para rompê-lo.
   Aqui mora a família Chapéu Grande, uma que merece verbete.
   Pois grande é o coração do serviço de cura.
   Aqui está a prova de que não há tema esgotado.
   Torto arado se irmana a Tempo de espalhar pedras.
   Itamar Vieira Junior finca o pé no topo.
   E faz isso por cavar profundo na alma.
   Por valorar os caminhos e as tormentas de sua etnia.
   Por escrever sobre o que bem conhece.
   Adentre, leitor, na esgotada Chapada Velha.
   Sem diamantes, mas com os coronéis de sempre.
   E o povo deseirado, destelhado, coberto apenas por barro seco.
   E conheça duas irmãs, como outras tantas, a viver suas desditas.
   No fio do corte.
   Nas covas do Viração.
   Na agitação de servir a uma antiga entidade.
   Quanto cabe de revolta num silêncio forçado?
   Donana sabia, Belonísia também, Bibiana aprendeu.
   Não há vida sem loucuras repentinas, pois a dor assume essa forma.
   O que foi se repete, pra nossa desgraça e vergonha.
   Torto mundo, vidas tortas, coisa sem jeito, pelo que vemos na tevê.
   Mas é preciso conhecer, reconhecer até aprender a servir e a perdoar.
   O tapa de Mãe Salu precisa marcar de vez o rosto do Brasil.


Torto arado, de Itamar Vieira Junior, romance vencedor do Prêmio Leya 2018, publicado no Brasil pela Editora Todavia, em 2019.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

PROFUNDANÇAS 3, antologia literária e fotográfica



Na próxima sexta-feira, 23.08, ocorrerá o lançamento virtual da coletânea literária e fotográfica Profundanças 3. A obra organizada pela professora e poeta Daniela Galdino, em parceria com a Voo Audiovisual, reúne poemas, contos, ensaios fotográficos e estará disponível para download gratuito em: http://vooaudiovisual.com.br/projects/profundancas3/


O lançamento da antologia contará, ainda, com o Sarau Profundanças, durante a 13ª edição do IC – Encontro Internacional de Artes, no dia 25.08, próximo domingo, em Salvador/BA.  No sarau, que terá transmissão ao vivo pelas redes sociais de Profundanças, estarão presentes dez das escritoras que compõem a terceira edição da coletânea. 


Em sua terceira edição, Profundanças homenageia Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro brutalmente assassinada em 2018, e Nátali Yamas, jovem fotógrafa negra com forte atuação em Itacaré/BA, que assina as imagens da capa e das páginas de transição. Duas mulheres negras de gerações e territórios diferentes, mas que se encontram a partir do discurso em sua arte e vivência política, de enfrentamento e denúncia do machismo e racismo e pela busca do bem viver da população negra e periférica, especialmente de outras mulheres negras, base fundamental da pirâmide social brasileira.


Composta por textos literários de 22 escritoras da Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo, cujas imagens foram captadas por 22 fotógrafes, a antologia literária e fotográfica visa confluir os diversos olhares através da horizontalidade, dos fluxos e dos encontros entre mulheres, que escrevem a partir dos seus lugares de diferenças.


Desde sua primeira edição, em 2014, o projeto tem como propósito combater a invisibilidade de escritoras nos campos literário e editorial. Para isso, se soma a outras iniciativas de difusão da literatura escrita por mulheres. Com grande circulação nas redes sociais, a coletânea é uma produção independente que se desenvolve com o apoio de uma ampla rede de colaboradores, dentre fotógrafes, designers e produtores. 


Comemorativa dos 5 anos de atuação, a terceira edição do projeto atinge a marca de 51 escritoras com a publicação de poemas e escritos de A Luz Bárbara (PB/SP), Bárbara Uila (BA), Cynthia C S Barra (BA), Daniela Galdino (BA), Ezter Liu (PE), Francisca Araújo (PE), Gessyka Santos (RN), Isabelly Moreira (PE), Joana Velozo (PE/ESP), Jovina Souza (BA), Marina Melo (SP), MonaRios (PE), Mônica Menezes (BA), NegrAnória d'Oxum (BA), Odailta Alves (PE), Odília Nunes (PE), Paula Santana (PE), Raiça Bonfim (BA), Tatiana Dias Gomes (BA), Tereza Sá (BA), Vânia Melo (BA), Yasmin Morais (BA). Fazem parte da publicação também os ensaios fotográficos de Andreza Mona (BA), Ângelo Azuos (PE), Álvaro Severo (PE), Analu Nogueira (BA), Brenda Matos (BA), Diego Mallo (Espanha), Eline Luz (BA), Fafá Araújo (BA), Laís Aranha (SP), Luísa Medeiros (RN), Maria Ruana (PE), Marianna Souto (PE), Mylena Sousa (SP), Nathália Miranda (BA), Nathália Tenório (PE), Renata Pires (PE/França), Sarah Fernandes (BA), Silvia Leme (BA), Tacila Mendes (BA), Tom Correia (BA), Uiara Moura, Yalli Borges (PE).


