quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

AS GUERRAS DE SHAKESPEARE, RON ROSENBAUM


   "[...] a maioria das pessoas instruídas com quem conversei fora da academia não sabia que talvez haja dois Rei Lear, muito menos três Hamlet. E que as versões divergentes levantam questões sérias para todos os que se importam com essas peças. Essa é apenas uma dentre várias questões, debates, argumentos, guerras seculares, urgentes e genuinamente importantes que vêm acontecendo e que merecem atenção, caso achemos que vale a pena se interessar por Shakespeare. Até mesmo a razão de acharmos que vale a pena se interessar pela obra de Shakespeare é tema de um debate interessante. Devido a seus 'temas'? Devido à beleza e ao prazer da linguagem? Ou será que beleza e prazer não são mais categorias legítimas de valor? E o que torna diferentes, se é que são diferentes, a beleza e o prazer 'shakespearianos'?"

   Ron Rosenbaum é professor de jornalismo na Universidade Columbia (EUA), é formado em literatura inglesa por Yale e colaborador do New York Times Magazine. Publicou alguns livros bem recebidos por público e crítica, entre eles Para entender Hitler. Foram anos de pesquisa e entrevistas para escrever As guerras de Shakespeare.  As melhores passagens são aquelas ligadas ao diretor de teatro e cinema Peter Brook, a quem o livro é dedicado. Leiam a seguir uma de suas declarações:

   "- Um certo nível de escritor [...] usa os personagens como seus porta-vozes. O nível seguinte usa seres humanos, mas apenas aspectos deles, sua humanidade não é completa; outro nível pode dar vida rápida, mas só a um pequeno elenco, a pequenos papéis. Mas a noção de Shakespeare de que cada personagem tem facetas infinitas, de modo que podemos assistir a ele ano após ano, podemos dar interpretações novas a qualquer personagem e eles são sempre baseados em verdades que estão lá... Iso é inigualável, e acho que é inseparável de Shakespeare ser tão anônimo. Uma coisa que todos podemos concordar a seu respeito é que é o menos conhecido de todos os grandes escritores"

   Mais um pouquinho de Brook: "- Ele (Shakespeare) consegue entreouvir e notar dois tipos de coisa: toda a vida e todo o barulho que se despeja com grande entusiasmo. Mas, ao mesmo tempo, muito embora seja um homem bastante prático, consegue evocar, com palavras, mundos distantes, histórias estranhas, ideias espantosas, e elaborá-los e vinculá-los numa insinuação de significado na sociedade, com relação aos deuses, uma sensação de realidade cósmica... tudo isso pulsava em sua mente, todos esses níveis ao mesmo tempo."

   Leitura apaixonante. Sei que depois dela já repassei longos trechos de peças, cuja leitura, havia desprezado anteriormente, como Ricardo III, por exemplo. O problema é a tradução, que nos afasta do ritmo shakespeariano... bem, isso lá é outra imensa coisa. Conhecer a obra de Shakespeare já é muito e necessário e maravilhoso.



As guerras de Shakespeare, de Ron Rosenbaum, publicado pela Editora Record, 2001, em tradução de Maria Beatriz de Medina, 713 pgs.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

SVETLANA ALEKSIÉVITCH, O FIM DO HOMEM SOVIÉTICO


Ainda não li o mais recente livro da Svetlana lançado pela Companhia das Letras. Mas li um trecho da, digamos, introdução em uma livraria. Fotografei e agora divido com vocês.

"Barricadas são um lugar perigoso para um artista. Uma armadilha. Lá, a visão fica estragada, as pupilas se fecham, o mundo perde as cores. Lá, o mundo torna-se preto e branco. De lá, já não se distingue um ser humano, você só vê um ponto preto: um alvo."

Diagnóstico preciso do que assistimos no Brasil, nos últimos anos. E Svetlana fala da Rússia, antiga e recente. Parece que lutamos para ser quem ninguém mais almeja ser, pelo menos em lugares onde viceje um pouco de sanidade.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A FILHA PERDIDA, ELENA FERRANTE




   Todos os livros que li de Elena Ferrante são narrativas na primeira pessoa. A série napolitana é conduzida pela voz de Lenu, também Elena. Dias de abandono e a A filha perdida são conduzidas pelas vozes das mulheres protagonistas. De igual forma, Uma noite na praia, livro infantil, nos é contada pela boneca abandonada. O que isso quer dizer, por certo, críticos mundo afora já destrincharam, rotularam e carimbaram. De minha parte, vejo apenas uma predileção da autora, até o momento, por essa forma de contar histórias. Ou, simplesmente, porque as histórias "pediram" para vir a lume por essas vozes específicas. E fim. 

   A filha perdida traz uma professora de literatura que vai sozinha à praia no período das férias de verão. Aluga um apartamento numa cidadezinha da costa jônica e passa a frequentar certa faixa de praia em que pontua uma família napolitana. Férias na praia, família napolitana, um moço chamado Gino, uma jovem mãe casada com um homem mais velho, uma menina chamada Elena e sua inseparável boneca, universo bem conhecido dos leitores de Ferrante. Nada de importante parece acontecer e fatos terríveis se preparam. A professora tem 48 anos, mas aparenta ser mais jovem. Tem duas filhas adultas que moram com o pai no Canadá. E ela não está sozinha de férias na praia impunemente. Ferrante tem uma qualidade extraordinária como escritora: não deixa nenhuma convenção social, e ousaria dizer preferência pessoal, contaminar seu texto. Devem dizer por aí que ela é feminista, mas não sinto isso nos seus livros, embora a condição feminina esteja sempre no centro da trama A crueza dos fatos, sua verdade mais profunda e oculta, as possibilidades da ação benéfica ou maléfica são perseguidas e expostas por meio de um dos melhores textos que tive o prazer de ler nos dois últimos anos.

   A condição de mulher madura, culta, experiente e sábia não afasta da professora universitária a arrogância, a vaidade intelectual, o egoísmo desnaturado, a carência, a solidão, um ou outro trauma de infância. Diariamente, segue os movimentos da família napolitana e os contrapõe, aqui e ali, com a sua história pessoal. Aos poucos se envolve com alguns deles, com o salva-vidas e com o corretor que lhe arrumou o apartamento. O texto então realiza o que a melhor literatura faz com o leitor: seduz, transporta, envolve, excita, angustia, assusta, encanta. Aquela família napolitana viverá momentos de desespero e tensão em suas férias e a professora voltará mais cedo para casa, depois de perder o afeto que conquistou, naqueles dias, da pior maneira possível. Seguir um impulso pode resultar em abismo incontornável.

   Depois de Alessandro Baricco, vem da Itália mais um talento literário inquestionável, de quem devemos ler tudo que escrever, seja lá quem for Elena Ferrante.  

domingo, 4 de dezembro de 2016

DESPEDIDA, FERREIRA GULLAR (1930-2016)



DESPEDIDA

Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
                 raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.

Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos, tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
            para que eu fique
            para que eu fique.

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.



Poema extraído de "Barulhos" (1980-1987), em Toda Poesia, 21a. edição, revista e ampliada, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 2015

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

LANÇAMENTO NA CONFRARIA DO FRANÇA, SÁBADO, A PARTIR DAS 11:30H



Um livro fundador

Fernando Bonassi*

Evento estético e político fundamental das últimas décadas em nosso país foi a entrada da periferia das grandes cidades na paisagem da cultura. Hoje não se discute a força que tem esse território, mas durante muito tempo esta espécie de “não-lugar” permanecia sem voz que a expressasse... Até aparecer Sabor de química, em 1976; nele se operavam maravilhas: primeiro, o talento do autor ao dar forma artística a uma realidade que ainda se processava. Vivia-se o fluxo migratório dos anos 70, e os brasileiros que chegavam para construir a “cidade grande”, terminavam pelos arrabaldes baratos, como estoque de mão de obra da indústria. Roniwalter Jatobá decidiu olhar para isso, e o espanto em seu texto era a ousadia de penetrar o mais profundo da alma “dessa escória”, traduzir a angústia e a loucura da miséria por dentro, e não apenas como elemento sociológico de um plano intelectual. Havia também a justaposição das duas partes do livro, com histórias do sertão e da cidade: ao acompanhar o deslocamento de um personagem mais típico de uma certa cultura rural, Roniwalter registrava, para além de seu próprio campo e tempo histórico, a transição do regional para o urbano, que acontecia no imaginário brasileiro.
Em 1978 vem as Crônicas da vida operária, em que o inferno do trabalho se junta à atmosfera da ditadura e produzem um poderoso painel de nossa experiência recente. São narrativas sobre a inutilidade do esforço, a destruição dos laços afetivos e a mutilação dos corpos pelas necessidades materiais, o homem virado em número e valor de produção; tramas sombrias que, à luz do que vivemos, permanecem atuais.
Tiziu, novela na terceira parte deste livro, apareceu em 1994 e conclui o projeto literário. Na trajetória de Agostinho, que volta derrotado à sua cidade de origem, ecoam todas as vozes de Roniwalter -- as que têm nomes e as anônimas, as que gritam seu desespero e as que contemplam o fracasso em silêncio -- todas elas tecidas com enorme vitalidade poética.
O leitor tem nas mãos um livro fundador daquilo que somos e fizemos de nós mesmos.


