quarta-feira, 1 de maio de 2019

AS MARGENS DO PARAÍSO, de LIMA TRINDADE


    
   O Brasil parece parado no tempo a repetir experiências sem gerar aprendizado relevante. Tudo que construímos ostenta marcas passadiças, propósitos turvos, resultados duvidosos à custa do suor e do sangue dos mais pobres. Agora mesmo somos arrastados por uma onda reversa que pretende ressuscitar o país de 50 anos atrás, aquele que a Ditadura Militar engendrou com seus atos institucionais. Piorado, em verdade, por um fundamentalismo religioso que espanta por sua solidez e profunda ramificação nos estratos sociais. Temos, sim, uma tendência ao desastre, por mais que nossa bossa brilhe nos palcos do mundo.

   Em seu primeiro romance, As margens do paraíso, Lima Trindade deixa isso bem claro: projetamos paraísos sobre corpos despedaçados e almas corrompidas; estamos sempre às margens de algo promissor, marcados por desesperança e perdas irreparáveis. Do Rio de Janeiro, de Juazeiro/BA e de Anápolis/GO partem os três protagonistas do romance - Rubem, Leda e Zaqueu - em busca da nova Canaã, a Brasília que os candangos erguiam no Planalto Central do Brasil. Jovens, deslocados em seus ambientes de origem, Brasília representou para eles, e aos brasileiros em geral, o farol e a oportunidade quando a crise se instalou em suas existências. Fico pensando que jovens como eles acorreram a várias outras terras prometidas ao longo de nossos séculos, obtendo resultados bem parecidos ou iguais. Porque "o sistema é bruto", já se conhece bem o bordão.

   Lima Trindade mostra apuro na definição particular das vozes narrativas e no trabalho de pesquisa que recupera ambientes e climas nas diversas cidades envolvidas na trama e naquela que se constrói na interlândia. Brasiliense de nascimento, Trindade oferece ao leitor, enquanto expõe o drama que move e aproxima seus personagens na capital que ajudam a construir, o conhecimento do cotidiano dos peões nos canteiros de obras e nos barracões, nas biroscas empoeiradas e nos puteiros baratos e de luxo, e até mesmo dos trabalhadores mais qualificados, entre esses, os embriões ou filhotes dos empreiteiros celebridades da contemporaneidade. Por isso a impressão de que estamos a nos repetir da pior forma possível. 

    A construção de Brasília durante o governo JK até hoje provoca polêmica. Mas sua edificação, em si mesma, foi grandiosa em todos os sentidos. A propaganda governamental tem nos bombardeado ao longo das décadas com seus aspectos positivos, mas sabemos que essa é uma história que ainda esconde episódios nebulosos e trágicos, que merecem investigação sensível e cuidadosa, como essa que nos traz As margens do paraíso

     O romance recupera um grande momento do Brasil - campeão do mundo no futebol em 1958, Pelé e Garrincha, a bossa nova, JK e Brasília - para costurar com a alegria, o gozo e o desespero da juventude de seus protagonistas, um sonho de construção de um mundo melhor. Sonho que nunca nos cansamos de sonhar, cobertos de poeira ou de mágoa, embriagados por idealismo ou por álcool,  mesmo ao comungar com Mauro, personagem que funciona como arauto do novo mundo, quando afirma: "Reflito nesse momento de profundo vazio e na ideia de que, algumas vezes, a única saída existente seja abraçar a bala em seu trajeto, seja esquecer o medo, não olhar para trás."

   Lima Trindade realiza com As margens do paraíso uma bela contribuição à literatura brasileira, ao romance social que temos praticado contemporaneamente. 


As margens do paraíso, Lima Trindade, Companhia Editora de Pernambuco - CEPE, Recife, 2019

segunda-feira, 29 de abril de 2019

GAME OF THRONES





    A série Game of Thrones - GoT tem ambiência sombria, múltipla direção e custos altos. Pois bem: desde a sétima temporada a série meio que desbrava o enredo, posto que GRRMartin não concluiu a saga nos livros que publicou. Presa ao "estilo" que adotou, GoT provoca críticas e comentários os mais diversos a cada episódio. Eu li os cinco tomos publicados d'As crônicas de Gelo e Fogo e garanto a vocês que não senti falta do que foi extirpado da trama em benefício de clareza e agilidade. Mas há quem...
   
