sábado, 6 de maio de 2017

RUY ESPINHEIRA FILHO, BABILÔNIA




    Está chegando mais um livro de poemas de Ruy Espinheira Filho, Babilônia e outros poemas. O lançamento acontecerá no próximo dia 12 de maio, na cidade de São Paulo, na sede da Editora Patuá, no bar-café Patuscada, rua Luis Murat, 40, Vila Madalena.
    Este é mais um presente que Ruy oferece aos seus leitores, e à literatura brasileiro, no ano em quem completará 75 anos de caminhada. Uma coleção de poemas inéditos do poeta mais importante em atividade no país. Pronto, falei.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

FLORISVALDO MATTOS, POETA DAS PRECIOSIDADES


       Dia 6 de abril, Florisvaldo Mattos publica seu oitavo livro de poemas, "Estuário dos dias", que sai pela Caramurê. Às vésperas de seu aniversário, poeta das preciosidades, Flori adiciona 97 poemas inéditos a sua consistente obra. O evento será no Palacete das Artes, na Graça, a partir das 19 horas. Fica o convite aos amantes da boa literatura.

     Faço aqui um breve apanhado de preciosidades que garimpei, rapidamente, em "Galope amarelo e outros poemas", Edições Cidade da Bahia, Fundação Gregório de Matos, 2001.

   Debaixo dos cílios negros / passaram águas pesadas.
                                             (Debaixo dos cílios negros)

   Me tragam aquelas meninas / que eu conheci lá em Jáen
   cantando na procissão / ao Cristo que a todos vem;
   me caso com todas elas / para o mal ou para o bem,
   mas se me derem só uma / me satisfaço também 
                      (Balada do Legionário Condenado à Morte)

   Em teus pés a bola, planeta submisso,
   rola com júbilo entre galáxias de cristal.
                      (Maradona, el pibe maldito)     

   Gosto / no limitado espaço / de teu andar suave
   de ave / distância de barco / no azul da enseada
                                              (Entretanto desertos)

   Navalhas reinam; abrem sua esteira
   com a força de um trator rasgando neve
                                    (Escritura em pedra)

   cabra: o capim ao sonho preferindo [...]
   flor animal, sonora arquitetura.
                                                        (Cabra)

   Fique no ouvido o som terrível,
   cravem na carne os estilhaços,
   antes me quero morto ou sofrido,
   porém honrado.
                   (Poema preposicionado)

   Quando ele voltou / a moça do portão estava casada
   o prefeito era uma cruz e uma placa [...]
   Quando ele partiu / a primavera galopava nos rosais
                                                           (Galope amarelo)

   Sou todo uma selva de hábitos
   e nada sei que outros lábios
   já não tenham dito ou tentado.
                       (Janela para o dia)   

   O silêncio perturba meu silêncio
   nauta que se perdeu / imobilizado pêndulo [...]
   Ficou a pele riscada de luto
   o cimento categórico do presente.
                                                               (Zoológico)
 
   Aves adotam poses de cegonha
   sobre muros pintados de cinzento.
   A hora respira infância: o tempo sonha.
                   (Grapiúna I, Tarde de agosto)

   Fica em silêncio que já te cubro, égua
   Fogosa, imersa em toldo florescente;
   Te pego pelo casco, jade puro;
   Te puxo pelas crinas rutilantes;
   Te arranco das encostas em que pastas.
                                           (Égua de Jade)

   Observo, transido: a enfermeira tem pernas roliças.
                                                    (Eletrocardio-sombra)

    Meu coração agora te pertence,
    lua que vaga sobre os rochedos
                                     (Rochedos)

    E enquanto eu mire um girassol nascendo
    E ele vislumbre ruínas que submergem,
    Dele eu seja o fim e ele, meu começo.
    (As coisas; Eu, o outro)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

HERBERTO HELDER, ÚLTIMOS VERSOS



[...]
se vendessem o gás a retalho o comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser de minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte, 
porque já não me fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como dizia o outro: a minha vida por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

   Aí está a parte final do último poema de "A morte sem mestre", de Herberto Helder, poeta português, morto em 2015 aos 84 anos de idade. Extraídos do volume "Poemas completos", publicado no Brasil pela editora Tinta da China como parte da coleção Grandes Escritores Portugueses, em 2016.