- Pai nosso
- que estais no céu
- Santificado seja vosso nome
- Venha a nós o vosso reino
- Seja feita a vossa vontade
- assim na terra como no céu (de todos os mundos)
- O pão nosso de cada dia
- nos dai hoje (e sempre)
- Perdoai as nossas ofensas
- assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
- Não nos deixei cair em tentação
- e livrai-nos do mal
- pois vosso é o reino e a glória para todo o sempre
- Amém
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
AO PAI
domingo, 28 de novembro de 2010
HOSPITAL PÚBLICO
KC tem 22 anos. E como toda moça tem um celular bacana. Ou tinha, não sei. É que KC levou três tiros nas costas por causa do celular. Duas balas estão, ainda, alojadas em sua coluna. E faz mais de duas semanas que KC está numa cama de um hospital público em Salvador, na fila por uma cirurgia.
A mãe de KC é minha conhecida. Tenho-a visitado e ajudado como posso. Ela me diz que KC não sente as pernas. Mas que as balas queimam por dentro. E que ela sente muita dor na hora do banho.
KC não consegue dormir. Nem mesmo com remédios. Qualquer barulho a assusta. Não deixa a mãe se afastar da cama. A mãe dorme no chão, ao lado da cama. Outras mães fazem o mesmo que ela.
O fato de haver outras pessoas na mesma situação não constitui desculpa para o Estado. Uma cidadã apenas, nesta situação, já deporia contra a atuação do Estado na área da saúde. E há muitas.
Estive no Hospital na sexta-feira à tarde. Justo quando um comboio da polícia trazia feridos em conflito na avenida Bonocô. Deu nos jornais a bagaceira. São as tais emergências que adiam a cirurgia de KC.
E assim continuam lá no Hospital, KC e sua mãe, aguardando um momento de calmaria nos conflitos da cidade, para que a fila ande. E que as balas sejam retiradas da coluna de KC.
O horror, o horror, o horror é aqui.
Irei lá amanhã, de novo. Até quando, não sei.
*************
Estive no Hospital hoje, segunda-feira. KC saiu da "emergência" para a enfermaria. A mãe está esperançosa. Isso representa muito. O que dizer?
A mãe de KC é minha conhecida. Tenho-a visitado e ajudado como posso. Ela me diz que KC não sente as pernas. Mas que as balas queimam por dentro. E que ela sente muita dor na hora do banho.
KC não consegue dormir. Nem mesmo com remédios. Qualquer barulho a assusta. Não deixa a mãe se afastar da cama. A mãe dorme no chão, ao lado da cama. Outras mães fazem o mesmo que ela.
O fato de haver outras pessoas na mesma situação não constitui desculpa para o Estado. Uma cidadã apenas, nesta situação, já deporia contra a atuação do Estado na área da saúde. E há muitas.
Estive no Hospital na sexta-feira à tarde. Justo quando um comboio da polícia trazia feridos em conflito na avenida Bonocô. Deu nos jornais a bagaceira. São as tais emergências que adiam a cirurgia de KC.
E assim continuam lá no Hospital, KC e sua mãe, aguardando um momento de calmaria nos conflitos da cidade, para que a fila ande. E que as balas sejam retiradas da coluna de KC.
O horror, o horror, o horror é aqui.
Irei lá amanhã, de novo. Até quando, não sei.
*************
Estive no Hospital hoje, segunda-feira. KC saiu da "emergência" para a enfermaria. A mãe está esperançosa. Isso representa muito. O que dizer?
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
O NAVIO BRANCO

"O navio branco" tocou meu coração profundamente. Começa por ter um protagonista criança; e um coprotagonista idoso. Neto e avô. Pureza e fragilidade. Dois estágios da condição humana que se situam ao largo da arrogância e prepotência dos adultos competidores. O menino não tem nome, não tem pai nem mãe, dele cuida o avô, Momun o Solícito. E as outras pessoas do "cordão", distrito, são expressão da violência, embriaguez, mesquinharia e egoísmo, coisas típicas de gente grande e sabida. No império do materialismo histórico, Momun repassa ao neto a história do povo "bugu", das montanhas da antiga Quirquízia, por meio da lenda da grande Mãe Cerva-Galhuda. Pessoas assim sofrem muito neste mundo, território privilegiado do poder humano. O menino usa o binóculo do avô para trazer o mundo distante ao toque dos seus dedos. Um mundo inalcançável, na verdade, como o navio branco no mar. E tudo o mais à sua volta se prepara em horror e dor. Um história pungente, de tirar lágrimas do leitor.
Publicado em 1967, "O navio branco", de Tchinguiz Aitmátov, foi um sucesso editorial, recebendo críticas negativas da oficialidade soviética. Ali estava a tradição oral do povo quirquiz, algo a se eliminar, como o sonho, a sensibilidade, a humanidade, a liberdade. Em 1976, o filme baseado no livro foi considerado o melhor do ano na URSS. Li o exemplar que me foi emprestado por Ruy Espinheira Filho, edição de 1991, da Editora Brasiliense.
Assim começa a narrativa:
"Ele tinha duas histórias. Uma, a sua, que ninguém conhecia. A outra, a que o avô contava. Depois não restou nenhuma. É disto que vamos falar.
Naquele ano ele completara sete anos, estava na casa dos oito.
Para começar, compraram uma pasta. Uma pasta preta de couro artificial, com fechadura e trinco de metal brilhante que engatava numa fivela. Com um bolsinho por fora para moedas. Numa palavra, uma incomum pasta escolar das mais comuns. Parece que foi aí que tudo começou."
O resto é um rol de maravilhas.
domingo, 21 de novembro de 2010
TODOS OS HOMENS SÃO MENTIROSOS
Sob a superfície do que somos capazes de expressar em palavras, jaz essa massa do indizível profundíssima e escura, um oceano sem luz onde nadam criaturas cegas e inimagináveis.Uma frase do romance "Todos os homens são mentirosos", de Alberto Manguel, escritor nascido argentino, naturalizado canadense e que mora no interior da França (Companhia das Letras, 2010, 177 pgs.). Narrativa fragmentária que procura reconstruir a biografia de um obscuro e genial escritor argentino exilado em Espanha, A. Bevilacqua, que jamais escreveu um livro e que, no entanto, publicou a obra definitiva, "Elogio da mentira". Só por curiosidade, a segunda parte, depoimento da última companheira do escritor, inicia com a seguinte frase: "Alberto Manguel é um imbecil." É que Manguel é o primeiro narrador desse excelente romance.
Imagem: Bol Fotos.
domingo, 24 de outubro de 2010
DESERTO DIAMANTINO