    Bem, dos vários textos que li durante o day after da Batalha de Winterfell ressaltam críticas à escuridão das cenas, não bastasse a luta ter sido travada durante uma noite invernal. Não vejo motivo para queixas: as melhores cenas do 3o episódio só foram possíveis por conta da escuridão reinante (sem trocadilho). Senão vejamos: 1) o acendimento das foices dos dothraki, pela feiticeira Melisandre, exigia o contraste para que a sequência tivesse o efeito plástico que teve, 2) o avanço dos dothraki na direção do exército dos mortos, na direção da escuridão, visto de perto ou à distância, foi bem bacana, 3) e o choque dos dothraki com a massa do exército dos mortos, como foi filmado, realizou momento precioso de puro cinema - luz e escuridão, a luz se apagando aos poucos até a escuridão imperar. Numa economia gigantesca de recursos de todos os naipes, a direção mostrou o enfrentamento e a derrota dos dothraki apenas com jogo de luz e sombra - isto é cinema. Mais que isso, representou uma economia enorme para a produção e para os olhos dos telespectadores, que teriam pela frente muitas cenas sangrentas. Considerei primorosa a cena 3.

     No mais, o episódio 3 exibido ontem teve o condão de encerrar a luta contra o Rei da Noite e seu exército de mortos, vilões sem voz e sem um propósito maior a alcançar, sem qualquer empatia. Agora vamos a Cersei, esta sim, vilã das mais impressionantes e admiráveis.


Foto: Arya, personagem vivida por Maise Williams, Bol

quarta-feira, 24 de abril de 2019

SONS DE MERCÚRIO


    
     Seguindo pela Linha Verde até Sergipe, ouvimos pela primeira vez o cd Entre crendices e amores pagãos, assinado por Sons de Mercúrio, banda de Feira de Santana. O álbum tem direção artística de Cartre Sans e Mohzah Nascimento, parceiros em todas as composições (em uma delas, Thiago junta-se à dupla). São treze canções que podem muito bem ser apreciadas como movimentos de uma sinfonia, mesmo porque as letras giram em torno do tema/título do disco.

     A presença de guitarras e da batida típica do velho rock modulam a sequência de canções, como se fosse um roteiro do show da banda. As melodias, as letras, os arranjos, os vocais se sucedem de forma harmônica, com uma base técnica notável, consolidando o entendimento de que Entre crendices e amores pagãos é, sim, um excelente disco.


     De minha parte, enquanto ouvia Sons de Mercúrio, fiz uma viagem paralela, emocional e bem particular, revisitando os anos 1970 e identificando a irmandade daquele som com o trabalho imortal da Banda de Pau e Corda, do Quinteto Violado, do Pessoal do Ceará, de Sá, Rodrix & Guarabira... Uma irmandade assim é bem mais que um elogio, é um selo de rara qualidade que confiro às maviosas toadas, cantigas e rocks-rurais que me embalaram ao volante do carro na manhã da quinta-feira santa. Enquanto, no íntimo, lastimava por todos que ainda não ouviram Entre crendices e amores pagãos, um disco arrojado que nasce clássico, um trabalho que merece os prêmios que houver por aí na MPB e, claro, ser conhecido logo nacionalmente. 

domingo, 14 de abril de 2019

DIVISADERO, de MICHAEL ONDAATJE





      A melhor receita de vida é estar aberto a novas leituras, a novos autores, daqui e d'alhures, deste ou de outros tempos; melhor receita não só para um crescimento pessoal saudável, mas para uma atitude de correta honestidade intelectual. De outra maneira é como se aprisionar a um território e suas parcas possibilidades  -  por mais que as consideremos plenas  -  ou a um cânone gélido - por mais que o consideremos insuperável. Como saber, se não experimentarmos? Eu sou um que se considera imperfeito, incompleto e ansioso por conhecimento  -  o que sou, o que tenho, o que conheço, o que sei, ou o que penso ser, ter, conhecer e saber, parece-me muito pouco. E foi assim que cheguei a Ondaatje, por exemplo. Já o conhecia de O paciente inglês, filme adaptado de um romance seu. Mas não o havia lido, ainda; e isso não fazia parte dos meus planos. Até que topei com...

      Divisadero é um romance contemporâneo clássico. Narrativa entrecortada e vertiginosa, polifônica, com narradora principal complexa, mais metaliteratura e a presença dos textos clássicos dando suporte à construção dos personagens e de tudo o mais. Colette, Dumas, Hugo, Stendhal, uma verdadeira homenagem à literatura e à cultura francesa, não transcorresse grande parte do enredo em solo francês, em tempos diversos. Sem falar em Nietzsche e em Lupicínio Rodrigues. É que...