Serviço:
O que: Lançamento virtual de Profundanças 3 - Antologia Poética
Quando: 23 de agosto de 2019


O que: Sarau Profundanças no 13º IC: Encontro das Artes
Quando: 25 de agosto de 2019
Hora: 17:30
Onde: Salvador/BA (Casa Rosada - Barris)
Transmissão online: no facebook @profundancas e no Instagram @profundancas_antologia 

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

UMA HISTÓRIA DO PARAÍSO & outros poemas, RUY ESPINHEIRA FILHO

   Eis que finalmente tenho em mãos "Uma história do paraíso", o mais recente livro de poemas inéditos de Ruy Espinheira Filho. Lançado no dia 25 de julho passado, na sede da editora Patuá, Vila Madalena, São Paulo, o livro reúne em suas cento e poucas páginas outra leva do lirismo peculiar do autor, um produtor incansável de poemas antológicos. Direi mais, adiante, depois de outras leituras e outras emoções. Trago aqui um exemplo de poema pleno, irretocável, daqueles que ao fim da leitura nos deixa mergulhados em revoltas considerações sobre o que verdadeiramente importa na vida.


UM CASO DE AMOR

1
Já era uma certeza: ele a amaria
por toda a vida.

2
E foram beber um vinho.
E na segunda taça lhe declamou
Jorge de Lima:
A garupa da vaca era palustre e bela...

3
Declamou comovidamente o soneto.
E, ao fim, fitou o seu belo rosto, os olhos,
em busca de emoção.

4
E não havia nenhuma.

5
Ela apenas o fitava de maneira impassível.
Bebeu mais um gole, confuso: certamente
declamara muito mal,
teria que tentar fazer melhor.

6
E tentou.
A garupa da vaca era palustre e bela...

7
Nunca havia declamado tão apaixonadamente.
Sentia nos olhos uma lente de águas
trêmulas.
Através das quais via novamente a
impassibilidade.
Quase soluçou, mas se conteve.


Apressou, com generosos goles, o fim da garrafa.
Pagou a despesa. Levou-a até a casa, de táxi,
despediu-se com um aceno.

9
Voltou ao bar. E, então,
concluiu:
impossível alguém
sem nada sentir ao ouvir que
A garupa da vaca era palustre e bela...

10
Pediu um tinto Gran Reserva e,
com a emoção de um homem livre,
ergueu-se um brinde,
feliz de alexandrinos que certamente amaria
por toda a vida
e que estariam sempre a lembrar-lhe,
bela e generosamente,
que
A garupa da vaca era palustre e bela...


domingo, 30 de junho de 2019

A NOIVA DO TIGRE, de TEA OBREHT




   
      Vivemos em estado de guerra, nos sussurra o romance de Tea. Estamos dentro dela, em seus círculos mais internos e profundos. Lá fora caem bombas, acima os aviões, distantes os homens que acionam seus comandos; em nós finca-se o horror das explosões ou o aço quente de um projétil, enquanto colhemos legumes no quintal ou visitamos o que resta de um zoológico. Cercas se tornam fronteiras, sotaques definem vida ou morte. E morte é o grande banquete que continuamente se prepara. Nós somos os humanos cercados pelo fogo e somos eles, também, os que definem os círculos e o alcance do incêndio. Nem sempre.

   Em "A noiva do tigre", a jovem escritora norte-americana de origem iugoslava, Tea Obreht, perfila personagens inesquecíveis. Crianças, homens e mulheres que habitam os tempos e os lugares com suas particularidades encantatórias, enigmáticas e emocionantes, enquanto as bestas vistoriam casas e carros e dizem quem pode passar ou viver. A Cidade e povoados dos Balcãs nos são apresentados por dentro, nas vozes de seus moradores, e nos sentimos como nos sertões, entre crendices e ervas, entre deuses e feras. Digo assim pois, decompor a narrativa, expor o enredo talvez diga menos do romance. Mas, vamos lá.

   Natalia é uma jovem médica em trabalho comunitário. O avô de Natalia, também médico, é sua principal referência. No meio de uma viagem assistencial, Natalia toma conhecimento da morte do avô, ocorrida num povoado distante. As lembranças da convivência com o avô, das histórias que ele contava, em especial, as da noiva do tigre e do homem sem morte, tornam-se o eixo central do romance. A guerra veio e se foi, e retornou tempos depois, e agora já é rescaldo desta última, com clima de uma próxima que se engendra, pois ao fazer seu trabalho, Natália não deixa de ser "do outro lado", e aqueles que criam problemas "são do seu lado, doutora".  Mais uma vez, não há como deixar de notar como essa bipolarização se universalizou. O estado de guerra, também.