*Fernando Bonassi é escritor e roteirista

sábado, 19 de novembro de 2016

O CHÃO QUE EM MIM SE MOVE - LEITURAS 1



 (...) Este - O chão que em mim se move -, não sei por qual razão exatamente, evocou-me imediatamente um desenho ou uma espécie de caricatura, sei lá, que conheço desde menino de Galileu Galilei com a inscrição "...eppur si muove".

Bom, o resto é o que se segue: li o livro de duas sentadas e reputo ao mesmo a categoria de literatura de excelente qualidade. Com ele você já exibe um estilo próprio, maturidade e, por fim, uma escrita gostosa, simples, atemporal e que revela por trás dessa suposta simplicidade bons e sólidos conhecimentos literários, aliás, se fosse possível comparar nesse sentido lembra a obra musical de Elomar Figueira - erudição, no melhor sentido da palavra, com singeleza. 

Na minha humilde e ignara opinião, o seu equilibrado tempero sabe a: uma chiringada de Guimarães Rosa aqui, outra de Graciliano Ramos ali, e mais uma outra de Anton Chekov acolá, isto tudo sem prejuízo do conteúdo e da qualidade, aliás, muito em benefício de ambos.

Os contos Joana e suas cercas e Corpo de mãe são realmente impagáveis e definem bem a qualidade de sua obra.

Ernesto Lédo

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

ÂNGELA VILMA E ANA MARTINS MARQUES


   PARA FERNANDO PESSOA

   Dizem que não finjo, não minto
   quando escrevo. Dizem que nada
   é ficção. E buscam dados
   biográficos
   de minha imaginação.
   Ah, como uso o coração!

   Como uso o coração!
   Talvez por isso vejam a verdade
   no que escrevo. E quando digo
   que minto, há uma derrisão:
   penso que acreditam, ou sei não:
   se desviam em risos, ou
   nunca mais em nada acreditam
   ou acreditarão.

   Como uso o coração!
   Escrevo o que sinto, mentindo.
   Vivendo, não.

   (Ângela Vilma)


   FACA

   Como chamar faca
   tanto aquela
   enfiada na fruta
   quanto aquela
   enfiada no peito?
   como chamar fruta
   tanto o sol polpudo da laranja
   quanto a lua doce da lichia?
   como chamar peito
   tanto o peso oco do meu coração
   quanto o peso oco do seu coração?

   (Ana Martins Marques)

   Poemas extraídos dos livros "A Solidão mais funda", de Ângela Vilma (Mondrongo, 2016) e "O livro das    semelhanças", de Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 2015). As poetas participaram de mesa intitulada "Exílios interiores", na Flica 2016, no sábado passado, com mediação da professora de literatura e poeta Mônica Menezes.

 

sábado, 8 de outubro de 2016

KRISHNAMURTI GOES DOS ANJOS E O CHÃO...

CHÃO DE AREIA MOVEDIÇA
Por Krishnamurti Góes dos Anjos(*)
            Após chegarmos a última página do livro de contos “O chão que em mim se move” do escritor Carlos Barbosa (Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2016, 128p.) surge-nos à mente a imagem de areias movediças, aquele fenômeno natural no qual a areia, por estar embebida em água, não oferece resistência a animais, pessoas ou objetos e traga-os para a morte. Antes de uma explicação do porque dessa metáfora de areia movediça, cumpre situar a literatura do autor.
            Fiel à ambiência que o modelou, Carlos Barbosa (que também é romancista), não sonega suas raízes nordestinas, apesar do pendor para a análise psicossocial. Tem em relação a sua região (centro-oeste) da Bahia um repertório de lembranças, vivências e imagens de infância, que aparecem nos contos e revelam um prosador de temperamento e origens regionais. Como regional, se entenda também, uma literatura que, por suas amplas inquirições existenciais, transborda do espaço ficcional sugerido pela geografia em que se localiza. Parte do localismo para o universal, empreende a sondagem da alma humana através da auscultação de uma determinada zona geográfica.
            Suas narrativas são estruturadas com extrema simplicidade, numa prosa que tem o colorido brasileiro, e recorre à oralidade, seja captando falares, seja reproduzindo ditos e máximas populares que traduzem a sabedoria dos humildes. Da fusão das personagens com a terra, dos homens com o cenário, sai o drama que espelha a condição humana e, em assim sendo, legitima-se como literatura da mais alta qualidade. As histórias curtas admitem, mais de um ponto de vista, mais de um ângulo de enfoque. E o ângulo que cumpre analisar, e que nos remete à metáfora da areia movediça, é aquele que fecha um círculo onde a realidade se apoia na História, passa pelo contemporâneo dos sertões esquecidos desse imenso Brasil, e projeta-se em perspectiva de futuro nefasto em um entrelaçamento de causa e efeito. Três contos ajudam-nos a explicar:
            Em “O interrogatório”, o velho sertanejo Silvino, homem rude mas trabalhador e honesto, que dedicou toda sua vida a cuidar da família e que aprendera com o pai “tudo que é trabalho de homem do campo”, enquanto espera o delegado que o interrogará, preocupa-se com a sorte de seus filhos também detidos. Vejamos o registro narrativo: “No tempo de Horácio de Matos coisa assim não sucederia. Ele, Silvino, iria ter com Horácio em Brotas, ou na trincheira que estivesse, e diria, meus filhos sumiram faz três dias e não sei do destino deles, pois na roça ocupado estava. Horácio lhe diria para ficar despreocupado, que tomaria as providências, que gente dele não passava aperto, e chamaria um de seus homens e determinaria investigações”. Mais adiante ficamos sabendo que o coronel Horácio de Matos (personagem que realmente existiu), em verdade não pertenceu a sua geração, mas a de seu pai – vejam a força do mito a atravessar gerações. Horácio de Matos (1882-1931) foi um poderoso político e coronel do sertão baiano (o uso de forças particulares nos sertões se explica pela falta do Estado, onde, especialmente pelas grandes distâncias, não alcançavam as forças regulares e estruturas estatais. O jagunço e o número dele à disposição dos chefes políticos era símbolo de status quo). O mando deste coronel chegou a constituir governo paralelo ao da capital. Pois bem; mais adiante ficamos estarrecidos ao nos deparamos com o pensamento de Silvino: “pelo menos um bom advogado vamos ter, eu e os meninos. A plantação perdida, as encomendas desatendidas. Será que já queimaram tudo ou vão fazer como da outra feita: encher caminhão com os pés de maconha, botar a gente em cima, algemados, cano de escopeta no cangote, e desfilar pelas ruas pra exemplar?!”
            O conto “Queimada”, inicia com: “A suspeita era a de que havia armas escondidas na serra da Cristalina. Armas que os subversivos cuidaram de trazer e guardar para os inevitáveis enfrentamentos com os milicos da ditadura, mas que na precisa hora, ficaram para trás, na fuga que encetaram no ano de 1971” Esta introdução acaba por nos apresentar a outro homem velho, alquebrado, que caminha na serra da Cristalina a procura de algo. A narrativa nos induz a pensar que se trata de alguém que, de alguma forma, participou das guerrilhas contra a ditadura militar, pensamento que o trecho “veio-lhe à mente a sucessão de torturas sofridas, o pau-de-arara, o corpo esfolado, as unhas...”, confirmam. O homem não procura armas, mas encontra uma arca onde estão guardadas lembranças daquele tempo de resistência. Em dado momento, pensa: “… é melhor caminhar por essas picadas até cansar o juízo, até não lembrar mais que em outros tempos meus filhos por ela cruzaram, alegres e esperançosos, até não me lembrar mais o motivo de assim proceder, até que restem entregues ao mato que as cobrirá por falta de pés e patas que as definam e as mantenham desimpedidas. E tudo se acabará porque nada pôde ser modificado quando foi tempo de fazê-lo”.
            E finalmente, o conto “Corpo de pai”, onde transparece o lirismo de uma ficção “fantástica”. Ali as consequências ficcionais são múltiplas, há como que um redimensionamento do tema (o homem sertanejo explorado), surge uma alegoria que não fica explicada. Somente o absurdo posto. Não fica explicada, vale dizer, porque não se explica a inércia do não querer/poder mudar o próprio destino. O personagem Lívio volta seu pensamento para o corpo do pai morto. “O corpo do pai no caixão de papelão grosso, à sua frente, era mais que uma imagem dolorosa. O governo corporativo havia autorizado a cerimônia pública na antiga catedral, pois o pai de Lívio era um dos 'remanescentes', como eram chamados os que não deviam obrigações a waterCo, companhia japonesa concessionária do trecho do rio em Bom Jardim IV”. Aí temos o círculo fechado de que falamos mais acima!
            Dessa forma, seja desnudando o fragor de conflitos íntimos quanto à solidariedade que negamos ao próximo como acontece no excepcional “O encontro”, ou nos desajustes da personalidade acuada ante as impossibilidades e desilusões do meio, de que é exemplo pujante o conto “Vertigem”, ou ainda a exposição de uma consciência que dá seu testemunho de uma dor que é coletiva (tenha-se ou não consciência disto), como ocorre no já citado “Queimada”, a preocupação básica de Carlos Barbosa com a criatura é permanente. A base humana é seu lastro. Não importa precisamente o meio rude do sertão em suas possibilidades descritivas, mas sim, as consequências que a completa falta de perspectivas de mudança acarreta no coração sertanejo, ainda hoje a viver uma miserável condição social. Este o sentido do humano nas diversas imagens do homem que o autor dá cor, dimensão e vida.
            O chão que se move no interior do Brasil é o das areias movediças que não permitem, e continuam a negar a incontáveis gerações, o exercício simples de uma cidadania. Alerta veemente também a lembrar, aquilo que Millôr Fernandes sentenciou: O Brasil tem um enorme passado pela frente.