    Bem, seguindo o autor, podemos dizer que Divisadero tem na sua construção algumas frases pilares: "Temos a arte, para que não sejamos destruídos pela verdade", de Nietzsche, é uma delas, a que Anna, a narradora principal, recorre sempre como viga mestra de sua existência. Uma outra: "Se acabarei sendo o herói de minha própria vida, ou se esse posto será ocupado por outra pessoa, é o que estas páginas precisam mostrar", que bem poderia ser a epígrafe do romance. E os versos de Lupicínio, em Um favor, mal traduzidos como "Se algum de vocês a vir em suas jornadas  -  gritem-me, assobiem...", mas que o autor reconhece nas notas ter sido "o que começou essencialmente este livro".

         Divisadero se ocupa de rupturas, de partições, da busca que fazemos de nós mesmos no outro. Anna se descobre mulher com o irmão de criação, Cooper, gerando com isso o esfacelamento de seu núcleo familiar. Mais tarde, na França, Anna pesquisa a vida do poeta Lucien Segura, conhece e namora o cigano Rafael, enquanto Cooper enfrenta as durezas da jogatina e Claire, a outra irmã de criação, investiga casos para a promotoria da Califórnia. A biografia do poeta francês levantada por Anna, parte final do romance, reproduz o cerne da proposta de Ondaatje: as muitas vidas que vivemos possuem divisas bem definidas e pouco somam umas às outras. Mas deixam marcas indissolúveis, que arrastamos para sempre. É que, como afirma Anna no texto: "É a fome, aquilo que não temos, que nos mantêm juntos".


Divisadero, de Michael Ondaatje, tradução de Augusto Pacheco Calil, Companhia das Letras, SP, 2008.

     

domingo, 31 de março de 2019

AS MARGENS DO PARAÍSO, de LIMA TRINDADE




     O primeiro lançamento foi ontem, na livraria LDM, daqui de Salvador. Outros lançamentos virão em Brasília, Rio de Janeiro e Porto Alegre, e mais que a memória me falta. Em tempos nublados, Lima Trindade viaja ao período de construção da capital federal, onde nasceu, para acompanhar a jornada de três personagens. Estou começando a leitura, mas já deixo aqui um aperitivo:



    [...] O movimento nas escadas é nervoso, pois o elevador está sempre em manutenção. Ninguém reclama. Estão acostumados. Passa noite atrás de noite e o cartaz de aviso continua preso à porta enferrujada. De qualquer forma, estou me lixando se o elevador funciona ou não. Tirando o velho Ápio, não vou muito com a cara de ninguém por aqui. No fundo, quero mais é que o Frederico Ribeiro se exploda. Só não mudo de colégio, não me arranco de uma vez por todas, por causa da maldita bolsa. Só por isso. Não fosse por ela, tava noutra. Bom, mas bom mesmo, seria estar no apartamento da Janete, tomar banho de banheira e foder até não aguentar mais.



As margens do paraíso, de Lima Trindade, publicado pela CEPE Editora, 2019.

sábado, 16 de março de 2019

LÉXICO FAMILIAR, de NATALIA GINZBURG






     Um livro especial, uma biografia familiar para ser lida como romance, na sugestão da própria autora. Vida real, nomes reais, mas todo mistério que cerca o viver submetida, no caso, a um pai dado a rompantes autoritários e em um tempo de afirmação do fascismo na Itália. Contra o qual, diga-se logo, a família se posicionou e, por conta disso, sofreu duras consequências. 
     Natalia Ginzburg quase nada relata de sua própria vida no seio da família: é o olhar, a escuta e a memória que fixa e nos entrega nesse livro os fazeres e dizeres de uma família italiana de origem judia nos duros tempos do fascismo. Com uma preocupação nítida em recuperar o linguajar praticado pelos pais, irmãos, parentes e amigos, frases e expressões que representam chaves emocionais instantâneas e eternas.
     O Ginzburg, Natalia ganhou quando se casou com Leone, amigo de seus irmãos e companheiro de luta política, que morreu na prisão, deixando-a com três filhos, um deles o renomado historiador Carlo Ginzburg. Natalia Ginzburg trabalhou na famosa editora Einaud, ao lado de Cesare Pavese e Italo Calvino, figuras que aparecem no livro em passagens marcantes.
       Trechos:
     Meu pai voltava para casa sempre furioso, por ter encontrado no caminho cortejos de camisas-negras; ou por ter descoberto nas reuniões da faculdade novos fascistas entre seus conhecidos: - Palhaços! Safados! Palhaçadas! - dizia, sentando-se à mesa; batia o guardanapo, batia o prato, batia o copo e bufava de desprezo. [...]
     Meu pai, quando morria uma pessoa, acrescentava imediatamente a seu nome a palavra "finado"; e ficava bravo com minha mãe que não fazia o mesmo. Esse do "finado" era um hábito muito respeitado na família de meu pai: minha avó, referindo-se a uma irmã falecida, dizia invariavelmente a "finada Regina" e não a evocava de outro modo. [...]
      Quanto à minha mãe, ela era de índole otimista e esperava algum belo golpe de cena. Esperava que um dia alguém, de algum modo, "derrubasse" Mussolini. Minha mãe saía, de manhã, dizendo: - Vou ver se o fascismo continua de pé. Vou ver se derrubaram Mussolini. - Recolhia alusões e boatos nas lojas, e tirava disso auspícios animadores. 