    Mas é o talento narrativo de Tea Obreht que ressalta e impressiona. Agradou-me, especialmente, sua habilidade em imprimir cor e graça à narrativa a partir de personagens secundários e situações periféricas, como o papagaio declamador da primeira parte  -  ri às escâncaras, me impregnou sua curta passagem pelo texto. Conheceremos o avô-menino e entenderemos o motivo de ele levar Natalia ao zoológico para ver o tigre e o porquê de carregar sempre consigo um velhíssimo exemplar de O livro da selva, de Kipling. Aqui nos encontramos e nos emocionamos. Aqui está o povo abandonado pelas autoridades e pela ciência, resolvendo e criando seus imbróglios na turvação das crenças, lendas e produção incessante de mortes.
   
    Tudo parece se resumir a esse estertor social, dos tempos do avô-menino e da noiva tigre, ao tempo do avô-médico e o homem sem morte, até o de Natalia-médica e o avô-morto, esse tempo em que as assombrações persistem, bruxas ordenam e uma família inteira se desloca até o território inimigo para revirar um vinhedo atrás de um corpo enterrado durante a guerra. Da mesma forma que Natalia corre risco de morte para resgatar os pertences do avô-morto. Tudo que é novo nasce de algo putrefato, a raiz antiga de toda invenção. Enquanto as crianças servem de cobaias, de alvo preferencial da violência, de argamassa das gerações, de desculpa para atos de desespero e de esperança renovada.

    Uma leitura que me reportou a "O rei branco", de G. Dragomán, e "O navio branco", de T. Aitmátov, por seus personagens infantis e pelos ambientes de violência autoritária e disputas territoriais. Uma leitura inesquecível, como acompanhar a travessia de um elefante pelas ruas da cidade deserta e adormecida, ou andar ao lado de um tigre pela mata com a mão posta em seu dorso, ou descobrir o motivo de um cão ficar por dias ao lado de uma caçamba à beira da estrada. Um grande romance, vencedor do Orange Prize 2011. E como estamos no Brasil, um romance praticamente desconhecido, vendido em saldão no mercado de frutas por dez reais.


A noiva do tigre, de Tea Obreht, tradução de Santiago Nazarian, publicado pela editora Leya, SP, 2011

quarta-feira, 1 de maio de 2019

AS MARGENS DO PARAÍSO, de LIMA TRINDADE


    
   O Brasil parece parado no tempo a repetir experiências sem gerar aprendizado relevante. Tudo que construímos ostenta marcas passadiças, propósitos turvos, resultados duvidosos à custa do suor e do sangue dos mais pobres. Agora mesmo somos arrastados por uma onda reversa que pretende ressuscitar o país de 50 anos atrás, aquele que a Ditadura Militar engendrou com seus atos institucionais. Piorado, em verdade, por um fundamentalismo religioso que espanta por sua solidez e profunda ramificação nos estratos sociais. Temos, sim, uma tendência ao desastre, por mais que nossa bossa brilhe nos palcos do mundo.

   Em seu primeiro romance, As margens do paraíso, Lima Trindade deixa isso bem claro: projetamos paraísos sobre corpos despedaçados e almas corrompidas; estamos sempre às margens de algo promissor, marcados por desesperança e perdas irreparáveis. Do Rio de Janeiro, de Juazeiro/BA e de Anápolis/GO partem os três protagonistas do romance - Rubem, Leda e Zaqueu - em busca da nova Canaã, a Brasília que os candangos erguiam no Planalto Central do Brasil. Jovens, deslocados em seus ambientes de origem, Brasília representou para eles, e aos brasileiros em geral, o farol e a oportunidade quando a crise se instalou em suas existências. Fico pensando que jovens como eles acorreram a várias outras terras prometidas ao longo de nossos séculos, obtendo resultados bem parecidos ou iguais. Porque "o sistema é bruto", já se conhece bem o bordão.

   Lima Trindade mostra apuro na definição particular das vozes narrativas e no trabalho de pesquisa que recupera ambientes e climas nas diversas cidades envolvidas na trama e naquela que se constrói na interlândia. Brasiliense de nascimento, Trindade oferece ao leitor, enquanto expõe o drama que move e aproxima seus personagens na capital que ajudam a construir, o conhecimento do cotidiano dos peões nos canteiros de obras e nos barracões, nas biroscas empoeiradas e nos puteiros baratos e de luxo, e até mesmo dos trabalhadores mais qualificados, entre esses, os embriões ou filhotes dos empreiteiros celebridades da contemporaneidade. Por isso a impressão de que estamos a nos repetir da pior forma possível. 