(*) Krishnamurti Góes dos Anjos. Escritor, Pesquisador. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contos e Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 22 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho –Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional - Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

EDITORA PENALUX, O CHÃO QUE EM MIM SE MOVE


   "O chão que em mim se move", cuja capa está posta acima, pode ser adquirido no site da Editora Penalux, no endereço    www.editorapenalux.com.br ou pelo link: http://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=458. O exemplar custa R$ 34,00. 

LIVRO SEMPRE SERÁ UM BOM PRESENTE. O Natal se aproxima, adquira exemplares para presentear amigos e parentes. Sai barato e é um livro que não está à venda em livrarias físicas, o que o torna um presente especial. Vamos às compras!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

RESENHA DE ELIESER CESAR PARA "O CHÃO QUE EM MIM SE MOVE"



   O escritor e jornalista Elieser Cesar publicou em seu blog "Salve, César" (eliesercesar.wordpress.com) uma resenha sobre meu livro de contos "O chão ue em mim se move". Recomendo a leitura, claro. E reproduzo abaixo alguns trechos:

   "A exemplo de William Faulkner, com o condado de Yoknapatawpha, Gabriel Garcia Márquez e sua  Macondo, Juan Rulfo e Comala, Juan Carlos Onetti e Santa Maria, o brasileiro Vicente Cecim, e Andara e  tantos outros lugares, reais ou fictícios, o escritor baiano Carlos Barbosa também tem, delimitada na carne e na alma, o seu atávico território literário: Bendiá, Bom Jardim, Ibotirama e, de modo mais amplo e fluvial, como um escrita que invade os afluentes  da memória, o rio São Francisco, o Velho Chico no qual navegam uma triste dama e uma esquadra de histórias já  contadas e ainda por contar.
   O terreno do autor dos romances A Dama do Velho Chico (2002) e Beira de Rio, Correnteza (2009), tributário das águas imemoriais do rio dos sertanejos, é o chão mítico de sua infância, vivida em Ibotirama e resgatada por um ficção fluvial no estilo (pois corre leve e solta, como as águas tranquilas) e , por vezes, revolta no conteúdo (como os redemoinhos da existência, nos quais muitos personagens acabam inapelavelmente tragados).
   Assim acontece também em O chão que em mim se move, livro de contos de Carlos Barbosa, agora lançado pela Editora Penalux. É uma coletânea de 13 histórias, algumas pungentes como o relato do menino ferroado pelos enxus, em “Era uma vez o Bendiá”, outras tristes, como a aventura do homem que testemunha a mãe embalar uma criança que morre  durante uma viagem de ônibus (“O Encontro), e até brutais como o sofrimento infligido ao povo ordeiro de uma pequena  comunidade por meganhas da ditadura militar  (“Queimada”). Todas, no entanto, com a marca de Carlos Babosa, um estilo ágil e cristalino, ao contar as alegrias e os dissabores do povo ribeirinho do Velho Chico, o rio da aldeia do escritor, as águas de Bendiá."

domingo, 18 de setembro de 2016

A COMITIVA, O CHÃO QUE EM MIM SE MOVE



     A noite fechou-se em volta de Onofre.
   Os barulhos da noite são imutáveis, variam apenas sequência e tom. Trinados, coaxares, latidos, miados, balidos, mugidos, turros, gemidos, suspiros, roncos, deslizares de lagartixa pelas paredes e telhas e principalmente estalos, muitos estalos, de diversas procedências, todos secos como seco é o pipoco de uma bala, alongam-se, sucedem-se, sobrepõem-se, aglutinam-se, entrechocam-se, embaralham-se fragilmente antes de os cantares de galos ordenarem o novo dia. Onofre ouviu-os todos durante a noite anterior, a mente a procurar um traço de ordem na anarquia da trilha sonora noturna.
   Onofre era um homem prático e sabia que não restava saída senão se preparar para o enfrentamento, mesmo a contragosto, pois se apreciava uma farra era porque não gostava da solidão de fugas e prisões. Era azeitar e carregar o revólver, e esperar, o que fez tão logo o dia se aprontou. Zaquia Bento viria, como de fato veio; traria homens armados, como de fato trouxe; e Angelina apareceria para tocar fogo nas brasas, como de fato apareceu e se fazia notar da cozinha.

   

Trecho do conto "A comitiva", de "O chão que em mim se move", de Carlos Barbosa, Penalux, Guaratinguetá/SP, 2016. O livro está à venda no site da editora (www.editorapenalux.com.br)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

LITERATURA E AMIZADE


   Daqui a pouco saio para o Ceasinha. Lá encontrarei amigos para festejar o aniversário de um amigo. E mais tarde para o lançamento dos livros de Ruy Espinheira Filho e Eu Barbosa, cujos convites estão postos aí abaixo.
   O amigo que aniversaria não comparecerá ao almoço. Fisicamente. Mas tem estado ao nosso lado desde que se ausentou desgostoso e precipitadamente. Mário Vieira da Silva, o Mário Jegue, "digaí, biscoito!", aquele que aparecia para dizer que não viria... e ficava. Pessoa inesquecível por sua generosidade, paciência, surdez, desprendimento, disposição, disponibilidade, gosto pela vida e pelo riso. Um leitor criterioso e constante, um personagem impagável de causos fantásticos, igualmente inesquecíveis. Beberemos e comeremos em sua memória. Este será seu primeiro aniversário de ausência. Nós, os amigos que ficamos, pretendemos seguir festejando sua memória, a cada quinta-feira, enquanto não partimos também desgostosos dessa dureza de vida.
   E depois entregaremos os novos livros aos leitores. A literatura traz consigo essa condição: entrega de algo que se julga precioso e pessoal ao usufruto de outras pessoas. Ir ao encontro de um livro, tomá-lo nas mãos, abri-lo e com ele conviver durante horas ou dias, corresponde a travar uma nova amizade, ou a fortalecer amizade já existente. Estamos juntos, autor e leitor, para sempre irmanados em memória e referências. Na esperança, claro, de que sejam boas e positivas.
   Então foi assim: primeiro, festejar Mário; depois, Ruy decidiu trazer seus livros ao festejo; por fim, ficando meu livrinho pronto antes do previsto, juntei-me à farra literária neste dia tão especial. Esses livros Mário não lerá, mas neles está bem posto.  

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

RONIWALTER JATOBÁ SOBRE "O CHÃO QUE EM MIM SE MOVE"

 

   No texto que gentilmente escreveu para a orelha de "O chão que em mim se move", o escritor Roniwalter Jatobá lembra a condição de romancista do autor e o fato de este ser o seu primeiro livro de contos.

   "São treze narrativas curtas, porém tão interligadas e ao mesmo tempo independentes, que parecem partes de um romance. Têm como tema o mundo mítico do Bendiá, no vale do Rio São Francisco, recriando problemas antigos e atuais, em especial a violência e a miséria, como em "Joana e suas cercas", a história da velhota esperta e vingativa, ou em "A comitiva", relato onde ódio e vingança se misturam. Em todos os textos, o destino da migração. Para fugir daquele mundo, a busca por São Paulo, "na agonia doida pelas maravilhas de lá, dos empregos muitos, das lordezas".
   Na literatura, as beiradas do São Francisco foram pouco exploradas por outros artistas. Em O chão que em mim se move, contudo, elas são mostradas em sua essência, despertando nossa consciência para marcantes características pessoais e íntimas do povo brasileiro."

  Amanhã, Roniwalter Jatobá estará conosco no Ceasinha, festejando a amizade e a literatura. Registro aqui minha admiração por sua escrita e a alegria em tê-lo ao lado no lançamento de "O chão que em mim se move". AMANHÃ, NO CEASINHA, ENTRE 17 E 21 HORAS. APAREÇAM!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

LANÇAMENTOS DIA 15.09 NO CEASINHA

Aí estão os convites para os lançamentos dos livros de Ruy Espinheira Filho, O príncipe das nuvens e Milênios. A data é 15 de setembro, quinta-feira.


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Em seguida está o convite para o lançamento do meu primeiro livro de contos, O chão que em mim se move, no mesmo dia, horário e local.