Este aí é o poeta galego Xavier Rodríguez Baixeras, que tem passado os últimos verões aqui na Bahia e frequentado o almoço das quintas-feiras no restaurante do Edinho, no Ceasa do Rio Vermelho. No "Contosempre", meu blogue desativado, postei um belíssímo poema do seu livro "O pan da tarde".
O Baixeras tornou-se um profundo conhecedor do Rio Vermelho, onde sempre fixa moradia, e admirador da obra de Herberto Sales. Visitou Andaraí e a Chapada Diamantina. Escreveu o livro de poemas "Deserto Diamantino", que venceu o VIII Premio Caixanova 2009.
Tive a alegria de receber hoje um exemplar de "Deserto Diamantino". Estou lutando com as sutilezas da língua galega e aos poucos alcançando a grandeza dos poemas diamantinos do Baixeras.
Deixo aqui as estrofes finais do primeiro poema, "Regalía" (sesmaria):
"Estou aqui, perplexo, contemplando
o tempo retorcendóse aos meus pés
e acomodo ao que fun o seu revés
de cabalgada, e ando
grandes leguas colmadas de demora
e vou tomando a pose desta herdade
serodia como a vida e xa saudade,
calor que me devora."
terça-feira, 12 de outubro de 2010
O REI BRANCO

Grandioso. Relatos sobre a violência da opressão. De como essa violência se reproduz em todos os níveis sociais. De como cada pessoa se apropria do direito/dever de inflingir violência no mais próximo. De como tudo que é digno se torna distante da vida real, prenhe de dedos-duros. De como a miséria se apossa dos dentes e unhas e se faz desespero. De como a vida pode ser tormentosa, patética, absurda. De como a realidade forjada serve apenas ao discurso de quem se refestela nos altos cargos, apertando suas manoplas sobre os mais fracos. De como os imbecis se reunem para controlar um povo e se regurgitam na própria obtusidade. De como o cotidiano se mostra mais cruel que no Velho Oeste, pois contido em frases obrigatórias, em regulamentos pérfidos, em burocracia histriônica e inoperante. De como ser criança é habitar um estado permanente de carência e dor. De como a humanidade resiste apenas naqueles decaídos, marginalizados pelo "estado', nos ditos traidores da pátria (PORQUE PENSAM DIFERENTE OU PORQUE APENAS DESEJAM UM POUCO DE LIBERDADE E AMOR). De como o amor pode se tornar algo pérfido e afastado. De como se vive num estado totalitário. Um mundo sem calor paterno, sem paz, somente o culto ao Grande Pai. Um mundo de ódio canalizado para destruir tudo que possa ser rotulado de humano. Um mundo gélido, imundo e horroroso. Um mundo sem asas.
E ainda há quem queira construir regimes desse tipo. Talvez por isso odeiem os escritores, gente como György Dragomán, capaz de revelar as grandes verdades da vida. Sim, pois a verdade, penso eu, reside somente na literatura. O resto é conversa pra conduzir rebanho ao matadouro.
Leiam o premiado "O rei branco", do escritor húngaro György Dragomán, publicado pela Intrínseca, em 2009, em tradução de Paulo Schiller. E verão, e saberão.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
UM ANIMAL DE LUZ ENCURRALADO

Primeiro, quero dizer que o efeito produzido pela poesia do chileno afeta fisicamente seus interlocutores. Provoca a sensação de estar embriagados num licor sibilino, na monotonia de cascavel com que arrasta sua voz, nas pestanas longínquas e pupilas hipnotizadoras. Se a pseudopoesia de vanguarda é aquela em que o poeta sai correndo na frente, a verdadeira poesia de vanguarda é aquela em que o poeta faz os outros correrem na frente.
In "Neruda por Skármeta", de Antonio Skármeta, Record, 2005
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