    A construção de Brasília durante o governo JK até hoje provoca polêmica. Mas sua edificação, em si mesma, foi grandiosa em todos os sentidos. A propaganda governamental tem nos bombardeado ao longo das décadas com seus aspectos positivos, mas sabemos que essa é uma história que ainda esconde episódios nebulosos e trágicos, que merecem investigação sensível e cuidadosa, como essa que nos traz As margens do paraíso

     O romance recupera um grande momento do Brasil - campeão do mundo no futebol em 1958, Pelé e Garrincha, a bossa nova, JK e Brasília - para costurar com a alegria, o gozo e o desespero da juventude de seus protagonistas, um sonho de construção de um mundo melhor. Sonho que nunca nos cansamos de sonhar, cobertos de poeira ou de mágoa, embriagados por idealismo ou por álcool,  mesmo ao comungar com Mauro, personagem que funciona como arauto do novo mundo, quando afirma: "Reflito nesse momento de profundo vazio e na ideia de que, algumas vezes, a única saída existente seja abraçar a bala em seu trajeto, seja esquecer o medo, não olhar para trás."

   Lima Trindade realiza com As margens do paraíso uma bela contribuição à literatura brasileira, ao romance social que temos praticado contemporaneamente. 


As margens do paraíso, Lima Trindade, Companhia Editora de Pernambuco - CEPE, Recife, 2019

segunda-feira, 29 de abril de 2019

GAME OF THRONES





    A série Game of Thrones - GoT tem ambiência sombria, múltipla direção e custos altos. Pois bem: desde a sétima temporada a série meio que desbrava o enredo, posto que GRRMartin não concluiu a saga nos livros que publicou. Presa ao "estilo" que adotou, GoT provoca críticas e comentários os mais diversos a cada episódio. Eu li os cinco tomos publicados d'As crônicas de Gelo e Fogo e garanto a vocês que não senti falta do que foi extirpado da trama em benefício de clareza e agilidade. Mas há quem...
   
    Bem, dos vários textos que li durante o day after da Batalha de Winterfell ressaltam críticas à escuridão das cenas, não bastasse a luta ter sido travada durante uma noite invernal. Não vejo motivo para queixas: as melhores cenas do 3o episódio só foram possíveis por conta da escuridão reinante (sem trocadilho). Senão vejamos: 1) o acendimento das foices dos dothraki, pela feiticeira Melisandre, exigia o contraste para que a sequência tivesse o efeito plástico que teve, 2) o avanço dos dothraki na direção do exército dos mortos, na direção da escuridão, visto de perto ou à distância, foi bem bacana, 3) e o choque dos dothraki com a massa do exército dos mortos, como foi filmado, realizou momento precioso de puro cinema - luz e escuridão, a luz se apagando aos poucos até a escuridão imperar. Numa economia gigantesca de recursos de todos os naipes, a direção mostrou o enfrentamento e a derrota dos dothraki apenas com jogo de luz e sombra - isto é cinema. Mais que isso, representou uma economia enorme para a produção e para os olhos dos telespectadores, que teriam pela frente muitas cenas sangrentas. Considerei primorosa a cena 3.

     No mais, o episódio 3 exibido ontem teve o condão de encerrar a luta contra o Rei da Noite e seu exército de mortos, vilões sem voz e sem um propósito maior a alcançar, sem qualquer empatia. Agora vamos a Cersei, esta sim, vilã das mais impressionantes e admiráveis.


Foto: Arya, personagem vivida por Maise Williams, Bol

quarta-feira, 24 de abril de 2019

SONS DE MERCÚRIO


    
     Seguindo pela Linha Verde até Sergipe, ouvimos pela primeira vez o cd Entre crendices e amores pagãos, assinado por Sons de Mercúrio, banda de Feira de Santana. O álbum tem direção artística de Cartre Sans e Mohzah Nascimento, parceiros em todas as composições (em uma delas, Thiago junta-se à dupla). São treze canções que podem muito bem ser apreciadas como movimentos de uma sinfonia, mesmo porque as letras giram em torno do tema/título do disco.

     A presença de guitarras e da batida típica do velho rock modulam a sequência de canções, como se fosse um roteiro do show da banda. As melodias, as letras, os arranjos, os vocais se sucedem de forma harmônica, com uma base técnica notável, consolidando o entendimento de que Entre crendices e amores pagãos é, sim, um excelente disco.


     De minha parte, enquanto ouvia Sons de Mercúrio, fiz uma viagem paralela, emocional e bem particular, revisitando os anos 1970 e identificando a irmandade daquele som com o trabalho imortal da Banda de Pau e Corda, do Quinteto Violado, do Pessoal do Ceará, de Sá, Rodrix & Guarabira... Uma irmandade assim é bem mais que um elogio, é um selo de rara qualidade que confiro às maviosas toadas, cantigas e rocks-rurais que me embalaram ao volante do carro na manhã da quinta-feira santa. Enquanto, no íntimo, lastimava por todos que ainda não ouviram Entre crendices e amores pagãos, um disco arrojado que nasce clássico, um trabalho que merece os prêmios que houver por aí na MPB e, claro, ser conhecido logo nacionalmente. 