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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

OLIMPIADAS FINAL


   
   E o Lochte tá fazendo publicidade de alarme, dizendo que viaja muito etc, Mau gosto não tem pátria. Estupidez, também não.
   E a Hope Solo foi defenestrada da seleção norte-americana por ter chamado de "covardes" as adversárias suecas, que deram nelas um nó tático, como dizem os especialistas em futebol. Covardia dos dirigentes, um solo da Hope (trocadilho miserável) faz diferença em qualquer... gramado.
  No fim das contas, os australianos é que saíram bem na fita.
  Tivemos um herói típico brasileiro, o Isaquias, que saiu de Ubaitaba para arrancar três medalhas olímpicas. E ainda deu um susto na mãe, que pensou que seu menino havia morrido afogado, depois de uma das competições.
   O encerramento foi tão espetacular quanto à abertura. Tirei o chapéu para os "cariocas": abriram as portas para a cultura nordestina, como se a do Sudeste não fosse suficiente para abrilhantar a festa. Confesso que fiquei emocionado com a sequência de músicas nordestinas, quando "a ema gemeu no tronco do juremá". E com a a baiana Marienne de Castro, ensopadinha, tão bonita quanto a pira olímpica. 
   Aliás, a pira giratória foi a peça mais bonita e a menos explorada midiaticamente. Ficou aprisionada no Maracanã desde a abertura e só foi vista (e mal vista) nos jogos de futebol e na cerimônia de encerramento. Uma pena.
   Para encerrar, o francês La-vilania continua batendo o pezinho, despejando amargura e ressentimentos. Pobrezinho. Haverá outra Olimpíada daqui a quatro anos. É só seguir saltando... e não perder o Braz de vista.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

OLIMPIADAS 11

   E aconteceu uma coisa que ninguém previu: as norte-americanas do revezamento dos 400m correram sozinhas na pista. Fizeram o melhor tempo e estão na final. E tudo porque uma das nossas atletas atrapalhou a passagem do bastão das gringas na semifinal. Recorreram e ganharam. E ganharão de novo amanhã na pista, como sói acontecer.
   O nadador norte-americano Lochte deu uma de migué, jogou a farra nas costas da segurança pública do RJ e viajou pra casa lépido e fagueiro. Deixou pra trás os coleguinhas de bagunça madrigal e uma farsa grotesca já desmontada pela polícia. Coisa feia, seo Lochte! Fez pior que o francesinho do salto com vara, A-vilania, que pelo menos recebeu umas vaias de troco. E vaias com endereço certo, não gratuitas.
    No frigir dos ovos, a Olimpíada carioca tá melhor que a encomenda. Deixou de render piadas para render elogios. Vem aí a cerimônia de encerramento. E a tão esperada medalha de ouro no futebol masculino. Arrisco o palpite, desta vez, sem receios. Chega de zika. A Hope já foi embora.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

OLIMPIADAS 10


Espírito olímpico, coisa de atleta.
Paixão, coisa de torcedor.
Quem não teve espírito olímpico, portanto, foi o francês do salto com vara. Atleta de merda se mostrou o tal sujeito. Esnobe, arrogante, adotou uma postura petulante diante dos problemas com o elevador da barra e para com os saltos iniciais dos concorrentes. Tirava sarro, dava gargalhadas e ficou de costas para os saltos.
Toda arrogância será castigada. Perdeu feio, comportou-se mal, borrou-se na saída.
A torcida fez o que sabe fazer, torceu. E o atleta francês, que não merece ter o nome escrito aqui, não cumprimentou o campeão Tiago Braz e chamou a torcida de "público de merda". Um merdinha e tanto, esse sujeitinho.
O que querem os gringos da torcida brasileira? Que se comporte como a torcida sueca? Ou como os holligans ingleses? 
Não podemos nos comportar de modo diverso do ser brasileiro. Somos brasileiros os atletas olímpicos. Treinamos em condições amadoras, na maioria e quase todo o tempo. Raros são os que treinam no exterior, em condições de igualdade. Treinamos em quintais, em piscinas de clubes, em pistas de cimento, somos terceiro-mundistas, não é assim que se referem a nós? E, sim, não temos o sistema educacional nem a qualidade de vida dos gringos reclamões. 
Os grandes astros, os primeiro-mundistas não suportam o barulho? Ora, o barulho é pra todos. Não aguentam uma vaia? A vaia é a ajuda que a torcida pode dar a nossos atletas. E nem sempre serve à vitória. Que o diga o quadro de medalhas. 
Os gringos querem ganhar tudo e que nós, os brasileirinhos, fiquemos calados ou batendo palmas pra eles. Ora, sabem onde fica a casa da vovozinha?

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

OLIMPIADAS 9


   Vou falar da seleção, calma! Mas, depois.
   Antes, babados: coisas que sabíamos inevitáveis acontecer em solo e clima tropicais.
   Imaginem a testosterona e o feromônio soltos numa Vila Olímpica... não perguntem às camareiras, pois pode dar polícia na hora.
   Até nesse departamento, parece que a organização falha. Seria necessário, mesmo, pedir à companheira de quarto para "sartar fora", "desocupar" o espaço para se experimentar saltos e remadas com um novo parceiro? Pareceu birra. E deu rolo depois.
   Aí o medalhista vai comemorar nas ruas do Rio. Não pode haver algo mais temerário. Será que o manual não alertou o pessoal para os riscos? O rapaz acabou sem o celular e levando umas porradas, para aprender a ficar "esperto", como dizem os cariocas. Mas tá vivo. Se eu fosse ele, me agarrava à medalha e seguia comemorando na Vila Olímpica, onde a batata parece mais rasa e não intoxica.
   Jornalistas esportivos precisam aprender um pouco mais com os correspondentes de guerra. E ouvir menos a paranoia de coleguinhas que serviram o exército americano. Presse pessoal, qualquer estalo é tiro. Levar pedradas talvez seja mais perigoso. Mas é muito estardalhaço por pouco barulho.
   Desavisado, despreparado mesmo, assisti ao Galvão Bueno narrar provas do Phelps. Amigos, algo rivaliza com o deslimite da estupidez humana: o deslimite da histeria galvânica. Aquilo não era narração empolgada, parecia mais estertores de uma galinha degolada. 
   Ah, a seleção. O Micale deve agradecer aos céus a cegueira do técnico dinamarquês. Pois é só plantar a defesa e fechar o meio que os nossos craques não sabem o que fazer. Partiram pra cima, deram o contra-ataque ao Brasil, tudo o que a seleção precisava: espaço para a correria dos "Gabrieis", como diz o Chatotorix Neto, e do avozinho deles, Neymar Jr. Foi de dar dó. Até o Renato Augusto partiu da intermediária com a bola pra dentro da área dinamarquesa. Foi pouco. Podia ter saído mais uns três, mesmo porque a Fonte Nova não para de jorrar gols.
   Olimpíadas a la Brasil é isso: farra das boas, do começo ao fim.
 

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

OLIMPIADAS 8

 
   Vejam vocês se não estou certo: a maior piada destas Olimpíadas chama-se Micale. O cara carrega o mico até no nome. A culpa é, sim, de quem convoca, de quem escala, de quem define sistema de jogo. Portanto, a culpa é do Micale. Enfrentar dificuldade, é uma coisa normal. Criar dificuldade para si mesmo é o pior tipo de burrice. Uma burrice micaleana.
   Tudo é possível, é verdade. Mas é fato que não há limite para a estupidez humana. Aqui em Salvador sempre sai gols em jogos na Fonte Nova. Como não conseguimos fazer... Preparem seus corações! Micale para sempre na história!
    Dá um certo prazer saber que os figurões passaram fome e sede durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas. Não havia serviço na tribuna. E quem quisesse comer e beber, que se virasse. Já imaginaram Temer na fila do sanduba? Fiquei com pena do Pezão, que tá dodoi.
    A ventania derrubou placas e adiou competições. Nosso inverno não é brincadeira. Tem deixado as nórdicas embasbacadas, mas é sempre inverno.
    Saiu a primeira medalha de ouro. E não podia ter endereço melhor. Cidade de Deus. Confesso que me emocionei com o público gritando: ypon, ypon, ypon! A arbitragem ensaiou uma sacanagem, mas Rafa botou pra ferver, não deu chance à derrota.
     Rapaz, dizem que a Gisele errou no desfile. Como isso é possível? Já imaginaram se sai tudo certo, certinho, certão? As emergências ficariam lotadas. Esse pessoal é exigente demais...
   