Léxico familiar, de Natalia Ginzburg, com tradução de Homero Freitas de Andrade, prefácio de Alejandro Zambra e posfácio de Ettore Finazzi-Agrò, Companhia das Letras, 2018.





     

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O ROMANCE LUMINOSO, de MARIO LEVRERO (2)




     Mario Levrero é um dos pseudônimos do escritor uruguaio Jorge Varlotta. Pode ser, portanto, a personagem ficcional principal de "O romance luminoso" sem necessidade de maiores explicações. Ele é ele mesmo, reticências, o escritor recluso que ministra oficinas e luta com a fracassada escrita de um romance, escrevendo um diário. E dessa forma, "O romance luminoso" talvez não possa ser classificado como autoficção ou autobiografia. O que lemos resulta, sem fim e sem cabo, em peça de imaginação vertiginosa calcada na perturbadora realidade de um sessentão repleto de esquisitices e hipocondria(s). A burla premiada.

     Volto a "O romance luminoso" porque ainda faço sua digestão e sobre ele disse aqui muito pouco. Duas partes o compõem: o diário e o rascunho do romance iniciado em 1984. Ou talvez não seja nada disso, e sim: um romance sobre o desespero da solidão que o envelhecimento traz, junto com certa impotência para a execução de projetos, o que deságua em sonhos perturbadores e visões fantasmagóricas. Um romance acrescido de outro romance, de menor extensão, sobre experiências luminosas vividas pelo protagonista, de 44 anos de idade, mas o mesmo que escrevinha depois o diário. Ou não, como bem quer o mano Caetano.

     O tal sessentão diarista é louco, assim dado pelo psiquiatra, que o vem consultar exatamente por ele ser um louco, como também pela própria filha que com ele tem pela primeira vez uma conversa fluida e sincera, simplesmente, por ter aberto o diálogo com a frase "O senhor é louco". Que alívio, não? Mas é um louco que investiga suas loucuras, utilizando a linguagem como ferramenta preciosa, para nosso deleite. Leitor compulsivo de romances policiais, maníaco por jogos de computador, é um que tem muitas amigas; com umas passeia, com outras se deita e por aí vai, como sói acontecer aos sessentões. Dizem.

     Fato é que Levrero promove as entradas do seu "Diário da bolsa" com precisão matemática, ou por conta dos recursos de um dos programas de computador que tanto curte customizar. E com dúvidas deliciosas, que empurram a narrativa em várias direções, mas sempre com espírito novidadeiro e gracejante. Vou encerrar essa conversa de maluco com algo que me surpreendeu, em meio a tanto tédio, lá pela página 544, já no corpo do primevo "O romance luminoso": a narrativa impressionante e espetacular de um coito anal. Durmam com essa, se puderem. Páginas 544 e 545, para ser mais preciso.

      Mais umas mostras:

      "Não digo que tenha me curado dessa invalidez infame, autogerada e cultivada quase amorosamente durante anos, mas digo, sim, que estou conseguindo fazer coisas que até poucos dias atrás eram impensáveis. Não quero imaginar tudo o que ainda  me resta fazer; não é terapêutico fixar-se nas carências. Já tenho provas de que, como sou capaz de me entregar a essas tarefas espantosas de tão entediantes, a boa atividade surge por si só, como uma exigência natural do corpo, como uma consequência natural e lógica. Vale a pena chegar ao tédio, mergulhar no fundo deste, porque dali nascem os impulsos corretos."