domingo, 14 de abril de 2019

DIVISADERO, de MICHAEL ONDAATJE





      A melhor receita de vida é estar aberto a novas leituras, a novos autores, daqui e d'alhures, deste ou de outros tempos; melhor receita não só para um crescimento pessoal saudável, mas para uma atitude de correta honestidade intelectual. De outra maneira é como se aprisionar a um território e suas parcas possibilidades  -  por mais que as consideremos plenas  -  ou a um cânone gélido - por mais que o consideremos insuperável. Como saber, se não experimentarmos? Eu sou um que se considera imperfeito, incompleto e ansioso por conhecimento  -  o que sou, o que tenho, o que conheço, o que sei, ou o que penso ser, ter, conhecer e saber, parece-me muito pouco. E foi assim que cheguei a Ondaatje, por exemplo. Já o conhecia de O paciente inglês, filme adaptado de um romance seu. Mas não o havia lido, ainda; e isso não fazia parte dos meus planos. Até que topei com...

      Divisadero é um romance contemporâneo clássico. Narrativa entrecortada e vertiginosa, polifônica, com narradora principal complexa, mais metaliteratura e a presença dos textos clássicos dando suporte à construção dos personagens e de tudo o mais. Colette, Dumas, Hugo, Stendhal, uma verdadeira homenagem à literatura e à cultura francesa, não transcorresse grande parte do enredo em solo francês, em tempos diversos. Sem falar em Nietzsche e em Lupicínio Rodrigues. É que...

    Bem, seguindo o autor, podemos dizer que Divisadero tem na sua construção algumas frases pilares: "Temos a arte, para que não sejamos destruídos pela verdade", de Nietzsche, é uma delas, a que Anna, a narradora principal, recorre sempre como viga mestra de sua existência. Uma outra: "Se acabarei sendo o herói de minha própria vida, ou se esse posto será ocupado por outra pessoa, é o que estas páginas precisam mostrar", que bem poderia ser a epígrafe do romance. E os versos de Lupicínio, em Um favor, mal traduzidos como "Se algum de vocês a vir em suas jornadas  -  gritem-me, assobiem...", mas que o autor reconhece nas notas ter sido "o que começou essencialmente este livro".

         Divisadero se ocupa de rupturas, de partições, da busca que fazemos de nós mesmos no outro. Anna se descobre mulher com o irmão de criação, Cooper, gerando com isso o esfacelamento de seu núcleo familiar. Mais tarde, na França, Anna pesquisa a vida do poeta Lucien Segura, conhece e namora o cigano Rafael, enquanto Cooper enfrenta as durezas da jogatina e Claire, a outra irmã de criação, investiga casos para a promotoria da Califórnia. A biografia do poeta francês levantada por Anna, parte final do romance, reproduz o cerne da proposta de Ondaatje: as muitas vidas que vivemos possuem divisas bem definidas e pouco somam umas às outras. Mas deixam marcas indissolúveis, que arrastamos para sempre. É que, como afirma Anna no texto: "É a fome, aquilo que não temos, que nos mantêm juntos".


Divisadero, de Michael Ondaatje, tradução de Augusto Pacheco Calil, Companhia das Letras, SP, 2008.

     

domingo, 31 de março de 2019

AS MARGENS DO PARAÍSO, de LIMA TRINDADE




     O primeiro lançamento foi ontem, na livraria LDM, daqui de Salvador. Outros lançamentos virão em Brasília, Rio de Janeiro e Porto Alegre, e mais que a memória me falta. Em tempos nublados, Lima Trindade viaja ao período de construção da capital federal, onde nasceu, para acompanhar a jornada de três personagens. Estou começando a leitura, mas já deixo aqui um aperitivo:



    [...] O movimento nas escadas é nervoso, pois o elevador está sempre em manutenção. Ninguém reclama. Estão acostumados. Passa noite atrás de noite e o cartaz de aviso continua preso à porta enferrujada. De qualquer forma, estou me lixando se o elevador funciona ou não. Tirando o velho Ápio, não vou muito com a cara de ninguém por aqui. No fundo, quero mais é que o Frederico Ribeiro se exploda. Só não mudo de colégio, não me arranco de uma vez por todas, por causa da maldita bolsa. Só por isso. Não fosse por ela, tava noutra. Bom, mas bom mesmo, seria estar no apartamento da Janete, tomar banho de banheira e foder até não aguentar mais.