    

sábado, 6 de agosto de 2016

OLIMPIADAS 7


   Começaram! Pra valer, agora.
   Mas, antes de começarem, algumas coisinhas aconteceram: um técnico australiano (que coisa!) de uma equipe coreana foi detido por furar a fila duas vezes e debochar da segurança. Se assim foi, merecido.
   E um boxeador marroquino foi parar em Bangu I, presídio de segurança máxima, acusado de estupro por duas camareiras. Nem o exemplo do ex-presidente do FMI faz esse pessoal entender que, na marra, nem a pedido. Xô!
   Então veio a abertura oficial e, confesso, que ainda estou embasbacado. Deu tudo certo. E o que não deu, se é que houve, passou praticamente despercebido. Criatividade, economia, inventiva, luz e cor, alumbramento, impacto visual, soluções inspiradas no improviso brasileiro, segundo seus criadores. Não sei, mas funcionou. A repercussão tem sido boa. E parece que gerou um clima positivo inquestionável.
   Nosso complexo de vira-lata vai precisar esperar agora a cerimônia de encerramento. E o amarelão da seleção masculina de futebol gerar mais um fracasso retumbante. 
    Pois o esquema tático já tá manjado: bola no Neymar Jr. E o cara tá voltando de férias, cansadão das baladas, intoxicado de tanta alegria e sol, né? Aí ele recebe a bola, corta pra dentro e arrisca um chute. Numa dessas até pode entrar, mas...
   As filas deram o tom na primeira manhã, por conta das revistas de mochilas e bolsas. Acho que com o correr dos dias, o pessoal vai aprender a ir apenas com dinheiro pra lá.
   E os russos, fiquei sabendo depois, já estavam no Brasil em grande quantidade. Fiquei ligado na Isinbaieva, que tá lá, mas já tem gente se preparando para as competições.
   Tou procurando, em cada bateria e esporte, os mais fraquinhos pra torcer. É por quem vale a pena.
 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

OLIMPIADAS 6


   E a coisa começou amarelando: contra a África do Sul, com um a mais desde começo do segundo tempo, não conseguimos fazer um golzinho. Isso, com o ataque mais prestigiado das Olimpíadas. Uma piada de mau gosto. Mas quem sabe assim o amarelão sai de cena logo, para a entrada de um pouco de brio.
   Quem deve estar gostando é o Barcelona, pois depois de férias intensas o Neymar Jr. está fazendo sua pré-temporada com alta exposição na mídia. Tudo nos conformes. E quando a Olimpíada acabar, o Neymar Jr. chega inteirinho e pronto para as batalhas europeias pelo Barça, que é o que verdadeiramente importa e interessa às partes. Os Gabrieis, como diz o craque Neto, o Chatotorix da tevê brasileira, estão mais lisos que bunda de modelo, saem de todas, afinal de contas um já foi por 122 milhões e o outro vai a qualquer hora, que é o que verdadeiramente importa etc e tal.
  E o COI faz sua piadinha cascuda: libera 270 e tantos atletas russos para as Olimpíadas. Como assim? As Olimpíadas começam oficialmente amanhã! Esse pessoal precisava estar preparado para as competições e ainda terá que cruzar o planeta para chegar aqui. Eu não viria mais! Talvez para beber água de coco e dar uns rolês na night carioca. Pois os caras são duro na queda. O vice-cônsul da Rússia, hoje, reagiu a um assalto, tomou a arma do bandido e o matou em plena av. das Américas. É por isso que o Trump gosta dos caras. Apesar de que o tal vice-cônsul parece que é brasileiro, a confirmar.
   As meninas do volei do Brasil anunciaram que estão fora das redes sociais durante as competições. Foco. Espantoso, também a confirmar.
    A organização já admite que as Olimpíadas vivem um sério momento. Estas vão dar um filme oficial e tanto, de qualquer maneira, confirmadíssimo. 
    Meu Deus, que o Pelé amanhã não tropece.

OLIMPIADAS 5


   Anotem aí: o prédio da Austrália é o de número 23. Pra quem joga no bicho ou tá procurando uma dezena quente para a Mega do dia dos Pais, fica a dica.
   Coisa muito comum por aqui aconteceu a um ciclista coreano: foi atropelado. Mas também ele achou de dar suas pedaladas lá na Vista Chinesa. Alguma ironia há nisso.
   Notícias circulam dando conta de sabotagem feita por trabalhadores insatisfeitos com horas extras não pagas e desvios de função. Dizem que os estragos nos apartamentos foram provocados por eles etc e etc, pois quem tem a mídia nas mãos diz o que bem quer a hora que deseja. Já os trabalhadores, os que ainda labutam por lá, estão enfrentando fila de hora para fazer refeições. Quando pegam a refeição já está na hora de voltar pro trampo. Já falam em greve na Vila Olímpica.
   Reclamam muito, ainda, das bandejas de comida pronta que estão sendo atiradas no lixo por conta de uma resolução da Anvisa, que estabelece um tempo máximo de exposição nas prateleiras. Falam em toneladas de boa comida indo pro lixo todos os dias. Não entendi de quem reclamam, se da Prefeitura da Vila ou da Anvisa. Mas jogar comida fora em país de "segundo mundo", como disse uma australiana, realmente é uma ofensa aos que têm fome, muita fome por essas periferias do luxo.
   Uma boa coisa pra encerrar: a CBF tomou dose cavalar de semancol e tirou seu escudo da camisa das seleções brasileira de futebol que disputam as Olimpíadas. Botou no lugar uma bandeirola estilizada do Brasil. Bacana. Fiquei muito afim de comprar uma dessas, coisa rara e preciosa não carregar aquele escudo no peito. 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

OLIMPIADAS 4



   Uma coisa inesperada aconteceu: atletas de quarentena por terem contraído infecção... antes de vir para o Brasil. Na Itália, em Roma! Toparam, papudos? A zika é universal.
   Fico imaginando agora qual será a piadinha que o prefeito do RJ vai disparar depois dessa.
  É que o caso se deu com atletas... australianas! Como se não bastasse a quarentena, o pessoal do basquete afirma que vai dormir em pé, pois cama que é bom... e ainda foi preciso remendar a cortina do banheiro, que estava rasgada (tem foto e tudo). Mais umas para o rol de ocorrências com o pessoal da terra do crocodilo dundee, ou coisa parecida. Esse troféu ninguém tira da Austrália. Vamos aguardar o "canguru de ouro", que o gentil prefeito talvez venha a idealizar.
   E da Venezuela, sabemos agora, vem uma atleta que já foi ministra de Estado. E que anunciou um dos atos mais revolucionários já projetados na história da política universal. Algo que vai ofuscar por inteiro o famoso gesto de Jesse Owens ou daquele chinês que parou um tanque na Praça Ex-Liberdade, ou coisa assim, em Pequim. Ou qualquer outro que vocês imaginarem. A moça garantiu que não vai cumprimentar o presidente Temer. Isso não é estertorante? A história humana jamais será a mesma depois desse gesto, não acham? Ninguém, nem mesmo o divino Chaves, teria uma ideia tão bombástica. Pobres de nós, olímpicos espectadores. E que sorte a do Temer.
  Calculam que iremos ganhar 22 medalhas, melhor desempenho da história. Não se preocupem, foi um banco estrangeiro que fez a estimativa. Um banco, repito.
    Olimpíada a la Brasil é isso: mudaram o show de abertura ontem, retirando uma cena em que Gisele, ela mesma, seria abordada por um vendedor de biquinis (que ideia incrível e ousada!) durante o desfile  -  descobriram que, à distância, pareceria uma abordagem de assalto na praia. E tiraram a cena. É preciso esconder essas coisas. 
   O que não estão conseguindo esconder é o caos do trânsito, com faixa olímpica exclusiva, batedores e o escambau. O prefeito, sempre ele, decretou feriado na quinta. Podia decretar feriadão até o fim dos jogos pra facilitar pra todo mundo. Até eu daria um jeito de aparecer por lá. 
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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

OLIMPIADAS 3


   Tudo pode acontecer, sabemos disso. Até mesmo boas coisas.
   A água da Lagoa Rodrigo de Freitas, local das provas de canoagem, vem sendo aprovada diariamente, até mesmo para banho, vejam vocês, que coisa surpreendente. Bem ali, onde nos acostumamos a ver a superfície coberta de espuma e peixes mortos. 
   E os basqueteiros norte-americanos, que de bobos e pobres nada possuem, vão se hospedar um iate chiquerésimo, ancorado no píer próximo ao Museu do Amanhã. Climão de turismo protegido pela PF e todo o aparato de segurança mar e terra necessário. Escaparam da Vila Olímpica. Parece que o Diretor de lá, da Vila, também escapou. Mas disso não sei detalhes. 
   Sei que os quartos da delegação australiana foram furtados. Depois de encontrá-los com fios desencapados, vazamentos e cheiro de gás; depois de serem brindados com a elegância do prefeito do RJ, que queria trazer cangurus para que se sentissem em casa; agora, vem o furto nos quartos. Acho que a Austrália já está a merecer uma medalha de fair-play, caso não arribem malas de volta pra casa.
   E as piores coisas se confirmam. Um segurança foi preso por estuprar uma bombeira dentro do Velódromo, na calada da noite, enquanto a moça dormia. Que pare por aí, esse tipo de pior coisa.
   As manifestações de rua incorporaram a língua inglesa, pois não somos mais índios, querem com isso dizer aos turistas. E tem rolado de tudo, muita coisa, nos calçadões do Rio. 
   Tanto que o presidente do COI, um tal Bach, que nada tem do mais famoso, já fala em "Olímpiada à la Brasil". Espantoso é que somente agora ele percebeu que seria assim.

domingo, 31 de julho de 2016

PROUSTIANAS 8


   O amor não é talvez mais do que a propagação daqueles redemoinhos que, depois de uma emoção, perturbam a alma.

   Pois a verdade muda tanto para nós, que os outros custam a reconhecer-se nela.