      "Seria necessário encontrar uma fórmula para que os artistas pudessem sobreviver sem a necessidade de traficar seus direitos autorais; seria preciso aniquilar esse sistema podre de editores chupadores de sangue, do livro como objeto, das perseguições a quem faz fotocópias ou pirateia. É verdade: um escritor que acerta com um título que cai no gosto popular pode enriquecer da noite para o dia (dificilmente neste país, claro), sem falar dos autores de software. Mas todos sabemos que enriquecer é uma forma também de empobrecer e, de todo modo, os que querem entrar nesse sistema, tudo bem, que vão em frente."

     "É o delírio, a busca pela catarse, a imposição do trabalho que devo realizar - queira ou não - com a única, fugidia esperança de chegar algum dia a um ponto final, ficar vazio, exausto, limpo - e pronto para outra. Pois devo insistir no fato de que nenhuma das experiências luminosas e nenhuma das experiências libertadoras serviram para poder dizer "pronto", "atingi", "era isso". Além do mais, se alguma vez busquei - ou até se consegui - alcançar algo que me permitisse dizer "pronto", "atingi", agora tenho bastante consciência de que isso só se alcança com a morte, e contra isso, pois, disparo mais do que contra o demônio em si. Que ninguém se engane: não tenho nenhuma grande sabedoria para transmitir e espero nunca ter. O nome da sabedoria é: arteriosclerose."

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O ROMANCE LUMINOSO, de MARIO LEVRERO



     Fazia tempo que não maltratava tanto um livro. O exemplar de "O romance luminoso", do escritor uruguaio Mario Levrero, que li ao longo de meses, andou pelo banco traseiro e tampa de bagageiro, às vezes pelo piso do carro, por conta de freadas bruscas, entrando e saindo de consultórios médicos (sendo esquecido aqui e ali), largado de mão por semanas, agarrado novamente com avidez, pois...

     Bem, Enrique Vila-Matas disse que "foi com ele até a derrota final, incapaz de deixar de lado", o que não se deu comigo por não-sei-o-quê. Pois é viciante, mesmo. O prazer da escrita provoca sua replicação na leitura. Minha leitura se deu assim, em blocos intensos, interrompida por demandas obrigatórias e exasperantes. Mas não o perdi de vista. E devo confessar que reli trechos para engatar a retomada da leitura.

      Não creio que "O romance luminoso" venha a "se tornar o novo farol do que será escrito num futuro próximo no nosso continente", como apregoa Joca Reiners Terron no texto da orelha. Mario Levrero entrega-se ao texto com volúpia, dedica-se a nele se encontrar, a reconstruir momentos e experiências luminosas e a encontrar o que ainda para ele não se fez luminoso. Ou seja, produz um texto que se desdobra em orações infindas, cada uma sendo (aí, sim) fachos de luz prenhes de aroma e gosto. Comprometido apenas com a literatura, com o sonho e a loucura humanos. Sei não, turminha anda por aí comprometida com questões sociais mais candentes e ainda muito apegada a frases curtas, ordem direta e ao abortamento e assassinato em massa de adjetivos e advérbios. "Tudo pelo facilitário", como diria um amigo meu.

       Levrero escreveu esse tal romance em 1984, que ficou inconcluso (e talvez ainda esteja) até o episódio da bolsa Guggenheim, em 2000, ocasião em que o retoma. Ou não, posto que a partir de então Levrero escreveu o que veio a chamar de "Diário da bolsa", e que constitui a primeira e maior parte de "O romance luminoso", publicado aqui pela Companhia das Letras, em 2018, com tradução de Antonio Xerxenesky.

     Destaco alguns trechos do "Diário da bolsa":

     "É difícil descobrir os próprios preconceitos, que se grudam na mente acompanhados de uma espécie de soberba, não sei explicar de que estranha maneira isso ocorre. Esses anões se instalam ali como ditadores absurdos, e os aceitamos como verdades reveladas. Muito de vez em quando, e por algum acidente ou acaso, a pessoa se sente obrigada a rever um preconceito, discutir consigo mesma, erguer o véu, olhar através dele e vislumbrar como é a realidade das coisas. Nesses casos, é possível desarraigá-lo. Mas todos os demais continuam de pé, dissimulados, nos levando de forma desatinada por caminhos errados."