As margens do paraíso, de Lima Trindade, publicado pela CEPE Editora, 2019.

sábado, 16 de março de 2019

LÉXICO FAMILIAR, de NATALIA GINZBURG






     Um livro especial, uma biografia familiar para ser lida como romance, na sugestão da própria autora. Vida real, nomes reais, mas todo mistério que cerca o viver submetida, no caso, a um pai dado a rompantes autoritários e em um tempo de afirmação do fascismo na Itália. Contra o qual, diga-se logo, a família se posicionou e, por conta disso, sofreu duras consequências. 
     Natalia Ginzburg quase nada relata de sua própria vida no seio da família: é o olhar, a escuta e a memória que fixa e nos entrega nesse livro os fazeres e dizeres de uma família italiana de origem judia nos duros tempos do fascismo. Com uma preocupação nítida em recuperar o linguajar praticado pelos pais, irmãos, parentes e amigos, frases e expressões que representam chaves emocionais instantâneas e eternas.
     O Ginzburg, Natalia ganhou quando se casou com Leone, amigo de seus irmãos e companheiro de luta política, que morreu na prisão, deixando-a com três filhos, um deles o renomado historiador Carlo Ginzburg. Natalia Ginzburg trabalhou na famosa editora Einaud, ao lado de Cesare Pavese e Italo Calvino, figuras que aparecem no livro em passagens marcantes.
       Trechos:
     Meu pai voltava para casa sempre furioso, por ter encontrado no caminho cortejos de camisas-negras; ou por ter descoberto nas reuniões da faculdade novos fascistas entre seus conhecidos: - Palhaços! Safados! Palhaçadas! - dizia, sentando-se à mesa; batia o guardanapo, batia o prato, batia o copo e bufava de desprezo. [...]
     Meu pai, quando morria uma pessoa, acrescentava imediatamente a seu nome a palavra "finado"; e ficava bravo com minha mãe que não fazia o mesmo. Esse do "finado" era um hábito muito respeitado na família de meu pai: minha avó, referindo-se a uma irmã falecida, dizia invariavelmente a "finada Regina" e não a evocava de outro modo. [...]
      Quanto à minha mãe, ela era de índole otimista e esperava algum belo golpe de cena. Esperava que um dia alguém, de algum modo, "derrubasse" Mussolini. Minha mãe saía, de manhã, dizendo: - Vou ver se o fascismo continua de pé. Vou ver se derrubaram Mussolini. - Recolhia alusões e boatos nas lojas, e tirava disso auspícios animadores. 

Léxico familiar, de Natalia Ginzburg, com tradução de Homero Freitas de Andrade, prefácio de Alejandro Zambra e posfácio de Ettore Finazzi-Agrò, Companhia das Letras, 2018.





     

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O ROMANCE LUMINOSO, de MARIO LEVRERO (2)




     Mario Levrero é um dos pseudônimos do escritor uruguaio Jorge Varlotta. Pode ser, portanto, a personagem ficcional principal de "O romance luminoso" sem necessidade de maiores explicações. Ele é ele mesmo, reticências, o escritor recluso que ministra oficinas e luta com a fracassada escrita de um romance, escrevendo um diário. E dessa forma, "O romance luminoso" talvez não possa ser classificado como autoficção ou autobiografia. O que lemos resulta, sem fim e sem cabo, em peça de imaginação vertiginosa calcada na perturbadora realidade de um sessentão repleto de esquisitices e hipocondria(s). A burla premiada.

     Volto a "O romance luminoso" porque ainda faço sua digestão e sobre ele disse aqui muito pouco. Duas partes o compõem: o diário e o rascunho do romance iniciado em 1984. Ou talvez não seja nada disso, e sim: um romance sobre o desespero da solidão que o envelhecimento traz, junto com certa impotência para a execução de projetos, o que deságua em sonhos perturbadores e visões fantasmagóricas. Um romance acrescido de outro romance, de menor extensão, sobre experiências luminosas vividas pelo protagonista, de 44 anos de idade, mas o mesmo que escrevinha depois o diário. Ou não, como bem quer o mano Caetano.

     O tal sessentão diarista é louco, assim dado pelo psiquiatra, que o vem consultar exatamente por ele ser um louco, como também pela própria filha que com ele tem pela primeira vez uma conversa fluida e sincera, simplesmente, por ter aberto o diálogo com a frase "O senhor é louco". Que alívio, não? Mas é um louco que investiga suas loucuras, utilizando a linguagem como ferramenta preciosa, para nosso deleite. Leitor compulsivo de romances policiais, maníaco por jogos de computador, é um que tem muitas amigas; com umas passeia, com outras se deita e por aí vai, como sói acontecer aos sessentões. Dizem.

     Fato é que Levrero promove as entradas do seu "Diário da bolsa" com precisão matemática, ou por conta dos recursos de um dos programas de computador que tanto curte customizar. E com dúvidas deliciosas, que empurram a narrativa em várias direções, mas sempre com espírito novidadeiro e gracejante. Vou encerrar essa conversa de maluco com algo que me surpreendeu, em meio a tanto tédio, lá pela página 544, já no corpo do primevo "O romance luminoso": a narrativa impressionante e espetacular de um coito anal. Durmam com essa, se puderem. Páginas 544 e 545, para ser mais preciso.