   Aliás, o ciúme é dessas doenças intermitentes, cuja causa é caprichosa, imperativa, sempre idêntica no mesmo doente, às vezes inteiramente diversa em outro. [...] Poucos ciumentos há cujo ciúme não admita certas derrogações. Este consente em ser enganado contanto que lho digam, aquele contanto que lho escondam, no que um não é menos absurdo que o outro, pois se o segundo é mais verdadeiramente enganado, visto que lhe dissimulam a verdade, o primeiro reclama, nessa verdade, o alimento, a extensão, o renovamento de suas penas.

   [...] saciada antes mesmo de posta em estado de apetite [...]

   Quando ela dormia, eu não precisava mais falar, sabia que não era mais olhado por ela, não tinha mais necessidade de viver na superfície de mim mesmo.

   De cada vez que mexia com a cabeça, criava uma nova mulher frequentemente não imaginada por mim.

   Quando passamos de uma certa idade, a alma da criança que fomos e a alma dos mortos de quem saímos veem jogar-nos às mãos cheias as suas riquezas e os seus maus fados, pretendendo cooperar nos novos sentimentos que experimentamos e nos quais, apagando-lhes a antiga efígie, os refundimos numa criação original. [...]  Temos que receber, a partir de uma certa hora, todos os nossos parentes chegados de tão longe e reunidos em torno de nós.

   Os dois seiozinhos, implantados no alto, eram tão redondos que davam a impressão menos de fazer parte integrante do corpo do que de ter amadurecido ali como dois frutos; o ventre (dissimulando o lugar enfeado no homem pelo que é nele como numa estátua desvendada o grampo que tivesse ficado cravado) fechava-se na junção das coxas por duas valvas de uma curva tão desmaiada, tão repousante, tão claustral como a do horizonte quando o sol escureceu.


Extraídos do volume "A prisioneira", de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, em tradução de Lourdes Sousa de Alencar e Manuel Bandeira, 2a edição, 2a reimpressão, Editora Globo, Porto Alegre, 1971.

 






quarta-feira, 27 de julho de 2016

OLIMPIADAS 2


   Essas coisas acontecem. Só que, aqui, temos certeza que acontecerão.
  Uma ventania derrubou hoje uma estrutura no Centro de Imprensa. Claro que as medidas cabíveis serão tomadas e ninguém, mas ninguém mesmo, tem do que reclamar.
   A não ser, é claro, a presidente afastada, que não tem absolutamente nada a ver com essas coisas que acontecem. E que aproveitou o dia para criticar a Vila Olímpica e dizer que não vai às Olimpíadas.
  Também, não sei por que a antiga oposição foi inventar esse negócio de trazer os jogos pra cá...
  Não, não, não me perguntem, eu desconheço o motivo de a presidente afastada não ir às Olimpíadas.
   As notícias de sempre começam a pipocar: delegações seguem reclamando das instalações, outras orientam os atletas a portar dinheiro para que o ladrão fique "feliz" (taí... onde esses caras aprenderam esse macete?!), a mídia estrangeira, vejam vocês, abre campanha contra as condições da água da baía da Guanabara - "vão nadar na merda" - ah, esses imperialistas...
   A grande expectativa está sendo voltada para a proteção que Hope Solo, a goleira-modelo norte-americana, adotará para se proteger das picadas do aedes localis, dos muitos aedes localis, por medo da zika. Ora, medo da zika e da ziquizira todos nós sempre tivemos, e não foi por temê-las que tomamos 7 dos alemães.
   Uma outra manifestação de elegância e cortesia, segundo li, foi dada pelo Vadão, em resposta a Hope Solo (que, esclareça-se logo, nada perguntou a ele) por conta de sua preocupação justa com o vírus da zika (e a pobre nem sabe da dengue hemorrágica...), algo assim: - Nos EUA a gente tem que se proteger é de bala!
    Desconfio que a Hope, que parece não trazer esperança nenhuma até nós, nunca ouviu falar da Linha Vermelha nem de balas perdidas no Rio. Que, é claro, continua lindo de morrer.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

OLIMPIADAS



   Tudo que temíamos está para acontecer.
   Tudo que sabíamos que aconteceria, acontece e acontecerá.
   Nosso famigerado jeitinho tem dado o tom operacional.
   Nada está pronto, mas tudo ficará pronto a tempo de os jogos acontecerem.
   Isso é certo, do mesmo modo que somos incertos. Somos, lá eles, bem entendido.
   O lixo na baía da Guanabara está que é uma beleza. Escorre, flutua em camadas oleosas, espumantes e sólidas. Um perigo para os olhos, vê lá para o estômago. Mas o sistema eletrônico de controle do fluxo de lixo nas águas da baía é simplesmente impressionante, de primeiro mundo, de encantar japonês. 
   Dizem que saberemos antecipadamente, como se previsão metereológica fosse, onde e em que intensidade o lixo flutuará, podendo assim se remanejar a tempo as regatas. Isso não é fantástico? Nunca houve uma Olimpíada com tais recursos. Somos bambas, mesmo.
   E os quartos da Vila Olímpica esbanjam fios expostos, água pelo piso e cheiro de gás. A providência, segundo o prefeito do Rio de Janeiro, será trazer cangurus para que os australianos se sintam em casa. Rir talvez seja o melhor remédio. Para quem levar um choque, um tombo ou se intoxicar. 
   Ninguém nos supera em espirituosidade e gentileza, não é, senhor prefeito??
   O velódromo não está pronto... bem, deixa pra lá.
   Vamos torcer para que os motoristas conheçam bem o trajeto da Vila Olímpica até as arenas de competição. Caso sigam o GPS, podem parar em zonas vermelhas, aquelas em que se precisa de autorização para entrar em comboio e em que as balas chovem diuturnamente.
   Mas nada que venha a atrapalhar a venda de drogas nas imediações, não é mesmo, senhoras e senhores?
   As praias estarão lotadas, os serviços de acompanhantes, congestionados, e os calçadões, em festa, como sempre.
   Que mal há?
 

sábado, 23 de julho de 2016

PROUSTIANAS 7


    Realmente dizemos que a hora da morte é incerta, mas, quando dizemos tal coisa, imaginamos essa hora como que situada num espaço vago e remoto, não pensamos que tenha a mínima relação com o dia já começado e possa significar que a morte  -  ou a sua primeira apossação parcial de nós, depois do que não nos largará  -  possa ocorrer nessa mesma tarde, tão pouco incerta, essa tarde em que o emprego de todas as horas está previamente regulado.

   Os mesmos fenômenos que ocorrem com os indivíduos reproduzem-se nas massas, por ocasião das grandes crises. Numa guerra, aquele que não ama o seu país não diz mal dele, mas julga-o perdido, lamenta-o, vê tudo negro.

    As criaturas que desempenharam um grande papel na nossa vida, é raro que saiam dela de súbito de um modo definitivo. Voltam a pousar nela por momentos (a ponto de alguns acreditarem numa ressurreição de amor) antes de deixá-la para sempre.

   Um artista não tem necessidade de expressar diretamente seu pensamento em sua obra para que esta reflita a qualidade desse pensamento; também se pode dizer que o louvor mais alto de Deus está na negação do ateu, que acha a criação assaz perfeita para que possa prescindir de um criador.

   Sabia eu que não só entre as obras, na longa série dos séculos, mas também no seio de uma mesma obra, se diverte a crítica a mergulhar de novo na sombra o que era radiante há demasiado tempo, e em fazer sair da sombra o que parecia condenado à obscuridade definitiva.

   [...] há em suma mais amantes do que maridos inconsoláveis.

   Nossa memória e nosso coração não são bastante grandes para que possam ser fiéis. Não temos suficiente lugar, em nosso pensamento atual, para guardar os mortos ao lado dos vivos. Somos obrigados a construir sobre o que precedeu e que só tornamos a encontrar ao acaso de uma escavação [...].


Extraídos do vol. 3 de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, "O caminho de Guermantes", com tradução de Mário Quintana, editora Globo, 1964.


domingo, 17 de julho de 2016

VELHO CHICO AGONIZA



   Mesmo com as chuvas deste ano, Sobradinho, a principal represa, ainda está em 25% da capacidade. Segundo João Suassuna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, a qualidade da água do rio é cada vez pior e há risco de que doenças de veiculação hídrica possam ser espalhadas pela água que chegar aos canais de transposição.
   "A cidade de Januária, que é banhada pelo rio, não bebe mais a água dele. Só de poço."

   Reproduzo esse pequeno trecho de reportagem publicada hoje, 17.07.16, pela Folha de SP, sobre mais investimentos que o governo federal interino prevê para obras de recuperação na bacia do rio São Francisco, dragagens e saneamento básico em cidades ribeirinhas, em função da transposição de suas águas para, digamos, rios temporários em dois eixos Nordeste adentro. Lembro que Januária fica em Minas Gerais.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

PROUSTIANAS 6



   Destreza, só tornava a encontrá-la no amor, graças a essa tocante presciência das mulheres que amam tanto o corpo do homem que adivinham no primeiro instante o que dará mais prazer a esse corpo, no entanto tão diferente do seu.