      "Estimado sr. Guggenheim, acho que o senhor gastou mal seu dinheiro nesta bolsa que me concedeu com tanta generosidade. Minha intenção era boa, mas a verdade é que não sei o que aconteceu com ela. Já se passaram dois meses: julho e agosto, e a única coisa que fiz até agora foi comprar essas poltronas (que não estou usando) e consertar o chuveiro ( que também não estou usando.) Passei o resto do tempo jogando no computador. Nem sequer posso entregar como equivalente este diário da bolsa; o senhor deve ter notado como deixo assuntos em suspenso e depois não consigo voltar a eles. Bom, só queria lhe dizer essas coisas. Muitas saudações, e mande lembranças à sra. Guggenheim."

   "Ao levantar a persiana do quarto, vi uma vez o cadáver de uma pomba num telhado muito próximo deste edifício. Tinha visto já faz uns dias, e voltei a vê-lo recentemente, e nessa segunda oportunidade vi a companheira da pomba morta em atitude de velório, parada muito quieta a um ou dois metros do corpo, de costas para mim, olhando fixamente para o morto. Ou quem sabe para onde, porque quando uma pomba quer olhar algo à sua frente, põe a cabeça de lado, como os vesgos; mas a verdade é que seu bico encarava o centro do corpo morto. Hoje tornei a vê-la; parece que é verdade o que li sobre o luto das pombas."

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO, de CARSON McCULLERS



   Sim, o coração é um caçador solitário. E eu lamento profundamente que esse título não tenha sido dado pela autora, mas pelo editor. O título que Carson McCullers havia escolhido para o seu manuscrito foi simplesmente "O mudo". Palmas para o editor, outros tempos.
   Aos 23 anos de idade, eu lutava com o fato de ser bancário, trabalhar à noite e cursar de dia uma faculdade que logo logo abandonaria. Aos 23 anos, Carson McCullers lançava seu primeiro romance, O coração é um caçador solitário, e deixava leitores e crítica embasbacados ao descobrirem que o Sul dos EUA não pertencia exclusivamente a Faulkner. E um ano depois, Carson sofria seu primeiro AVC, o que a levaria a morte aos 50 anos. 
    Vejo sua foto no livrete que a TAG encaminha junto ao livro do mês: rostinho de adolescente com jeito de comediante, narizinho arrebitado, cabelos curtos. Tez branca. E vejo a grandeza do inexplicável. Pego outro livro dela, A balada do café triste, publicado pela José Olympio Editora, e nesta tarde quente de quinta-feira não há como evitar a emoção, dá pra sentir "a fluida e interminável passagem da espécie humana pelo interminável curso do tempo. E daqueles que trabalham e daqueles que  - numa palavra -  amam."
    Não há beleza que se esconda para sempre. Escritora dos excluídos, dos diferentes, Carson McCullers deve ser leitura obrigatória para quem acredita que a força dominante precisa ser confrontada com a potência das minorias. Mr. Singer é qualquer um de nós que sofre por seu igual ou seu igual na diferença. Mr. Singer não tem voz, mantém suas mãos nos bolsos a maior parte do tempo, pouco entende do que lhe dizem, mas é o homem em sua plenitude, todos lhe procuram, a todos acolhe. "Ela examinou o coração do homem com uma capacidade de entendimento... que nenhum outro escritor pode desejar superar", disse T. Williams.
     Li os contos de A balada do café triste e depois enfrentei o maravilhoso romance O coração é um caçador solitário. E, sim, essa garota branca e adoentada soube escrever sobre os destituídos, em especial, os deficientes e os negros do sul norte-americano de forma magnífica. Concentrada no humano, McCullers, no meu modestíssimo entender, supera Faulkner, se não por extensão, por concentração de dor, esperança e compaixão.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

RITOS, de NICANOR PARRA




Cada vez que regresso
A meu país
                  depois de uma longa viagem
A primeira coisa que faço
É perguntar pelos que morreram:
Todo homem é um herói
Pelo simples fato de morrer
E os heróis são nossos mestres.

E em segundo lugar
                               pelos feridos.

Só depois
               não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção do começo do século.


Ritos, de Nicanor Parra, extraído de Para maiores de cem anos, antologia (anti)poética com seleção e tradução de Joana Barossi e Cide Piquet, publicada em edição bilingue pela Editora 34, em 2018.






sábado, 12 de janeiro de 2019

PELÉ E GARRINCHA




   

   no dia seguinte ao que nasci
   numa gasta cama de varas
   no distante Brundué,
   pela vez primeira
   jogaram juntos na seleção
   aqueles que foram Garrincha e Pelé

   tudo fizeram por nove anos
   (quarenta partidas, nenhuma derrota)
   para que eu fosse digno e feliz

   por eles eu nada fiz,
   além destes versos tacanhos