      Mais umas mostras:

      "Não digo que tenha me curado dessa invalidez infame, autogerada e cultivada quase amorosamente durante anos, mas digo, sim, que estou conseguindo fazer coisas que até poucos dias atrás eram impensáveis. Não quero imaginar tudo o que ainda  me resta fazer; não é terapêutico fixar-se nas carências. Já tenho provas de que, como sou capaz de me entregar a essas tarefas espantosas de tão entediantes, a boa atividade surge por si só, como uma exigência natural do corpo, como uma consequência natural e lógica. Vale a pena chegar ao tédio, mergulhar no fundo deste, porque dali nascem os impulsos corretos."

      "Seria necessário encontrar uma fórmula para que os artistas pudessem sobreviver sem a necessidade de traficar seus direitos autorais; seria preciso aniquilar esse sistema podre de editores chupadores de sangue, do livro como objeto, das perseguições a quem faz fotocópias ou pirateia. É verdade: um escritor que acerta com um título que cai no gosto popular pode enriquecer da noite para o dia (dificilmente neste país, claro), sem falar dos autores de software. Mas todos sabemos que enriquecer é uma forma também de empobrecer e, de todo modo, os que querem entrar nesse sistema, tudo bem, que vão em frente."

     "É o delírio, a busca pela catarse, a imposição do trabalho que devo realizar - queira ou não - com a única, fugidia esperança de chegar algum dia a um ponto final, ficar vazio, exausto, limpo - e pronto para outra. Pois devo insistir no fato de que nenhuma das experiências luminosas e nenhuma das experiências libertadoras serviram para poder dizer "pronto", "atingi", "era isso". Além do mais, se alguma vez busquei - ou até se consegui - alcançar algo que me permitisse dizer "pronto", "atingi", agora tenho bastante consciência de que isso só se alcança com a morte, e contra isso, pois, disparo mais do que contra o demônio em si. Que ninguém se engane: não tenho nenhuma grande sabedoria para transmitir e espero nunca ter. O nome da sabedoria é: arteriosclerose."

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O ROMANCE LUMINOSO, de MARIO LEVRERO



     Fazia tempo que não maltratava tanto um livro. O exemplar de "O romance luminoso", do escritor uruguaio Mario Levrero, que li ao longo de meses, andou pelo banco traseiro e tampa de bagageiro, às vezes pelo piso do carro, por conta de freadas bruscas, entrando e saindo de consultórios médicos (sendo esquecido aqui e ali), largado de mão por semanas, agarrado novamente com avidez, pois...

     Bem, Enrique Vila-Matas disse que "foi com ele até a derrota final, incapaz de deixar de lado", o que não se deu comigo por não-sei-o-quê. Pois é viciante, mesmo. O prazer da escrita provoca sua replicação na leitura. Minha leitura se deu assim, em blocos intensos, interrompida por demandas obrigatórias e exasperantes. Mas não o perdi de vista. E devo confessar que reli trechos para engatar a retomada da leitura.

      Não creio que "O romance luminoso" venha a "se tornar o novo farol do que será escrito num futuro próximo no nosso continente", como apregoa Joca Reiners Terron no texto da orelha. Mario Levrero entrega-se ao texto com volúpia, dedica-se a nele se encontrar, a reconstruir momentos e experiências luminosas e a encontrar o que ainda para ele não se fez luminoso. Ou seja, produz um texto que se desdobra em orações infindas, cada uma sendo (aí, sim) fachos de luz prenhes de aroma e gosto. Comprometido apenas com a literatura, com o sonho e a loucura humanos. Sei não, turminha anda por aí comprometida com questões sociais mais candentes e ainda muito apegada a frases curtas, ordem direta e ao abortamento e assassinato em massa de adjetivos e advérbios. "Tudo pelo facilitário", como diria um amigo meu.

       Levrero escreveu esse tal romance em 1984, que ficou inconcluso (e talvez ainda esteja) até o episódio da bolsa Guggenheim, em 2000, ocasião em que o retoma. Ou não, posto que a partir de então Levrero escreveu o que veio a chamar de "Diário da bolsa", e que constitui a primeira e maior parte de "O romance luminoso", publicado aqui pela Companhia das Letras, em 2018, com tradução de Antonio Xerxenesky.

     Destaco alguns trechos do "Diário da bolsa":

     "É difícil descobrir os próprios preconceitos, que se grudam na mente acompanhados de uma espécie de soberba, não sei explicar de que estranha maneira isso ocorre. Esses anões se instalam ali como ditadores absurdos, e os aceitamos como verdades reveladas. Muito de vez em quando, e por algum acidente ou acaso, a pessoa se sente obrigada a rever um preconceito, discutir consigo mesma, erguer o véu, olhar através dele e vislumbrar como é a realidade das coisas. Nesses casos, é possível desarraigá-lo. Mas todos os demais continuam de pé, dissimulados, nos levando de forma desatinada por caminhos errados."