  [...] a ideia da maldade tem para mim algo de demasiado doloroso.

   O que chamamos nossa conduta permanece ignorado de nosso mais próximo vizinho; o que esquecemos haver dito, ou que até nunca dissemos, vai provocar hilaridade até num outro planeta, e a imagem que os outros formam de nossos gestos e atitudes tão pouco se parece com a que nós próprios formamos, como com um desenho um decalque mal feito, e onde ora a um traço negro corresponde um espaço vazio, e a um branco um contorno inexplicável.

   E dirigiu à mãe as censuras de que talvez se sentisse merecedor; é assim que os egoístas têm sempre a última palavra [...]

   Há males que de que não se deve buscar a cura porque só eles nos protegem contra males mais graves.

   Pois como a medicina é um compêndio dos erros sucessivos e contraditórios dos médicos, recorrendo aos melhores destes, corre-se o risco de solicitar uma verdade que será reconhecida falsa alguns anos mais tarde. De modo que acreditar na medicina seria a suprema loucura se não acreditar nela não fosse loucura maior, pois desse amontoado de erros se desenvencilharam com o tempo algumas verdades.

   Suporte que a considerem uma nervosa. A senhora pertence a essa família magnífica e lamentável que é o sal da terra. Tudo o que conhecemos de grande nos vem dos nervosos. Foram eles e não outros que fundaram as religiões e compuseram as obras-primas. Jamais o mundo saberá tudo quanto lhes deve e principalmente o quanto eles sofreram para lhe dar o que deram. Apreciamos as finas músicas, os belos quadros, mil delicadezas, mas não sabemos o que isso custou, aos que inventaram, em insônia, em lágrimas, em risos espasmódicos, em urticárias, em asmas, em epilepsias, e numa angústia de morrer que é pior que tudo isso [...]

   [...] essa estranha indiferença que temos para com nossos parentes enquanto vivem, que faz com que os negligenciemos em favor de todo mundo [...]

   É um terrível conhecimento, menos pelos sofrimentos que causa do que pela estranha novidade das restrições definitivas que impõe à vida. Vemo-nos morrer, neste caso, não no próprio instante da morte, mas meses, até anos antes, desde que ela veio hediondamente morar conosco. 


 Extraídos do vol. 3 de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, "O caminho de Guermantes", com tradução de Mário Quintana, editora Globo, 1964.

domingo, 26 de junho de 2016

PROUSTIANAS 5



   [...] a beleza pode ser a mais nobre das assinaturas [...]

   [...] são as obras verdadeiramente belas, quando sinceramente ouvidas, que mais nos devem decepcionar, porque na coleção de nossas ideias não há nenhuma que corresponda a uma impressão individual.

   [...] a verdade não tem necessidade de ser dita para ser manifestada, e que podemos colhê-la mais seguramente sem esperar pelas palavras e até mesmo sem levá-las em conta, em mil sinais exteriores, mesmo em certos fenômenos invisíveis, análogos, no mundo dos caracteres, ao que são, na natureza física, as mudanças atmosféricas.

    Pretendem os poetas que tornamos a encontrar por um momento o que fomos outrora, quando entramos em certa casa, em certo jardim em que vivemos na juventude. São peregrinações muito arriscadas, essas, ao fim das quais se colhem tantas decepções como êxitos. Os lugares fixos, coevos de anos diferentes, é em nós mesmos que é melhor encontrá-los.

   E com efeito, passamos juntos quase toda a noite, conversando ante os nossos copos de sauternes que não esvaziávamos, separados, protegidos dos outros pelos véus magníficos de uma dessas simpatias entre homens que, quando não tem por base atrativos físicos, são as únicas verdadeiramente misteriosas.

   Cada um é homem da sua ideia; há muito menos ideias que homens, de modo que os homens de uma mesma ideia são iguais. Como uma ideia nada tem de material, os homens que só materialmente estão em torno do homem de uma ideia não o modificam em coisa alguma.

   Não se faz um atelier de pintura com qualquer sala, não se faz um campo de batalha com qualquer local. Há lugares predestinados.
   


 Extraídos do vol. 3 de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, "O caminho de Guermantes", com tradução de Mário Quintana, editora Globo, 1964.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

PROUSTIANAS 4



   [...] toda decadência aceita tem como resultado tornar as pessoas menos exigentes no tocante àqueles com quem se resignaram a conviver, menos exigentes quanto ao seu espírito como quanto ao resto. E se isso é verdade, devem os homens, como os povos, ver a própria cultura, e até mesmo a própria língua, desaparecer com a independência.

   Tornamo-nos morais quando somos infelizes.

   Sem dúvida, a coisa mais espalhada no mundo não é o senso-comum, como se costuma dizer, mas a bondade.

   [...] um artista, para entrar na plena verdade da vida espiritual, deve estar só e não prodigalizar o que é seu, nem sequer a seus discípulos [...]

   Tinha conversado com ela sem saber onde caíam minhas palavras e aonde iriam parar, como se tivesse lançado pedras num abismo sem fundo.

   Recordamos: vamos ao encontro de um pavão e damos com uma peônia.

   [...] aqueles poucos passos que ninguém mais podia deter, eu os dei com delícia, com prudência, como que mergulhado num elemento novo, como se, avançando, eu fosse lentamente deslocando felicidade, e ao mesmo tempo com um sentimento desconhecido de onipotência e de que entrava enfim na posse de uma herança que sempre me pertencera.

   Pois para sofrer verdadeiramente por uma mulher, cumpre haver acreditado completamente nela.
 
 

Extraídos de "À sombra das raparigas em flor", vol. 2 de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, editora Globo, Porto Alegre, 2a. edição, 1973.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

POEMA DO NOME


quando eu nasci, 
lá foi meu pai montado a cavalo
com um nome no bolso guardado
me incluir na saga dos desvalidos

como feito a mais de 150 mil outros meninos naquela década

em 1930 somamos uns 10 mil aos raros Carlos da terrinha
em 1940 acrescentou-se uma fornada de mais 50 mil
eu mal aprendera a caminhar em 1960 
e aquela jovem guarda despejava 270 mil Carlos no Brasil

nos anos 1970 a turma de Carlos se fez um pouco menor:
260 mil, por aí
nos 80 voltou-se ao arrebanhado nos 60
para despencar nossa produção a uns
200 mil na década seguinte
e adentrar o novo século, enfim,
numa reação espetacular,
juntando mais 260 mil Carlinhos 
aos que aqui pelejavam

e dizem que agora somos quase um milhão e meio de Carlos
identificados pelo IBGE
a respirar brasilidades

gostam mais de Carlos em São Paulo: 327 mil
no Rio de Janeiro fazemos sucesso: 190 mil
em Minas Gerais, terra do mais famoso Carlos, muito nos apreciam: 153 mil
para em seguida, vejam vocês, vir a Bahia: 98 mil

mas onde em proporção há mais Carlos, pasmem,
é entre os cariocas, sergipanos, maranhenses e capixabas,
o que significa absolutamente nada

e eu, que venho de longe sendo Carlos, a tudo isso desconhecia
na minha vã trapalhada em superar minha agonia 

mas sei que não importa o cantar da gia
nem ser o quinto em popularidade
nem quantos Carlos há nesta cidade
sigo a sina que me deram um dia;

jamais largar a oportunidade
de em tudo na vida fracassar




segunda-feira, 13 de junho de 2016

PROUSTIANAS 3



   [...] um belo livro é particular, imprevisível e não é feito da soma de todas as obras-primas precedentes, mas de alguma coisa que não se alcança com o haver assimilado perfeitamente essa soma, porque está precisamente fora dela.

   Mas eu não queria chegar apenas a seu corpo, e sim à pessoa que nele vivia, essa pessoa com quem parece entrarmos em contato quando chamamos a sua atenção, e em que julgamos penetrar quando lhe sugerimos uma ideia.

   Mais tarde, veem-se as coisas de modo mais prático, mais de acordo com o resto da sociedade, mas a adolescência é a única época em que se aprende alguma coisa.

   "Afinal de contas", pensava eu, "talvez o prazer que se teve em escrevê-la não seja o critério infalível do valor de uma bela página, talvez não passe de um estado acessório que muitas vezes se lhe vem juntar, mas cuja falta não pode incriminá-la. Talvez algumas obras-primas tenham sido compostas entre bocejos".

   O amor mais exclusivo por uma pessoa é sempre o amor de outra coisa.

   Se um pouco de sonho é perigoso, não é menos sonho que há de curá-lo, e sim mais sonho, todo o sonho. É preciso conhecer inteiramente os nossos sonhos para não mais sofrer com eles [...]

   E no momento em que surge o perigo, ainda que seja mortal e que me ache num estágio da vida inteiramente tranquila e feliz, se estou com outra pessoa, não posso deixar de colocá-lo a salvo e tomar para mim o lugar de perigo. 

   [...] um artista, para entrar na plena verdade da vida espiritual, deve estar só e não prodigalizar o que é seu, nem sequer a seus discípulos [...]



Extraídos de "À sombra das raparigas em flor", vol. 2 de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, editora Globo, Porto Alegre, 2a. edição, 1973.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

PROUSTIANAS 2


   É preciso que a obra [...] crie ela própria sua posteridade.

   [...] o que chama à vida as possibilidades ou dela as exclui não é forçosamente da competência do gênio; pode-se ter sido gênio e não haver acreditado no futuro dos caminhos de ferro ou dos aviões, como se pode ser grande psicólogo e não crer na falsidade de uma amante ou de um amigo, cujas traições poderiam ser previstas por gente mais medíocre.

   Só nas vidas realmente viciosas é que o problema moral se pode apresentar em toda a sua força de ansiedade. E a esse problema dá o artista uma solução, não no plano da sua vida individual, mas do que é para ele a sua verdadeira vida, uma solução geral, literária. Como os grandes doutores da Igreja começaram muita vez, sem deixar de ser bons, por conhecer os pecados de todos os homens, para disso tirar a sua santidade pessoal, muita vez os grandes artistas, embora maus, se servem de seus vícios para chegar à concepção da regra moral de todos.

   Três quartos do mal das pessoas inteligentes provêm da sua inteligência.

   [...] a nossa memória não nos apresenta habitualmente as recordações na ordem cronológica, mas como um reflexo onde está alterada a ordem das partes...

   No tocante às mulheres que não nos amam, como no caso dos "desaparecidos", saber que nada mais se tem que esperar não impede que continuemos a esperar.

   Elástico é o tempo de que dispomos cada dia; as paixões que sentimos o dilatam, as que inspiramos o encurtam e o hábito o enche.

   Não era a primeira vez que eu reconhecia que as criaturas que amam não são as mesmas criaturas que gozam.

 
Extraídos de "À sombra das raparigas em flor", vol. 2 de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, editora Globo, Porto Alegre, 2a. edição, 1973.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

PROUSTIANAS



   A esperança de ser aliviado lhe dá ânimo para sofrer.

   Mas nem mesmo com referência às mais insignificantes coisas da vida somos nós um todo materialmente constituído, idêntico para toda a gente e de que cada qual não tem mais do que tomar conhecimento, como se se tratasse de um livro de contas ou um testamento: a nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio.

   O que censuro nos jornais é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais.

   [...] assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque do sr. Swann, e as ninfeias do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias e a igreja e toda Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha taça de chá.

   A meia altura de uma árvore indeterminada, um pássaro invisível empenhava-se em que fosse breve o dia, explorando com uma nota prolongada a solidão circundante, mas recebia desta uma réplica tão unânime, um contragolpe tão reduplicado de silêncio e imobilidade que dir-se-ia que ele acabava de parar para sempre o instante que procurava fazer passar mais depressa.

   Só há duas classes de criaturas: as magnânimas e as outras; e cheguei a uma idade em que é preciso tomar partido, decidir de uma vez por todas a quem se quer amar e a quem se quer desdenhar, apegar-se àqueles a quem a gente ama e não mais deixá-los até a morte, para resgatar o tempo perdido com os outros.

   Saber nem sempre permite evitar.

   A gente não conhece a própria felicidade. Nunca se é tão infeliz quanto se pensa.

   [...] a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos.


Extraídos de "No caminho de Swann", vol. 1 de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, editora Globo/Porto Alegre, 2a edição, 1961

segunda-feira, 30 de maio de 2016

VOZES DE TCHERNÓBIL, SVETLANA ALEKSIÉVITCH (2)



 

   Uma coletânea impressionante de depoimentos viscerais sobre a tragédia de Tchernóbil.
   Um povo marcado pelo estigma do totalitarismo: subserviência, obediência cega, medo das autoridades, confiança absoluta nas armas.
   Um inimigo invisível, uma guerra que não podia ser vencida, enfim.
   Uma usina nuclear construída como se fosse uma granja.
   Mentiras e silêncio para não disseminar o pânico: não distribuíram máscaras e roupas especiais e tudo não passava de um incêndio sob controle.
   Quase ninguém sabia o que fazer. E quem sabia era impedido de fazer. A KGB no controle.
   Homens subindo no teto do reator de mãos limpas e camisetas.
   "Para a liquidação das consequências do acidente destinaram um total de 210 unidades militares, ou seja, cerca de 340 mil militares". "Usavam as botas de cano longo habituais e permaneciam de um minuto e meio a dois por dia no teto. E em seguida, davam-lhes baixa do Exército, um diploma e um prêmio de 100 rublos. E eles desapareciam nos espaços infinitos de nossa pátria". "Pelo teto do reator passaram 3,6 mil soldados".
   Heróis diplomados. Todos mortos pela radiação.
   Aldeias evacuadas pela manhã, reocupadas na calada da noite: um povo que não entendia o motivo daquela movimentação se o inimigo não era visível, se as macieiras davam frutos, se a água continuava boa de beber. Um povo que ria dos cientistas e fazia piada com radiação.
   Um território proibido que, mais tarde, serviria de refúgio a sobreviventes de guerras intestinas, como a da Chechênia.
   Um episódio que contribuiu, em muito, para a derrocada do totalitarismo comunista, para a Perestroika.
   Um livro que recupera aqueles dias de horror com uma força digna da melhor literatura. Uma autora que deixa as vozes comandarem a narrativa, que pouco interfere, e quando faz, é brilhante.
   "A memória nos inspira. Nós sempre vivemos no terror, somos capazes de viver no terror; é o nosso habitat. E nisso, o nosso povo não tem rivais...", diz um dos testemunhos.


Vozes de Tchernóbl, Svetlana Aleksiévitch, tradução de Sonia Branco, Companhia das Letras, 2016.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O GIGANTE ENTERRADO, KAZUO ISHIGURO




   Um casal de idosos que viaja a pé até a aldeia onde mora o filho.
   Um cavaleiro andante em missão dada pelo rei Arthur.
   Um guerreiro estrangeiro em missão secreta.
   Saxões e bretões em paz ameaçada.
   Uma dragoa.
   Uma névoa que traz o esquecimento a todos.
   Um barqueiro que faz a travessia até incerta ilha.
   Um convento em que pontua um monge lacerado por chagas.
   Uma aquarela medieval.
   Uma trama difusa, barroca, jogo de espelhos cortinados.
   O bem habitando o mal.
   O mal conduzindo o bem.
   Uma discussão preciosa sobre a importância do passado.
   Lembrar seria entrave ao amor?
   Ter ou não ter a resposta correta.
   O que verdadeiramente sustenta a paz?
   Não se enterra jamais a sede por sangue.
   E até mesmo uma dragoa cai em sono profundo.
   Sempre haverá um segredo a proteger.
   Quem será deixado para trás, nessa jornada?


O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro, em tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2015

quarta-feira, 25 de maio de 2016

VOZES DE TCHERNÓBIL, SVETLANA ALEKSIÉVITCH



   Você já ouviu alguma vez crianças conversando sobre a morte? Pois os meus, do sétimo ano, discutem e questionam: a morte dá medo ou não? Ainda há pouco, o que interessava a eles era: de onde eu vim? De onde vêm os bebês? Agora, o que os preocupa é o que acontecerá depois da bomba atômica. Deixaram de amar os clássicos, eu recito Púchkin de cor para eles e vejo os seus olhares frios, ausentes... Há um vazio... O mundo em torno deles é outro. Leem ficção científica, é isso que os atrai, ver como o homem se afasta da Terra, como opera com o tempo cósmico, como vive em mundos distintos. Eles não podem temer a morte da mesma forma que os adultos, como eu, por exemplo; a morte os preocupa como algo fantástico. Como uma viagem para algum lugar.
   Reflito sobre isso. Penso neles. A morte que nos rodeia obriga a pensar muito. Eu ensino literatura russa para crianças que não são mais as mesmas de dez anos atrás. As de hoje assistem constantemente coisas e pessoas serem enterradas. Serem cobertas pela terra. Pessoas conhecidas. Casas, árvores. Tudo é enterrado. Quando fazem fila, essas crianças desmaiam, quando ficam em pé por quinze ou vinte minutos, vertem sangue pelo nariz. Não há nada que as surpreenda, que as alegre. Estão sempre sonolentas, cansadas. O rosto pálido, cinzento. Não brincam e também não brigam por nada. E se chegam a brigar, se quebram sem querer o vidro de uma janela, os professores até ficam contentes. Não se zangam, porque eles não parecem crianças. E crescem tão lentamente. Se você pede na aula que repitam algo, se você diz uma frase para que repitam em seguida, eles já não se lembram. "Onde você está? Onde?", você tenta tirá-los do transe. Eu fico pensando. Penso muito nisso. É como se eu desenhasse com água sobre o vidro; o que desenhei só eu sei, ninguém vê, ninguém adivinha. Ninguém imagina.
[...]
   A imaginação. As crianças crescem dentro de casa. Sem o bosque e o rio... Apenas olham pela janela. São crianças muito diferentes. Eu apresento "Hora de desalento. Encanto do olhar..." do mesmo Púchkin que me parecia eterno. Às vezes me vem o pensamento sacrílego de que a nossa cultura não é mais que um baú de velhos manuscritos. Tudo aquilo que eu amo...
Professora Nina Kontantinovna, em Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch, Cia das Letras, 2016.