      "Estimado sr. Guggenheim, acho que o senhor gastou mal seu dinheiro nesta bolsa que me concedeu com tanta generosidade. Minha intenção era boa, mas a verdade é que não sei o que aconteceu com ela. Já se passaram dois meses: julho e agosto, e a única coisa que fiz até agora foi comprar essas poltronas (que não estou usando) e consertar o chuveiro ( que também não estou usando.) Passei o resto do tempo jogando no computador. Nem sequer posso entregar como equivalente este diário da bolsa; o senhor deve ter notado como deixo assuntos em suspenso e depois não consigo voltar a eles. Bom, só queria lhe dizer essas coisas. Muitas saudações, e mande lembranças à sra. Guggenheim."

   "Ao levantar a persiana do quarto, vi uma vez o cadáver de uma pomba num telhado muito próximo deste edifício. Tinha visto já faz uns dias, e voltei a vê-lo recentemente, e nessa segunda oportunidade vi a companheira da pomba morta em atitude de velório, parada muito quieta a um ou dois metros do corpo, de costas para mim, olhando fixamente para o morto. Ou quem sabe para onde, porque quando uma pomba quer olhar algo à sua frente, põe a cabeça de lado, como os vesgos; mas a verdade é que seu bico encarava o centro do corpo morto. Hoje tornei a vê-la; parece que é verdade o que li sobre o luto das pombas."

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO, de CARSON McCULLERS



   Sim, o coração é um caçador solitário. E eu lamento profundamente que esse título não tenha sido dado pela autora, mas pelo editor. O título que Carson McCullers havia escolhido para o seu manuscrito foi simplesmente "O mudo". Palmas para o editor, outros tempos.
   Aos 23 anos de idade, eu lutava com o fato de ser bancário, trabalhar à noite e cursar de dia uma faculdade que logo logo abandonaria. Aos 23 anos, Carson McCullers lançava seu primeiro romance, O coração é um caçador solitário, e deixava leitores e crítica embasbacados ao descobrirem que o Sul dos EUA não pertencia exclusivamente a Faulkner. E um ano depois, Carson sofria seu primeiro AVC, o que a levaria a morte aos 50 anos. 
    Vejo sua foto no livrete que a TAG encaminha junto ao livro do mês: rostinho de adolescente com jeito de comediante, narizinho arrebitado, cabelos curtos. Tez branca. E vejo a grandeza do inexplicável. Pego outro livro dela, A balada do café triste, publicado pela José Olympio Editora, e nesta tarde quente de quinta-feira não há como evitar a emoção, dá pra sentir "a fluida e interminável passagem da espécie humana pelo interminável curso do tempo. E daqueles que trabalham e daqueles que  - numa palavra -  amam."
    Não há beleza que se esconda para sempre. Escritora dos excluídos, dos diferentes, Carson McCullers deve ser leitura obrigatória para quem acredita que a força dominante precisa ser confrontada com a potência das minorias. Mr. Singer é qualquer um de nós que sofre por seu igual ou seu igual na diferença. Mr. Singer não tem voz, mantém suas mãos nos bolsos a maior parte do tempo, pouco entende do que lhe dizem, mas é o homem em sua plenitude, todos lhe procuram, a todos acolhe. "Ela examinou o coração do homem com uma capacidade de entendimento... que nenhum outro escritor pode desejar superar", disse T. Williams.
     Li os contos de A balada do café triste e depois enfrentei o maravilhoso romance O coração é um caçador solitário. E, sim, essa garota branca e adoentada soube escrever sobre os destituídos, em especial, os deficientes e os negros do sul norte-americano de forma magnífica. Concentrada no humano, McCullers, no meu modestíssimo entender, supera Faulkner, se não por extensão, por concentração de dor, esperança e compaixão.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

RITOS, de NICANOR PARRA




Cada vez que regresso
A meu país
                  depois de uma longa viagem
A primeira coisa que faço
É perguntar pelos que morreram:
Todo homem é um herói
Pelo simples fato de morrer
E os heróis são nossos mestres.

E em segundo lugar
                               pelos feridos.

Só depois
               não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção do começo do século.


Ritos, de Nicanor Parra, extraído de Para maiores de cem anos, antologia (anti)poética com seleção e tradução de Joana Barossi e Cide Piquet, publicada em edição bilingue pela Editora 34, em 2018.






sábado, 12 de janeiro de 2019

PELÉ E GARRINCHA




   

   no dia seguinte ao que nasci
   numa gasta cama de varas
   no distante Brundué,
   pela vez primeira
   jogaram juntos na seleção
   aqueles que foram Garrincha e Pelé

   tudo fizeram por nove anos
   (quarenta partidas, nenhuma derrota)
   para que eu fosse digno e feliz

   por eles eu nada fiz,
   além destes versos tacanhos